CURSO DE INTRODUÇÃO À POESIA

MATRÍCULAS ABERTAS

Comunicamos que estão, oficialmente, abertas as matrículas do Curso de Introdução à Poesia para este ano letivo de 2020.

As primeiras turmas terão início no dia 28/01, com duração de 4 semanas.

As aulas serão realizadas na Academia Pernambucana de Letras.

As inscrições deverão ser realizadas na secretaria da própria academia ou via e-mail: oficinaflaviochaves@hotmail.com.

Maiores informações pelo nosso WhatsApp 81 9.9525-5521.

Cordialmente Flávio Chaves

A SOLIDÃO DOS PÁSSAROS APRISIONADOS PELA IGNORÂNCIA HUMANA

Por Jota Caballero

Em sã consciência você não aprisionaria alguém inocente, correto?
 Entretanto, é o que vemos diariamente, gaiolas penduradas em janelas, pessoas carregando seus pequenos presídios, com seus condenados para “pegar sol” pela manhã, estranho, não?  Sim, se pararmos para refletir sobre essas pequenas atitudes danosas a outros e nos colocássemos no lugar desses, talvez agiríamos com mais senso de justiça, reconhecimento e o principal, compaixão.

Há falta de total empatia, onde não percebemos o mal que produzimos com essa atitude gerada pela ignorância, ganância e na prática, falta de sensibilidade e inteligência. Se colocar no lugar dos outros nos faz um pouco melhor e quando nos sentimos bem com isso, pode ter certeza que estamos agindo no caminho certo, e que por intuição nos diz “é isso, isso é o certo!” Então, é óbvio que criar animais em gaiolas, presos e subjugados é errado, e que  não temos direitos sobre a vida de ninguém.

Seres vivos, pássaros, pequenos animais dotados da capacidade de voar. Esses, tem sua individualidade, sua existência e seu serviço à mãe natureza, e infelizmente são enclausurados por “humanos” com capacidade baixíssima de entender e muito menos compreender o quanto todos os seres vivos são necessários e estão aqui por algum motivo de força maior.  Alguém quebra esse ciclo, trancafiando um pequeno  ser inocente e indefeso, dotado e capacitado para nos dar vida sem pedir nada em troca.  Você já refletiu sobre isso? Nunca é tarde, já que à vida passa e a sua também, ninguém é eterno. Então aproveite sua capacidade peculiar de refletir sobre tudo e seja mais honesto com sigo e com o mundo a sua volta.

 Muitos de nós ou grande maioria, age mecanicamente por costumes, culturas primitivistas, condicionamentos, repetições e digamos, adestramento social. A pessoa age por instrução de alguém ou alguma coisa,  sem ao menos se questionar dessas atitudes maléfícias que promove todos os dias,  formando um balé cruel e desproporcional a “racionalidade” que carregamos, relativizada pelo antropocentrismo cruel, colocada em prática a nossa volta  sem ética nenhuma.
 “Racionalidade” não quer dizer que tenha sobriedade, que não quer dizer que tenha lucidez, como também não quer dizer que seja justa. Consciência vai muito além disso, e é o fator primordial para a verdadeira e universal justiça, sobrepondo essa  racionalidade que gira em torno da nossa espécie a colocando acima de todos os outros seres, o que é um erro grave e fatal. O ser humano não sobrevive sem outras espécies e estranhamente exterminamos tudo a nossa volta,  e um dia, quem sabe, a nós mesmos.

Tirar um passarinho possuidor de asas da natureza e o enclausurar dentro de uma gaiola de meros  30×40 de espaço, onde resume-se sua vida em zero, só tem um significado: crueldade produzida por cegueira não física, e sim, mental. Esses animais podem voar por quilômetros, atravessar municípios, estados, comer de todos os frutos que desejar e beber de todas as fontes. Mas não! Vai lá um ser que se diz “racional”, o captura, trancafia e oferece uma alimentação repetida e água quente eternamente, onde  muitas vezes esses infelizes “humanos” os esquecem no banho de sol e muitos  morrem. Grande maioria compra e  vende como coisas, objetos, apenas um negócio e não  vidas. Outro fator, o comércio lucrativo que retira da natureza milhares e milhares de animais todos os dias, onde um pouco mais de 1/3 chega com vida ao destino pelas  mãos de traficantes. Isso por causa de um dos maiores defeitos da espécie humana, à ganância. Passarinho na gaiola não canta, lamenta.

 Engaiolar pássaros, você está privando seres de usufruir de sua principal característica que a existência lhe deu, voar. Isso já fere todo contexto existencial desse ser, que tem sua vida amputada em sua maior dádiva que a natureza sabiamente lhe destinou e lhe deu sentido, que  por sinal,  deve ser maravilhoso.  Esses animais têm um papel fundamental no planeta,  dispersar sementes, distribuir sabiamente,  fazendo a polinização, assim, espalhando pólen colhidos das flores por onde voam, em um natural e equilibrado processo de semear vida por onde passam, inclusive promovendo bem estar  e vida aos mesmos ignorantes que os trancafiam e os condenam.
Cada espécie de pássaros  pertence a uma região e são responsáveis naturalmente a reflorestar  áreas, comendo específicas sementes, que retornarão ao solo através das fezes. Ou seja,  o ciclo biológico que nos faz vivos e toda forma de vida, são promovidas na maioria das vezes  por esses pequenos seres, nos fornecendo ar puro, sombra, bem estar ambiental, e todo tipo de suprimento para manter à vida na Terra. Lembrando também, seu papel fundamental no controle natural de vetores, exemplo: mosquitos, moscas, pernilongos e qualquer outro inseto, evitando que se tornem pragas, como por exemplo o transmissor da Dengue e suas vertentes. E por que os trancafia?!
 Você que está lendo esse texto, lembre-se que,  ao ver um pássaro em gaiola, saiba que aquilo não é uma vida no sentido real da palavra, e sim, um pobre animal condenado e explorado pelo seu tutor, esse meramente um carcereiro e ao mesmo tempo um juiz, que o condena  à prisão perpétua e mata aos poucos, fisicamente e psicologicamente. Reflita, dá tempo de você entrar nessa luta por justiça por aqueles que não podem ao menos se defender da maldade humana. Espalhe esse texto, compartilhe com amigos e familiares, debata, discuta pois as verdadeiras vítimas que por motivos óbvios não podem falar e esboçar qualquer reação, pois estão nesse momento cercadas de grades penduradas em uma canto frio e sem vida obrigados a cantar observados diariamente por um escravagista que dorme o sono letárgico da consciência.

Se você concorda com esse texto e acha interessante a colocação, compartilhe para que mais pessoas acordem para essa crueldade, e ajudem a libertar esses seres angelicais que além de nos proporcionar vida em qualquer bioma, nos embeleza a natureza e os sons dela.

Jota Caballero

Ex libris

    Ex libris é uma expressão latina que significa literalmente “dos livros”, empregada para determinar a propriedade de um livro. Portanto, ex libris é um complemento circunstancial de origem (ex + caso ablativo) que indica que tal livro é “propriedade de” ou “da biblioteca de”.

A inscrição pode estar numa vinheta colada em geral na contra capa ou página de rosto de um livro para indicar quem é seu proprietário. A vinheta em geral contém um logotipo, brasão ou desenho e a expressão “Ex libris” seguida do nome do proprietário. É possível que contenha um lema, ou citação.

Inscrições de propriedade em livros não eram comuns na Europa até ao século XIII, quando outras formas de biblioteconomia se tornaram comuns. No Brasil, o “ex-líbris” da Biblioteca Nacional foi criado em 1903 pelo artista Eliseu Visconti, responsável pela introdução do art-nouveau nas artes gráficas do País.

A origem do ex libris é um pouco controversa: existem duas correntes. Uma diz que o primeiro a usar o ex libris foi Hildebrand Brandenburg de Biberach, com uma gravura em madeira representando um anjo a segurar um brasão de armas, por volta de 1480. Já a outra, afirma ser o mais antigo o do rei da Boemia, Georgis de Podebrady, falecido em 1471. No Brasil, no entanto, provavelmente o primeiro ex Libris pertenceu a Manuel de Abreu Guimaraens, que vivia na cidade de Sabará no século XVIII.

Os ex libris podem ser: etiquetas sem desenhos, apenas com o nome do proprietário e algum ornamento; armoriados ou heráldicos, quando o motivo principal do desenho consiste em brasões ou insígnias de indivíduos, cidades, associações etc.; simbólicos, quando trazem imagens que traduzem idéias, lemas de vida, ocupações etc.; paisagísticos, quando reproduzem cenas rurais, urbanas, marinhas etc. ligadas afetivamente ao possuidor dos livros ou, ainda, mistos, que podem ser enquadrados em mais de uma das categorias anteriores.

Existem registros que mostram um hábito curioso das bibliotecas monásticas do século XIV, em relação aos seus Ex libris:

“Até o século XIV, usavam-se armários fechados com portas, e as obras costumavam ter ex-libris com inscrições em que se ameaçava com a pena de excomunhão, não só aos que furtavam ou encobriam o furto, como àqueles que raspavam ou faziam desaparecer o ex-libris da obra roubada. Quanto mais preciosa a obra, mais rigorosa a punição. Um livro do século XII, da abadia parisiense de Santa Genoveva, trazia por baixo do título a seguinte etiqueta: ‘Este livro é de Santa Genoveva. Quem quer que o furte, ou acoite, ou esta marca apague, excomungado seja!’. Em certo código do mosteiro de Marbaque, Alsácia, a fórmula de excomunhão enchia meia página. O ladrão era votado, sucessivamente, a todos os tormentos do inferno, condenado a mergulhar em lagos ardentes de alcatrão e enxofre e a ter a sorte de Judas, o traidor, para dar mais peso à punição fulminada.”

Quando a marca de propriedade de um livro é gravada na encadernação, recebe o nome de super libris. Hoje em dia existem associações de colecionadores de Ex libris.

Confira abaixo alguns ex libris de famosos e perceba que eles falam muito de seu proprietário:

 

  • Ex libris de Charles Chaplin
  • Ex libris de Walt Disney
  • Ex libris de Einstein
  • Ex libris de Freud

POESIA – Ternura – Vinícius de Moraes

“Eu te peço perdão por te amar de repente
Embora o meu amor seja uma velha canção nos teus ouvidos
Das horas que passei à sombra dos teus gestos
Bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos
Das noites que vivi acalentando pela graça indizível dos teus passos eternamente fugindo
Trago a doçura dos que aceitam melancolicamente.
E posso te dizer que o grande afeto que te deixo
Não traz o exaspero das lágrimas nem a fascinação das promessas
Nem as misteriosas palavras dos véus da alma…
É um sossego, uma unção, um transbordamento de carícias
E só te pede que te repouses quieta, muito quieta
E deixes que as mãos cálidas da noite encontrem sem fatalidade
O olhar estático da aurora.”

Manuel Hazaña – Da sombra que somos

     Manuel (H)Azaña Díaz nasceu em Alcalá de Henares, Espanha, em 10 de janeiro de 1880 e faleceu em  Montauban, 3 de novembro de 1940.  Foi um político espanhol, segundo e último presidente efetivo da Segunda República Espanhola.

Além de ter sido um dos políticos e oradores mais importantes na política espanhola do século XX, foi um notável jornalista e escritor, que conseguiu o Premio Nacional de Literatura em 1926. Sua obra La velada en Benicarló, sobre a Guerra Civil Espanhola é uma interessante reflexão a respeito da década de 1930 na Espanha. Os seus Diários -feitos a conhecer poucos anos há- são um dos documentos mais importantes deste momento histórico. Ficou órfão ainda criança, e estudou no mosteiro do Escorial com frades agostinianos.

Licenciou-se em Direito pela Universidade de Saragoça em 1897. Doutor em Direito pela Universidade Central de Madrid em 1900, com uma tese intitulada A responsabilidade das multidões, concursou à Direção General dos Registros e do Notariado.

Em 1914 afiliou-se ao Partido Reformista liderado por Melquíades Álvarez, sendo esse mesmo ano eleito secretário do Ateneu de Madrid. Por esse partido foi candidato a Deputado pela povoação toledana de Puente del Arzobispo, sem sucesso. Em 1920 fundou a revista La Pluma junto com quem, passando o tempo, seria o seu cunhado Cipriano Rivas Cherif; em 1922 dirige o semanário España.

Muito crítico com a ditadura de Primo de Rivera, publicou em 1924 um enérgico notório contra o ditador e contra o rei Afonso XIII, fundando ao ano seguinte com José Giral o partido Ação Republicana.

Participou em 1930 no Pacto de San Sebastián, gérmen do futuro governo republicano que surgiria do resultado favorável às candidaturas republicanas nas eleições municipais do 12 de Abril de 1931 e o subsequente abandono do país por parte do rei Afonso XIII.

Nomeado ministro da Guerra no Governo provisório da Segunda República, a 14 de Abril de 1931, substituiria depois a Niceto Alcalá-Zamora como presidente do Governo provisório (em Outubro do mesmo 1931), devido à demissão deste ao ser aprovado o artigo 14 (finalmente 16) da Constituição, dedicado à questão religiosa. Durante o debate deste artigo, Azaña, que interveio na sua qualidade de deputado, pronunciou um dos seus mais famosos discursos, no que incluía a famosa frase “Espanha parou de ser católica”.

Como presidente do governo de coligação republicano-socialista levou a cabo as principais reformas previstas no programa republicano: reforma do Exército, dimensionando-o de acordo às capacidades do país e do erário público; reforma agrária; reforma do ensino, potenciando a pública; estatuto de autonomia da Catalunha, etc. Teve, além disso, tempo para estrear o seu drama La Corona.

Todas estas questões políticas, junto com a agitação social existente em grande parte do país, acarretar-lhe-ão múltiplos problemas com os poderes fáticos, especialmente com a Igreja Católica e com parte do Exército, em concreto dos seguidores do general José Sanjurjo em Agosto de 1932. Finalmente, os acontecimentos de Casas Viejas, Castilblanco e Arnedo motivaram o seu cesse, a 8 de Setembro de 1933, por parte do presidente Alcalá-Zamora.

A 19 de Novembro de 1933, triunfou a coligação formada pelo Partido Republicano Radical de Alejandro Lerroux e a Confederação Espanhola de Direitas Autônomas (CEDA) de José María Gil-Robles, o que trouxe como consequência a sua retirada temporária da política e a sua volta à atividade literária e editorial. Desta data são os livros Una política e En el Poder y en la Oposición, recompilações de discursos parlamentares.

O afastamento político durou pouco, e em 1934 fundou o partido Esquerda Republicana, fruto da fusão de Ação Republicana com o Radical-Socialista, liderado por Marcelino Domingo e a Organização Republicana Galega Autônoma (ORGA) de Santiago Casares Quiroga.

A revolução de 1934 nas Astúrias e em Barcelona serviu como pretexto para o acusar de instigador dos mesmos, pelo qual o encarceram a bordo do destróier Sánchez Barcáiztegui, ancorado no porto em Barcelona, resultando finalmente absolvido no processo judiciário, acontecimento que narra no seu livro Mi Rebelión en Barcelona.

A 16 de Fevereiro de 1936, resulta vencedora a coligação de partidos de esquerda denominada Frente Popular, sendo Azaña encarregue de formar governo. Após a destituição de Alcalá-Zamora, foi nomeado Presidente da República a 10 de Maio de 1936.

O começo da guerra civil, após as suas inúteis tentativas de conscientizar as diferentes forças políticas republicanas dos perigos da sua desunião, supõe um duro golpe para Azaña. A isto é adicionada a solidão a que o relegou, em Madrid, o Governo republicano. O posterior desenvolvimento da contenda piorou o seu estado de ânimo, como fica refletido nas suas memórias, onde relata os seus desencontros com líderes do governo, como Francisco Largo Caballero e, especialmente, Juan Negrín.

A 18 de Julho de 1938, ante as Cortes reunidas em Barcelona, pronunciou o célebre discurso no que instava à reconciliação entre os dois bandos, sob o lema Paz, Piedad, Perdón.

Ocupada Barcelona pelo exército sublevado a 26 de Janeiro de 1939 e Gerona a 5 de Fevereiro, este mesmo dia retira-se a França. A 27 do mesmo mês, ao reconhecer a França e a Grã-Bretanha o governo ditatorial do general Franco, apresentou a sua demissão como Presidente da República, sendo substituído com caráter provisório por Diego Martínez Barrio.

Refugiado no Roselhão, com média França ocupada pelo exército alemão e outra média sob administração do governo títere de Pétain, é vigiado e fustigado sem cessar por agentes do regime ditatorial do general Franco, que pretendiam a sua captura e deportação à Espanha. Finalmente, a Gestapo decidiu detê-lo. O embaixador do México frente do regime de Vichy, Luis I. Rodríguez, apercebido aparentemente pelos próprios alemães, conseguiu livrar o presidente dos seus captores e transladá-lo, numa difícil viagem em ambulância, para Montauban, em primeiro lugar ao 34 da Rua de Michelet e logo ao Hôtel du Midi, onde a legação mexicana utilizou vários quartos como sede provisória, na que se refugiaram numerosos espanhóis exilados na espera de poderem fugir da França.

Azaña instalou-se com a sua esposa no quarto número 11 do Hôtel du Midi, o mesmo que usava como moradia e escritório o embaixador (e onde há ainda uma placa que lembra esse fato). Ali, prematuramente envelhecido e esgotado pela penúria sofrida, faleceu a 4 de Novembro de 1940.

O marechal Pétain proibiu que fosse enterrado com honras de Chefe de Estado: somente acedeu a que fosse coberto o seu féretro com a bandeira espanhola, na condição de esta ser a bicolor tradicional, e em jeito algum a republicana. O embaixador do México decidiu então que fosse enterrado coberto com a bandeira mexicana. Segundo conta nas suas memórias, Rodríguez disse ao prefeito francês:

” – Cobri-lo-á com orgulho a bandeira do México- Para nós será um privilégio; para os republicanos, uma esperança, e para vocês, uma dolorosa lição.”

Os seus restos repousam no cemitério de Montauban (Trapeze Q, Section 7). Deixou escrito que não se movimentassem do sitio onde repousassem.

Existe a Associação Manuel Azaña, que gere uma livraria e organiza atos culturais na Espanha.

Fonte: Wikipédia

Passeio Socrático – Frei Beto

     Ao viajar pelo Oriente mantive contatos com monges do Tibete, da Mongólia, do Japão e da China. Eram homens serenos, comedidos, recolhidos e em paz nos seus mantos cor de açafrão. Outro dia, eu observava o movimento do aeroporto de São Paulo: a sala de espera cheia de executivos com telefones celulares, preocupados, ansiosos, geralmente comendo mais do que deviam.

Com certeza, já haviam tomado café da manhã em casa, mas como a companhia aérea oferecia um outro café, todos comiam vorazmente. Aquilo me fez refletir: ‘Qual dos dois modelos produz felicidade?’

Encontrei Daniela, 10 anos, no elevador, às nove da manhã, e perguntei: ‘Não foi à aula?’ Ela respondeu: ‘Não, tenho aula à tarde’. Comemorei: ‘Que bom, então de manhã você pode brincar, dormir até mais tarde’. ‘Não’, retrucou ela, ‘tenho tanta coisa de manhã…’ ‘Que tanta coisa?’, perguntei. ‘Aulas de inglês, de balé, de pintura, piscina’, e começou a elencar seu programa de garota robotizada. Fiquei pensando: ‘Que pena, a Daniela não disse: ‘Tenho aula de meditação!’

Estamos construindo super-homens e super-mulheres, totalmente equipados, mas emocionalmente infantilizados. Uma progressista cidade do interior de São Paulo tinha, em 1960, seis livrarias e uma academia de ginástica; hoje, tem sessenta academias de ginástica e três livrarias! Não tenho nada contra malhar o corpo, mas me preocupo com a desproporção em relação à malhação do espírito. Acho ótimo, vamos todos morrer esbeltos:
Como estava o defunto?. ‘Olha, uma maravilha, não tinha uma celulite!’ Mas como fica a questão da subjetividade? Da espiritualidade? Da ociosidade amorosa?

Hoje, a palavra é virtualidade. Tudo é virtual. Trancado em seu quarto, em Brasília, um homem pode ter uma amiga íntima em Tóquio, sem nenhuma preocupação de conhecer o seu vizinho de prédio ou de quadra! Tudo é virtual. Somos místicos virtuais, religiosos virtuais, cidadãos virtuais. E somos também eticamente virtuais…

A palavra hoje é ‘entretenimento’! Domingo, então, é o dia nacional da imbecilização coletiva. Imbecil o apresentador, imbecil quem vai lá e se apresenta no palco, imbecil quem perde a tarde diante da tela. Como a publicidade não consegue vender felicidade, passa a ilusão de que felicidade é o resultado da soma de prazeres: ‘Se tomar este refrigerante, calçar este tênis, usar esta camisa, comprar este carro, você chega lá!’ O problema é que, em geral, não se chega! Quem cede desenvolve de tal maneira o desejo, que acaba precisando de terapia. Ou de remédios. Quem resiste, aumenta a neurose.

O grande desafio é começar a ver o quanto é bom ser livre de todo esse condicionamento globalizante, neoliberal, consumista. Assim, pode-se viver melhor. Aliás, para uma boa saúde mental três requisitos são indispensáveis: amizades, auto-conhecimento e ausência de estresse.

Há uma lógica religiosa no consumismo pós-moderno. Na Idade Média, as cidades adquiriam status construindo uma catedral; hoje, no Brasil, constrói-se um shopping center. É curioso: a maioria dos shoppings centers tem linhas arquitetônicas de catedrais estilizadas; neles não se pode ir de qualquer maneira, é preciso vestir roupa de missa de domingo.. E ali dentro sente-se uma sensação paradisíaca: não há mendigos, crianças de rua, sujeira pelas calçadas…

Entra-se naqueles claustros ao som do gregoriano pós-moderno, aquela musiquinha de esperar dentista. Observam-se os vários nichos, todas aquelas capelas com os veneráveis objetos de consumo, acolitados por belas sacerdotisas. Quem pode comprar à vista, sente-se no reino dos céus. Se deve passar cheque pré-datado, pagar a crédito, entrar no cheque especial, sente-se no purgatório. Mas se não pode comprar, certamente vai se sentir no inferno… Felizmente, terminam todos na eucaristia pós-moderna, irmanados na mesma mesa, com o mesmo suco e o mesmo hambúrguer do McDonald…

Costumo advertir os balconistas que me cercam à porta das lojas: ‘Estou apenas fazendo um passeio socrático. Diante de seus olhares espantados, explico: ‘Sócrates, filósofo grego, também gostava de descansar a cabeça percorrendo o centro comercial de Atenas. Quando vendedores como vocês o assediavam, ele respondia: “Estou apenas observando quanta coisa existe de que não preciso para ser feliz !”

A voz forte de Augusto Heleno, como ordem de comando, bloqueia a extrema-direita

Ao se manifestar, Augusto Heleno colocou as coisas no lugar

Por Pedro do Coutto

O pronunciamento do general Augusto Heleno, sem dúvida uma figura das mais próximas do presidente Jair Bolsonaro, constituiu a reação mais importante dentro do governo para condenar a tentativa de ressurreição das ideias de Goebbels que tanto abalaram o Planalto, incluindo protestos de todas as direções, inclusive do exterior, contra o evidente plágio de discurso do ministro da propaganda de Hitler. Impressionante, digo eu, que 75 anos após o desmoronamento do nazismo alemão, suas ideias possam ser adotadas nos dias de hoje.

Não se deve confundir ideias conservadoras, peculiares da direita, com as práticas imundas adotadas pelo III Reich. A esse propósito vale lembrar que o conservadorismo não pode ser traduzido como algo da cultura nazista.

EXEMPLO INGLÊS – Assim não fosse, a Monarquia inglesa poderia ter tintas de um radicalismo que, absurdamente, tenta resistir à passagem do tempo. Inclusive é bom não esquecer que o nazismo apropriou-se violentamente de bens de raro valor pertencentes a famílias europeias de alta escala na sociedade.

O general Augusto Heleno não se limitou a atacar fortemente pensamentos neonazistas e sua tentativa de adaptação à cultura moderna. O general Augusto Heleno, ponto importante de sua mensagem, destacou a importância da emoção que deu margem e produziu as reações em cadeia condenando o uso de texto divulgado em 1933, ano em que Hitler subiu ao poder na Alemanha.

Na Alemanha inclusive constitui crime tentar reviver o neonazismo e também negar o Holocausto que marcou os sórdidos campos de concentração. Como ninguém, até o momento ninguém apoiou e teve condições de vir a público contestar Augusto Heleno, o silêncio das facções extremistas é a maior prova da importância da voz do general.

OUTRO ASSUNTO – Reportagem de Camila Feltrin, Folha de São Paulo de domingo, em longo texto destacou as dificuldades que os segurados do INSS têm encontrado no que se refere a informações sobre a busca de seus direitos.

Um verdadeiro labirinto, diz a repórter, assinalando que o labirinto se instalou na burocracia do INSS, depois de aprovada a reforma da Previdência. As dificuldades maiores residem no caminho para os pedidos de aposentadoria. A reportagem cita casos em que seus autores aguardam há oito meses por suas respostas.

Livro sobre Bolsonaro, Planalto e familiares irrita presidente

Publicação revela bastidores das decisões políticas do governo, mas também traz detalhes das crises, da vida particular do presidente e dos dramas familiares

Por Ana Mendonça

O livro Tormenta – O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos, da jornalista Thaís Oyama, que revela os bastidores da atual gestão no palácio do Planalto, irritou o presidente. Após repercussão da obra, que acaba de ser lançada, Bolsonaro criticou a jornalista, dizendo que a imprensa deveria “tomar vergonha na cara” e afirmou que ela, “no Japão, ia morrer de fome”, fazendo uma referência ao sobrenome e ascendência asiática de Thaís Oyama.

Tormenta mostra como Bolsonaro chegou ao comando do país e fatos curiosos do primeiro ano de mandato. A autora reúne, ao longo das 272 páginas, as principais decisões da administração, as relações com o Congresso e ministros, as crises mais agudas, a vida particular do presidente e os dramas familiares dos Bolsonaro, principalmente a instável personalidade do filho “Zero Dois”, Carlos, fonte de dores de cabeça. Confira a seguir alguns trechos do livro.

O drama do ‘Zero dois’

A jornalista retrata o capitão reformado do Exército Jair Bolsonaro como um homem confuso, desconfiado e cheio de dúvidas sobre os que cercam. De acordo com a obra, o presidente é muito ligado ao filho Carlos Bolsonaro, deixando muitas vezes a influência dele interferir nas decisões do governo e nas próprias decisões presidenciais. No capítulo “Zero Dois”, a jornalista revela os “dramas” e “chantagens emocionais” que o segundo filho do presidente faz para convencer o pai de que sempre está certo.

Carlos some por dias quando não concorda com algo e toma remédios para o controle do humor, deixando Bolsonaro desesperado por muitas vezes, com receio de que o filho “faça besteira”. O livro narra a admiração que 02 sente pelo pai e conta sobre os ciúmes, às vezes beirando ao doentio, que o filho sente por Bolsonaro, muitas vezes afastando líderes políticos e alianças do governo. Carlos, segundo Thaís, tem o rosto do pai tatuado no braço.

Quando o vice-presidente Hamilton Mourão esteve na mira bolsonarista por ter emitido opiniões que divergiam com as do presidente, Carlos orquestrou uma manobra virtual para estremecer a imagem do vice. Tuítes, mensagens de WhatsApp e insinuações foram feitas pelo filho do presidente, deixando um exemplo claro dos ataques de ciúmes e superproteção que 02 tem pelo pai.

O efeito foi inverso: Bolsonaro não gostou e pediu a Carlos que apagasse um vídeo do perfil oficial do presidente no Twitter em que Olavo de Carvalho criticava os militares, num recado “indireto” a Mourão. Depois disso, Carlos teria desaparecido e deixado como recado para o pai a mesma postagem, porém publicada no próprio perfil.

De fã a demitido

Thaís revela também detalhes da relação de Gustavo Bebianno e Bolsonaro, apontando o advogado como grande fã do presidente. O livro conta que Bebbiano considerava o presidente “diferente de todos os outros”.

Ele enxergava em Bolsonaro uma alma de criança e inocência diferente do que ele diz ser “as velhas raposas” da política. De acordo com o relato, o advogado começou a enviar centenas de e-mails para o gabinete de parlamentar, elogiando principalmente suas críticas aos petistas.

Bebbiano tornou-se o coordenador da campanha vitoriosa de deputado ao Planalto e foi nomeado ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência. O casamento, palavra que o presidente gosta de usar, durou pouco.

Em um novo capítulo do envolvimento de Carlos Bolsonaro nas decisões do governo, Bebbiano acabou demitido menos de dois meses após a posse. Thaís relata que, após a demissão, “o ex-ministro chorava feito criança, com a cabeça afundada no ombro do coronel José Mateus Teixeira Ribeiro”.

‘Hospital de petistas’

Que Bolsonaro faz duras críticas ao PT e ao ex-presidente Lula já é de conhecimento comum, mas a jornalista revela que, após o atentado em Juiz de Fora, o então candidato se recusou a ser atendido no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, por considerar a unidade um “hospital de petistas”.

O ex-presidente Lula e a ex-presidente Dilma Rousseff trataram o câncer na instituição. Acabou, então, sendo transferido da cidade mineira para o Hospital Albert Eisntein.

Voto polêmico

Thaís conta os bastidores do voto polêmico pró-impeachment da Dilma, quando Bolsonaro citou o torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra. De acordo com a jornalista, o então deputado escreveu em um papel o voto por ter se irritado com as “homenagens” que estavam sendo feitas pelos parlamentares favoráveis a Dilma.

Alguns deputados citaram Zumbi dos Palmares, Luís Carlos Prestes, Carlos Lamarca, Darcy Ribeiro. A jornalista conta, porém, que, inflamado com a situação, Bolsonaro se irritou ainda mais quando o guerrilheiro Carlos Marighella foi citado. Ao ser alertado por um colega que a fala iria “dar o que falar”, a resposta de Bolsonaro teria sido “foda-se, foda-se, foda-se”.

Militar indisciplinado

A obra também revela o desinteresse do Exército pelo presidente. De acordo com Thaís, existe uma “razão histórica” para que não morressem de amores por Bolsonaro. “Numa instituição que preza a hierarquia e a disciplina como valores essenciais, Bolsonaro havia rompido com uma e a outra”, diz ela em trecho do livro.

Jair Bolsonaro foi responsável por liderar um plano para instalar bombas na Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais para pressionar o comando da força por aumento no soldo dos praças. O capitão reformado foi processado e absolvido, mas não conseguiu se livrar da desconfiança de seus superiores. A jornalista destaca que a imagem do militar indisciplinado e refratário assombrou Bolsonaro por muitos anos.

Demissão de Moro

Thaís também relata que Bolsonaro cogitou demitir o ministro da Justiça, Sérgio Moro, em agosto. Conforme noticiado na época, Moro teria se indisposto com o presidente diante da interferência do chefe na Polícia Federal.

Na ocasião, Bolsonaro afirmou: “Se eu trocar hoje (o diretor-geral da PF), qual o problema? Está na lei que eu que indico e não o Sérgio Moro. E ponto final”. “A despeito dos conselhos de auxiliares, Bolsonaro decidiu que iria mesmo demitir Moro. ‘Vou pagar pra ver’, disse. O general Augusto Heleno, ao notar a determinação do presidente, descarregou a última bala: ‘Se demitir o Moro, o governo acaba’, disse”, escreveu a jornalista.

Mesa de bar

O livro relata que um dos secretários de Paulo Guedes diz que o presidente “reage a certas informações como se estivesse assistindo ao Jornal Nacional com amigos numa mesa de bar” e que o ministro da Economia precisa explicar as coisas para ele.

Vida pessoal

Em um dos trechos da vida de Bolsonaro fora do Planalto, a jornalista conta que o presidente não gosta de morar no Palácio da Alvorada e que “se dependesse da vontade dele, a família moraria na Granja do Torto, onde se instalou durante o governo de transição, mas a primeira-dama não quis”.

Além disso, revela que Bolsonaro passa horas no closet, no celular, postando textos nas redes sociais ou conversando com amigos. Ele mandou instalar um pufe e uma escrivaninha no cômodo. Como de praxe, o presidente recebe os amigos vestido sempre do mesmo jeito: camiseta de time, bermuda e chinelo de plástico.

Em um dos passeios com a filha, ele teria ido a um churrasco e contado que ganhou quatro quilos desde que assumiu a Presidência. Revelou ainda aos presentes detalhes íntimos da vida do casal: contou que Michelle “sempre quer assistir à novela” enquanto ele quer ver futebol e que toma Cialis, remédio indicado para casos de disfunção erétil.

Estadão / Estado de Minas

MÚSICA – RAIMUNDO FAGNER – E NÃO VOU DEIXAR VOCÊ TÃO SÓ

MÚSICA

RAIMUNDO FAGNER – E NÃO VOU DEIXAR VOCÊ TÃO SÓ

Poesia | Manuel Bandeira – Louvação a cidade do Rio de Janeiro

Louvo o Padre, louvo o Filho
E louvo o Espírito Santo.
Louvado Deus, louvo o santo
De quem este Rio é filho.

Louvo o santo padroeiro
– Bravo São Sebastião –
Que num dia de janeiro
Lhe deu santa defensão.

Louvo a Cidade nascida
No morro Cara de Cão.
Logo depois transferida
Para o Castelo, e de então
Descendo as faldas do outeiro,
Avultando em arredores,
Subindo a morros maiores
Grande Rio de Janeiro!

Rio de Janeiro, agora
De quatrocentos janeiros…
Ó Rio de meus primeiros
Sonhos! (A última hora
De minha vida oxalá
Venha sob teus céus serenos,
Porque assim sentirei menos
O meu despejo de cá.)

Cidade de sol e bruma,
Se não és mais capital
Desta nação, não faz mal:
Jamais capital nenhuma,
Rio, empanará teu brilho,
Igualará teu encanto.
Louvo o Padre, louvo o Filho
E louvo o Espírito Santo.

O que a mídia pensa – Editoriais

Ano de reformas – Editorial | O Estado de S. Paulo
Se o presidente Jair Bolsonaro pretende fazer de 2020 um ano de avanço econômico e social do País, será preciso não tratar esse período apenas como um ano de eleições e de campanha eleitoral. Para uma retomada da economia consistente, apta a gerar confiança e emprego e a aumentar a produtividade, o governo federal precisa ser capaz de tornar 2020 um ano de efetivas reformas.
Em 2019, o Congresso aprovou, mesmo sem o apoio integral do Palácio do Planalto, uma importantíssima reforma da Previdência. Mas neste ano, com as eleições municipais de outubro, será difícil que o Poder Legislativo leve adiante uma agenda reformista sem a ajuda efetiva, de negociação e coordenação, do Poder Executivo. Além disso, por óbvio, neste ano, é mais que necessário que o presidente Jair Bolsonaro e seu entourage se abstenham de produzir crises e instabilidades políticas.
Recentemente, o Estado mostrou o alto risco que as eleições municipais representam para a tramitação das reformas no Congresso. Em toda campanha eleitoral, tem-se forte pressão para postergar a discussão e a aprovação de temas considerados espinhosos, mesmo que sejam prioritários para o País. É como se todos os temas que não geram imediatos efeitos positivos perdessem urgência e relevância, dando a equivocada impressão de que os grandes desafios nacionais podem esperar. E aí está a grande ameaça para um 2020 produtivo: que o presidente Jair Bolsonaro assuma uma atitude eleitoreira, de cálculo imediatista, em cada decisão e negociação.
De certa forma, neste ano o presidente Jair Bolsonaro terá uma verdadeira prova de fogo. O eleitor poderá avaliar se ele, ao contrário de Lula e sua trupe, é capaz de governar o País com um olhar além das eleições ou se, tal como Lula e sua companhia, veja tudo através de lentes eleitoreiras, num exercício do poder que, perseguindo exclusivamente votos, seja indiferente ao interesse público.
Não é demais lembrar que Jair Bolsonaro foi eleito pelo povo para impedir que o PT, com suas práticas, retornasse ao poder. Seria, portanto, tremendamente frustrante para o eleitor dar-se conta de que, por concessão presidencial, os maus hábitos petistas continuam de alguma forma vigentes no Palácio do Planalto.
O Congresso tem dado sinais de que precisa da proximidade do Executivo para que a agenda de reformas possa avançar. A expectativa do líder do governo no Senado, Fernando Bezerra Coelho (MDB-CE), é de que os principais assuntos do Congresso neste ano sejam o marco legal do saneamento e o Plano Mais Brasil, composto de três Propostas de Emenda à Constituição (PECs): a do pacto federativo, a PEC emergencial e a PEC dos fundos públicos. Mas para que isso ocorra não pode haver distanciamento – e menos ainda enfrentamento – por parte do Palácio do Planalto em relação ao Congresso.
Quanto às outras reformas, a tributária e a administrativa, o senador Fernando Bezerra alerta. “As reformas tributária e administrativa também serão aprovadas, mas, pela complexidade das matérias, talvez só tenhamos chances de concluir (a votação) no final de novembro”, disse ao Estado. A presidente da Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania do Senado, Simone Tebet (MDB-MS) falou no mesmo sentido: “Há complexidade (das reformas tributária e administrativa) e há eleição. Ambas se complementam nesse caso”.
O ministro da Economia, Paulo Guedes, disse ao Estado que a agenda de reformas do governo será retomada nos próximos dias, e que a proposta de reforma administrativa deverá ser encaminhada à Câmara em fevereiro. Segundo Guedes, o presidente Bolsonaro está comprometido com as reformas. No final do ano passado, voltaram as dúvidas em relação à disposição reformista do presidente, após ter ele sustado o envio da reforma administrativa ao Congresso. “O presidente continua comprometido com as reformas. Uma coisa é o timing político, outra é o conteúdo das reformas”, disse Paulo Guedes. Este é precisamente o grande desafio de Jair Bolsonaro em 2020: não usar as eventuais dificuldades com o Congresso para se desinteressar pelas reformas. O País precisa do presidente da República trabalhando por elas.
Reformar, mesmo com acesso mais lento à OCDE – Editorial | Valor Econômico
Autoridades brasileiras também veem a possibilidade de o Brasil entrar na OCDE como incentivo capaz de acelerar as reformas econômicas
Os esforços para acelerar o ingresso do Brasil na Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) ganharam um impulso institucional da Presidência da República.
Na semana passada, o ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, anunciou a decisão de criar uma secretaria para coordenar as ações do governo nesse sentido. A estrutura será comandada por Marcelo Gomes, hoje subchefe de Análise e Acompanhamento de Políticas Governamentais da própria Casa Civil. “Ele [Gomes] já vem trabalhando conosco, mas, agora, com ainda mais força, mais condições, para que, junto com o Ministério de Relações Exteriores e junto com o Ministério da Economia, a gente possa acelerar tudo o que a gente puder”, complementou Onyx.
A iniciativa é bem-vinda, sobretudo num momento em que o Brasil precisa se consolidar como destino de investimentos estrangeiros. Sua eficácia, contudo, ainda terá que se comprovar.
Nos últimos anos, diversas áreas do governo federal têm realizado iniciativas para atender às exigências da OCDE. Agora, no entanto, a aspiração brasileira vive um outro momento, diante da atenção dada pelos Estados Unidos ao pleito. Não à toa as declarações do ministro Onyx Lorenzoni ocorreram após ele se reunir com o encarregado de negócios interino da embaixada dos Estados Unidos em Brasília, William Popp. A própria reunião se deu depois de uma manifestação mais contundente do governo americano em apoio ao Brasil.
Num primeiro momento, os EUA haviam optado por dar prioridade ao ingresso da Argentina na organização. Calibraram a estratégia, depois dos novos rumos que o país vizinho tomou em razão das suas mais recentes eleições presidenciais. Ganhou o Brasil, que agora passou a ser, na visão do governo americano, o próximo país que deve iniciar o processo de adesão ao grupo.
Estabelecida em 1948, a OCDE tem como objeto, por exemplo, a promoção de padrões internacionais em questões econômicas, financeiras, comerciais, sociais e ambientais. Por isso o ingresso do Brasil na instituição pode alçar o país a um novo patamar, além de melhorar sua imagem entre autoridades e investidores estrangeiros.
O relacionamento entre o Brasil e a OCDE é antigo, ultrapassou fronteiras ideológicas e distintos governos. De acordo com histórico compilado pelo Banco Central, a participação do Brasil nas reuniões do organismo ocorre desde 1996, quando aderiu ao Comitê do Aço. Em 2007, o Brasil foi convidado e decidiu aderir ao Programa de Engajamento Ampliado. Tempos depois, em 2012, foi elevado ao status de parceiro-chave, ao lado de China, Índia, Indonésia e África do Sul.
A trajetória prosseguiu nos anos seguintes. Em 2015, o Brasil assinou acordo de cooperação com a OCDE com o objetivo de instituir um plano de trabalho de aproximação com a instituição. No governo Michel Temer, em 2017, o Brasil solicitou formalmente a acessão a membro pleno.
Atualmente, ainda de acordo com o Banco Central, o Brasil participa de 25 comitês, grupos de trabalho, fóruns e programas da OCDE. Mesmo assim, de acordo com a Casa Civil, ainda há um longo caminho a percorrer.
Segundo a pasta, são exigidos 254 instrumentos legais para adesão à OCDE, sendo que dois não se aplicam ao Brasil. Até agora, 81 pontos foram acreditados e 65 estão em análise. As outras demandas ainda precisam ser discutidas e implementadas. Assim, o papel da nova secretaria será justamente alinhar as exigências do organismo para neutralizar os impeditivos que travam a entrada do Brasil.
Na visão do governo Bolsonaro, um dos pontos positivos de uma acolhida plena do Brasil no âmbito da OCDE seria a inclusão do país na lista de mercados contemplados por determinados fundos estrangeiros. Ela daria também voz ao Brasil na mesa na qual estão sendo definidos as normas e os critérios que guiarão os acordos comerciais e a nova economia global.
Autoridades brasileiras também veem a possibilidade de o Brasil entrar na OCDE como um incentivo capaz de acelerar a realização de reformas econômicas. Este é um bom motivo, mas os integrantes de todos os Poderes precisam ter claro que o avanço nas reformas é imperativo, mesmo que o processo de adesão à OCDE seja mais longo do que o esperado.
Trégua frágil – Editorial | Folha de S. Paulo
Acordo entre EUA e China diminui tensões, mas não resolve problemas de fundo
Estados Unidos e China firmaram na semana passada uma trégua na guerra econômica que travam desde 2018. A suspensão das hostilidades, porém, parece frágil, não encaminha a solução de conflitos fundamentais e é incapaz de alterar o novo rumo do comércio mundial.
Decerto a redução das tensões pode representar um alívio. Os solavancos financeiros e a incerteza provocadas pela guerra fria de Trump reduziram o crescimento do planeta em 2019.
O presidente americano pode cantar vitória ao menos diante do seu público enquanto sofre um processo de impeachment e inicia sua campanha eleitoral. No curto prazo, o encarecimento dos produtos importados e a redução do comércio, resultado do aumento dos impostos sobre produtos da China, não tiveram efeito notável no crescimento americano.
A disputa de Trump com a China deve ter alguns efeitos deletérios duradouros. Junto de outras ofensivas protecionistas, desmoraliza as instituições desenvolvidas para incrementar o comércio mundial.
As importações da China devem ter caído quase 20% em 2019, mas outro tanto passou a ser comprado de países do sudeste asiático. Firmas americanas desistem de operações chinesas e se mudam para a vizinhança. Os empregos prometidos por Trump não voltam para os EUA.
O gigante asiático já não depende tanto do seu grande cliente. A importações americanas são apenas 4% do seu PIB. Com ainda mais ênfase, procura novos parceiros.
Em si, o acordo prevê que a China passe a comprar US$ 200 bilhões de produtos americanos em 2021 (importações ora em torno de US$ 122 bilhões), mas é incerto o atingimento de tal meta irrealista. Mesmo com a trégua, os americanos ainda tributam de modo extraordinário quase três quartos de suas importações chinesas.
Os chineses ainda se comprometeram a evitar a transferência forçada de tecnologia que exigia dos que se estabelecessem em seu país; prometem mais proteção a patentes e abertura financeira.
O acordo, além de burocratizar e estatizar o comércio, pode ser facilmente denunciado pelos parceiros; não toca, além do mais, nos subsídios e outras intervenções que promovem a indústria chinesa. A tensão deve continuar por outras vias, pois os americanos estão alarmados com o avanço tecnológico e militar da China.
Em suma, a chamada “fase um” do acordo é uma trégua relevante no curtíssimo prazo. Os termos do entendimento, porém, são precários. Quanto ao médio prazo, o comércio e as cadeias mundiais de suprimentos começam a tomar novos caminhos, que o compromisso da semana passada não vai alterar.
Brasil precisa avançar logo na tecnologia 5G – Editorial | O Globo
Governo e Congresso deveriam se mobilizar, com urgência, para destravar investimentos no setor
A incerteza sobre o primeiro leilão de frequências para a quinta geração de telefonia móvel, o 5G, complica o planejamento e os investimentos nessa infraestrutura, provavelmente o evento tecnológico mais relevante. O leilão estava previsto para março. Governo e Anatel, a agência reguladora, resolveram adiá-lo, sem nova data.
O 5G é tecnologia transformadora, não comparável à estrutura disponível (4G) para transporte de dados. Muda a concepção usual dos meios digitais. O atual sistema funciona em frequências de até 2.5 GHz. O novo (5G) começa com bandas acima de 24 GHz. A velocidade pode ser cem vezes maior, com estabilidade e capacidade para 1 milhão de dispositivos ligados por quilômetro quadrado.
Representa uma ruptura, com conectividade plena e sem fio, para todos os setores. Significa, por exemplo, induzir cidades ao planejamento com eficiência da aplicação de inteligência artificial. Abrir para a medicina fronteiras como as das cirurgias à distância, já testadas. Levar a realidade aumentada para escolas ou treinamento. Mudar padrões de mobilidade urbana, produção industrial, e de controle remoto de rebanhos, preparo do solo, semeadura e colheita na agricultura.
Telefones móveis deixam o armazenamento para nuvens de dados, multiplicando a vida útil das baterias. Se hoje o download de um arquivo no sistema 4G dura cerca de uma hora, será possível fazê-lo em segundos. Além, claro, da conexão de internet com objetos, entre eles e com pessoas. Com o 5G prevê-se aumento no PIB mundial de 3% nos próximos 15 anos, e abertura de 20 milhões de novos postos de trabalho.
A estreia do Brasil nessa corrida tecnológica mundial ocorreria com o leilão de frequências, adiado indefinidamente. O tempo neste caso equivale ao ingresso num novo mercado em condições competitivas com as de China, Estados Unidos, União Europeia, Coreia e Japão.
Eles estão, literalmente, começando e se especializando. Asiáticos dedicam-se ao desenvolvimento de redes e terminais de serviços; americanos investem em aplicações; e europeus, em processos industriais e veículos autônomos. Todos adotaram políticas para uso do 5G como alavanca. A base é o smartphone.
Não há razão para o Brasil esperar por outros países. Não faz sentido aguardar definição política dos EUA, cuja indústria está defasada em relação à da China, como reconhece o presidente Donald Trump.
O governo e o Congresso deveriam se mobilizar, com urgência, para destravar investimentos na tecnologia 5G no país. Isso requer leilões para competição e compartilhamento de redes privadas, efetiva coordenação de leis nacionais e municipais para infraestrutura (antenas, postes, direito de passagem, redes de fibra ótica), políticas de inovação e preparo de força de trabalho, além do modelo para tributação de serviços digitais. É questão de interesse nacional.