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Zona de conforto

Por Affonso Romano de Sant’Anna

 


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De uns tempos para cá, fala-se muito em “zona de conforto”. Depois de tanto ouvir essa expressão, você quer saber o que é isto.

Matérias sobre moda falam disto: tal vestido e/ou tênis coloca você na zona de conforto. Não são apenas as poltronas que devem nos acolher melhor, mas nos shopping espalharam sofás para aumentar nossa zona de conforto. Há cinemas que aumentaram a zona de conforto com cadeiras reclináveis servindo vinho durante o filme. Uma simples bermuda ou short tem que trazer você para a zona de conforto. Automóveis, nem se fala! Dá-lhe conforto na zona do trânsito. Se você vai ao médico, advogado e psicólogo, eles falam disto. Evidentemente que na hora de namorar os pares sempre procuraram a sua zona de conforto. Enfim, conforto virou uma mercadoria.

Então fui atrás da expressão. E descobri que nas grandes empresas não se fala de outra coisa. Tem gente especializada em zona de conforto. Os departamentos de recursos humanos elaboram teorias sobre isto. E sou levado a pensar que foram os americanos que inventaram essa mania. Os psicólogos devem ter feito experiências com ratinhos antes de aplicarem isto nas multinacionais.  Imagino que os animais procurem sua zona de conforto. Antes se chamava de “querência” aquele lugar onde você preferencialmente se assenta, se deita e contempla o mundo. E se sente bem. É a sua zona de conforto.

No entanto, existe a zona do conforto e a zona do desconforto. E aqui é que a porca torce o rabo. A gente pensa que a zona de conforto é o lugar ideal. Pelo menos é assim que a publicidade, e nós, ingenuamente, julgamos. Queremos o mínimo de desgaste e o máximo de segurança. No entanto, instala-se o paradoxo ou complexidade dentro dessa teoria aparentemente tão simples.

Para muitos o conforto é um perigo, pois aí os medos e riscos estão domados e a vida vira uma chatura. Tudo é previsível. Você começa a sentir desconforto no conforto. Vejam o Papa: estava confortável na Santa Sé, foi pedir aquele inquérito sobre a corrupção e o pecado no Vaticano, e não aguentou mais o conforto em que estava, pulou para o desconforto em que lançou toda a Igreja.

Dizem os especialistas que o desconforto obriga a pessoa a crescer. É. E não é. Tem gente que pula de um desconforto para o outro e nunca amadurece. É a vocação para viver na borda do abismo. Já outros preferem manter o abismo à distância, pois afinal, abismo é abismo.

Dizem os especialistas que você só aprende com experiências novas. Há que ousar, dizem eles. Na zona de conforto você controla tudo. Há qualquer coisa de júbilo burocrático nisto. (Estou me lembrando de “Dona Flor e Seus Dois Maridos” de Jorge Amado. O personagem Teodoro era a zona de segurança e conforto, Vadinho era sexualidade surpreendente. E estou me lembrando dos personagens de Clarice Lispector caindo no desconforto da epifania).

Por essa via, é possível entender a história do paraíso, a expulsão de Adão e Eva do Eden: saíram do conforto para o desconforto. Não é à toa que Jeová foi logo dizendo para eles irem arar a terra com o suor do próprio rosto. Chega de sombra e agua fresca.

Embora haja uns oásis por aí, a vida nunca foi sombra e água fresca. Que o diga Sísifo, que o diga Hércules, que o diga Cristo na cruz, que o diga Bento XVI em crise pública e notória.

Mas aí desponta algo para observações mais profundas. Há muito que nossa cultura cultiva o “mal-estar da civilização”. Cultivar o mal-estar e o horror virou palavra de ordem. Vejam parte da arte contemporânea.

Não estranha, portanto, que, paradoxalmente, se procure a zona de conforto.

Enfim, tudo é possível: conforto no conforto, desconforto no conforto, conforto no desconforto e desconforto no desconforto. Cada qual na sua. Ou como dizem em Minas: nem tanto ao mar, nem tanto à terra.

Affonso Romano de Sant’Anna: Um dia dizendo seus poemas no Festival Internacional de Poesia Pela Paz, na Coréia (2005), ou fazendo uma série de leituras de poemas no Chile, por ocasião do centenário de Neruda ( 2004), ou na Irlanda, no Festival Gerald Hopkins(1996), ou na Casa de Bertold Brecht, em Berlim(1994), outro dia no Encontro de Poetas de Língua Latina(1987), no México, ou presente num encontro de escritores latino-americanos em Israel(1986), ou participando o International Writing Program, em Iowa(1968), Affonso Romano de Sant’Anna tem reunido através de sua vida e obra, a ação à palavra . Nos anos 90 foi escolhido pela revista “Imprensa” um dos dez jornalistas que mais influenciam a opinião pública. Em 1973 organizou na PUC/RJ a EXPOESIA, que congregou 600 poetas desafiando a ditadura e abrindo espaço para a poesia marginal; foi assim quando em 1963, no início  de sua vida literária, tornou-se um dos organizadores da Semana Nacional de Poesia de Vanguarda, em Belo Horizonte. Com esse mesmo espírito de aglutinar e promover seus pares criou, em1991, a revista “Poesia Sempre” que divulgou nossa poesia no exterior e foi lançada tanto na Dinamarca, quanto em Paris, tanto em São Francisco quanto New York, incluindo também as principais capitais latino-americanas. Atento à inserção da poesia no cotidiano, produz poemas para rádio, televisão e jornais. Tendo vários poemas musicados (Fagner, Martinho da Vila), foi por essa e outras razões convidado a desfilar na Comissão de Frente da Mangueira na homenagem a Carlos Drummond de Andrade, em 1987.  Apresentou-se falando seus poemas, em concerto, ao lado do violonista Turíbio Santos. Tem também quatro CDs de poemas: um gravado por Tônia Carrero, outro comparticipação especial de Paulo Autran, outro na sua voz editado pelo Instituto Moreira Salles e o mais recente outro pela Luzdacidade, com a participação de atrizes e escritoras. Seu CD de crônicas, tem participação especial de Paulo Autran. Escreveu dezenas de livros de ensaios e crônicas. Como cronista, aliás, substituiu Carlos Drummond de Andrade no “Jornal do Brasil” (1984).

fonte:jb

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