A MUSA DA CENSURA.  Por José Paulo Cavalcanti Filho

Café Brasil 620 â?? Democracia, tolerância e censura

  Por José Paulo Cavalcanti Filho  –  Escritor, poeta,membro da Academia Pernambucana de Letras e um dos maiores conhecedores da obra de Fernando Pessoa. Integrou a Comissão da Verdade.

A Revista Crusoé teria sido censurada pelo Ministro Alexandre de Moraes. A pedido de Toffoli. Claro que a liberdade de expressão, fundamento da Democracia, não pode conviver com nenhum tipo de censura. Mas foi mesmo censura?, eis a questão. Democracia é informar. E é, também, não informar. O sistema jurídico brasileiro, reproduzindo o que ocorre no mundo todo, faz bem a diferenciação entre censura e reserva legal. A maioria das ações de família, como o reconhecimento de paternidade, corre em segredo de justiça. O Estatuto da Criança e do Adolescente exibe 14 regras assim. O padre não pode, nas missas, fazer um relato sobre as confissões da semana. E nada disso é censura.

A revista informa que o depoimento de Marcelo Odebrecht, dizendo ser Toffoli o “amigo” que recebia grana, está “nos autos”. Estaria mesmo? A delação premiada integra o inquérito 1.365/2015. A partir dele, há denúncia. Feita por Procurador. Que o juiz acolhe (ou não). Só então se pode falar em “autos”. Problema é que a revista não identifica o processo. Nem fornece a numeração das folhas, onde constam esse depoimento. Complicado. Para piorar, a Procuradora Geral da República, Raquel Dodge (que acaba de arquivar inquérito de Toffoli, sobre as fake news), já disse que tais documentos não constam dos tais autos. Difícil ter mentido. Seria caso de impeachment. Provavelmente o documento foi vazado, ilegalmente, por alguém que teve acesso ao inquérito (e não ao processo) – é nisso que acredito. Não seria, tecnicamente, censura. Mas faltaria, então, explicar por que não acabou no processo.

Trata-se de uma denúncia grave. Se consta mesmo no depoimento do delator, em algum momento vai ter que ser apurada. Indo, em casos de responsabilidades comprovadas, ao Congresso. Para julgamento. Bom lembrar que, nos Estados Unidos, houve já 17 impeachments contra Ministros da Suprema Corte. E vivemos novos tempos, senhores. De mídias sociais amplas. Em que não há como sonegar, do indeterminado cidadão comum, documentos como esse. O Ministro Toffoli, maior interessado nessa divulgação, deveria pedir que o caso fosse examinado rápido. Só assim se livraria das suspeitas. Mas, estranhamente, foi em sentido contrário. Mandou calar a revista. Difícil entender. Seja como for, a única coisa que não pode acontecer é o caso do “amigo” deixar de ser apreciado pela Justiça. Para o bem. Ou para o mal.

‘Nosso protesto será exibir um filme foda sobre o Brasil’, diz Kleber Mendonça sobre ‘Bacurau’ em Cannes

Ficção científica do diretor e de Juliano Dornelles disputa a Palma de Ouro; filme de Karim Aïnouz está em mostra

Cartaz de 'Bacurau' Foto: DivulgaçãoCartaz de ‘Bacurau’ Foto: Divulgação

Por Fabiano Ristow – O Globo

O cineasta pernambucanoKleber Mendonça Filho está de volta ao Festival de Cannes este ano (14 a 25 de maio), com a ficção científica ” Bacurau “, que dirigiu ao lado de Juliano Dornelles . Parte dos títulos em competição pela Palma de Ouro foi anunciada na manhã desta quinta-feira. Outros três filmes com DNA brasileiro estarão presentes no festival, incluindo o novo do cearense Karim Aïnouz.

Os diretores e roteiristas descrevem “Bacurau” como um filme de aventura ambientado no Brasil “daqui a alguns anos”. A trama gira em torno de um pequeno povoado do serta?o cuja tranquilidade é ameaçada após a morte, aos 94 anos, de Dona Carmelita, mulher forte e querida por quase todos. Dias depois, os moradores de Bacurau percebem que a comunidade não consta mais nos mapas.

Estrelado pela brasileira Sonia Braga e pelo alemão Udo Kier, o filme mistura gêneros como terror, ficção científica e western.

Cena de 'Bacurau', de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles Foto: Divulgação
Cena de ‘Bacurau’, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles Foto: Divulgação

Da França, onde finaliza “Bacurau”, Kleber Mendonça Filho disse que a seleção significa levar um produto brasileiro com valor cultural e de mercado para a vitrine mais prestigiosa do mundo.

— A seleção para competir em Cannes não está à venda, e isso é fantástico. Encontro-me numa posição de prestígio que não reflete a maneira inadequada com a qual nosso país olha para a cultura. O Brasil está desmoronando as estruturas que asseguram a produção cultural. Espero que esse momento seja produtivo para o governo rever seu posicionamento em relação ao setor — declarou Mendonça Filho.

Produtora de “Bacurau” e outros filmes de Kleber Mendonça Filho, Emilie Lesclaux vê um timing “perfeito” na estreia em Cannes.

— Neste momento, a cultura está praticamente sendo jogada no lixo, com cortes de verbas e extinção do Ministério da Cultura. Então a notícia de hoje mostra a importância e o vigor do nosso cinema — afirmou a produtora.

“Bacurau” foi rodado no Sertão do Seridó, divisa do Rio Grande do Norte com a Paraíba, há um ano, o que se traduziu em desafios logísticos.

'Bacurau': Os diretores Juliano Dornelles e Kleber Mendonça Filho, e a produtora Emilie Lesclaux no set Foto: Victor Jucá / Divulgação
‘Bacurau’: Os diretores Juliano Dornelles e Kleber Mendonça Filho, e a produtora Emilie Lesclaux no set Foto: Victor Jucá / Divulgação

— Filmar longe do Recife, ao contrário de “Aquarius” e “O som ao redor”, era uma novidade para a gente. Esse é um filme maior do que os outros em todos os sentidos, porque tem elenco grande, locações distantes e elementos de ação e efeitos especiais. Também enfrentamos problema com chuvas, o que é atípico nessa região, mas no fim deu tudo certo — lembra Emilie.

Na última vez em que esteve em Cannes, Kleber e a equipe de “Aquarius” (2016) fizeram um protesto no tapete vermelho contra o processo de impeachment da então presidente Dilma Rousseff. Eles levantaram cartazes em que denunciavam um “golpe” em andamento no Brasil. Foi a última vez que o Brasil entrou na disputa pela Palma de Ouro.

Mendonça Filho afirma que não há manifestação prevista para o mês que vem.

Sonia Braga, em cena de 'Bacurau' Foto: Cinemascópio / Divulgação
Sonia Braga, em cena de ‘Bacurau’ Foto: Cinemascópio / Divulgação

— A diferença é que, em 2016, quisemos informar ao mundo que o rito democrático não estava sendo cumprido no Brasil. Hoje, por outro lado, o mundo tem pleno conhecimento (do que está acontecendo no país) . Nosso protesto é apresentar um filme foda sobre o Brasil e exibi-lo em Cannes — concluiu o cineasta, recusando-se a dar mais detalhes sobre a trama de “Bacurau”. — Digo apenas que é um filme sobre o Brasil e o mundo de hoje. E há elementos de gênero que vêm de todos os filmes que sempre amei.

Mendonça Filho e Juliano Dornelles vão enfrentar uma forte competição, que inclui nomes como Pedro Almodóvar (“Pain and Glory”), os Irmãos Dardenne (“Young Ahmed”), Xavier Dolan (“Matthias and Maxime”), Ken Loach (“Sorry we missed you”) e Terrence Malik (“A hidden life”), entre outros (veja abaixo a lista divulgada até agora).

Também consta na lista “O traidor”, do diretor italiano Marco Bellocchio , uma coprodução entre Itália, Brasil, Alemanha e França. Parte das filmagens aconteceu no Rio, com a atriz Maria Fernanda Cândido. O longa aborda a vida de Tommaso Buscetta, mafioso que delatou a Cosa Nostra.

Karim Aïnouz na mostra Un Certain Regard

'A vida invisível de Eurídice Gusmão' Foto: BRUNO MACHADO / Divulgação
‘A vida invisível de Eurídice Gusmão’ Foto: BRUNO MACHADO / Divulgação

“Bacurau” não é o único brasileiro no festival francês deste ano. ” A vida invisível de Eurídice Gusmão “, de Karim Aïnouz, foi selecionado para a mostra paralela Un Certain Regard (Um Certo Olhar).

Esta é a terceira vez que Karim Aïnouz tem um longa selecionado para Cannes. A primeira foi com “Madame Satã” (2002) e a segunda, com “O abismo prateado” (2011). O diretor cearense, que vive na ponte aérea Fortaleza-Berlim, está na capital germânica terminando de mixar “A vida invisível de Eurídice Gusmão”, uma co-produção Brasil-Alemanha.

Adaptação do livro homônimo de Martha Batalha, o filme fala da relação entre duas irmãs, Guida (Julia Stockler) e Eurídice (Carol Duarte e Fernanda Montenegro, que faz a personagem após uma passagem de tempo).

— É um dos três grandes festivais de cinema do mundo, com uma seleção muito rigorosa… É uma vitrine gigante para o longa — comemora o diretor cearense. — É como se o filme estivesse em um berçário de luxo (risos ), a gente fica com a expectativa de que a criança vai crescer bem… É um ponta-pé inicial sem igual.

Após o anúncio de que o filme havia sido selecionado para Cannes, Aïnouz mandou flores para Fernanda Montenegro.

— Ter a Fernanda no elenco é um sonho que todo diretor quer realizar, uma alegria… Estou louco para falar com ela, para ouvir a voz dela. E  estarmos juntos em Cannes seria um outro sonho. Já fiz o convite – conta o diretor, confirmando que Julia e Carol  irão acompanha-lo na premiação.

“A vida invisível de Eurídice Gusmão” tem produção do carioca Rodrigo Teixeira, que se tornou figura conhecida em Hollywood por coproduzir projetos como “Me chame pelo seu nome” (2017), “Frances Ha” (2012) e “A bruxa” (2015), entre outros. Outro projeto de sua empresa, a RT Features, está na disputa da mostra Um Certo Olhar. Trata-se de “Port Authority”, de Danielle Lessovitz, que também conta com produção de Martin Scorsese.

— É incrível estar na seleção oficial e na Un Certain Regard — diz Teixeira, ao GLOBO. — Fazer cinema é uma grande batalha no Brasil, então o reconhecimento de Cannes é muito importante. Além disso, poder levar Fernanda Montenegro ao festival é um prazer imensurável.

O diretor mexicano Alejandro G. Iñárritu, de “O regresso” (2015) e “Birdman” (2014), vai presidir o júri da competição principal. Já a libanesa Nadine Labaki, de Cafarnaum (2018), ficará responsável pela Un Certain Regard.

Ao anunciar a programação, o diretor artístico do festival, Thierry Fremaux, destacou a inclusão de 13 cineastas mulheres na seleção oficial, sendo que quatro delas estão com obras em competição pela Palma de Ouro. Cannes recebeu críticas no passado pela falta de diversidade de gênero entre os selecionados. Em 2018, uma manifestação promovida por artistas no tapete vermelho chamou atenção para o número de mulheres que já disputaram a Palma na história do evento: apenas 82.

Pelo segundo ano consecutivo, nenhum filme da Netflix entrou no line-up — o que significa que títulos de peso, como “O irlandês”, de Martin Scorsese, não serão exibidos em Cannes. Na coletiva, Thierry Fremaux deixou claro que as regras não permitem a inclusão de longas de streaming na competição oficial.

O resto dos filmes que vão compor a programação será revelado em data a definir. Uma ausência bastante sentida foi a de “Era uma vez em Hollywood”, de Quentin Tarantino. Segundo Fremaux, o longa está sendo finalizado e ainda pode ser selecionado.

Veja a lista de filmes selecionados para Cannes:

Competição

“Pain and Glory”, Pedro Almódovar
“O traidor”, Marco Bellocchio
“Wild Goose Lake”, Yinan Diao
“Parasite”, Bong Joon-ho
“Young Ahmed”, Irmãos Dardenne
“Oh Mercy!”, Arnaud Desplechin
“Atlantique”, Mati Diop
“Matthias and Maxime”, Xavier Dolan
“Little Joe”, Jessica Hausner
“Sorry we missed you”, Ken Loach
“Les Miserables”, Ladj Ly
“A hidden life”, Terrence Malik
“Bacurau”, Kleber Mendonça Filho, Juliano Dornelles
“The Whistlers”, Corneliu Porumboiu
“Frankie”, Ira Sachs
“The dead don’t die”, Jim Jarmusch (filme de abertura)
“Portrait of a Lady on Fire”, Celine Sciamma
“It Must Be Heaven”, Elia Suleiman
“Sybil”, Justine Triet

Fora de competição

“Rocketman”, Dexter Fletcher
“The best years of life”, Claude Lelouch
“Maradona”, Asif Kapadia
“La Belle Epoque”, Nicolas Bedos
“Too old to die young”, Nicolas Winding Refn (série de TV; dois episódios)

Sessões especiais

“Share”, Pippa Bianco
“Family Romance LLC”, Werner Herzog
“Tommaso”, Abel Ferrara
“To be alive and know it”, Alain Cavalier
“For Sama”, Waad Al Kateab e Edward Watts

Sessões de meia-noite

“The dangster, the cop, the devil”, Lee Won-Tae

Un Certain Regard

“A vida invisível de Eurídice Gusmão”, Karim Aïnouz
“Beanpole”, Kantemir Balagov
“The swallows of Kabul”, Zabou Breitman e Eléa Gobé Mévellec
“A brother’s love”, Monia Chokri
“The climb”, Michael Covino
“Joan of Arc”, Bruno Dumont
“A sun that never sets”, Olivier Laxe
“Chambre 212”, Christophe Honoré
“Port Authority”, Danielle Lessovitz
“Papicha”, Mounia Meddour
“Adam”, Maryam Touzani
“Zhuo Ren Mi Mi”, Midi Z
“Liberte”, Albert Serra
“Bull”, Annie Silverstein
“Summer of Changsha”, Zu Feng
“EVGE”, Nariman Aliev

Deputados se unem para anistiar ex-delegado Protógenes Queiroz

Resultado de imagem para Protógenes Queiroz

Além do PSL, vários partidos (PRB, MDB, PP, PT, PCdoB, Podemos e Cidadania) endossaram a proposta de anistia. Na prática, a concessão do benefício anularia uma decisão do Supremo Tribunal Federal de 2014, que cassou os direitos políticos de Protógenes e a função de delegado por quebra de sigilo funcional, ou seja, vazamento ilegal de informações. Em 2015, o governo demitiu o então delegado por “transgressões disciplinares”. Em 2016, Protógenes pediu asilo na Suíça, alegando que sua vida “corria risco”.

Empenhado em dar agilidade ao projeto “em uma Câmara renovada de parlamentares”, Coronel Tadeu diz ter recolhido 149 assinaturas (das 171 necessárias) para o requerimento de urgência. Aprovada, a solicitação acelera a tramitação da matéria, que assim não precisa passar pelas comissões e segue direto para o plenário, onde precisa de 257 votos para ser aprovada.

“O Congresso se renovou em 50% e muitos dos que foram investigados na Operação Satiagraha não estão mais ocupando mandatos ou cargos públicos. O que quero dizer é que hoje temos menos bandidos (na Câmara) que antes, e isso nos dá mais chance para aprovar esse projeto”, diz Tadeu, parlamentar de primeiro mandato.

Em geral, os discursos dos deputados que assinaram o documento miram em outros personagens. Para a deputada do Podemos Renata Abreu (SP), ou se criam regras para criminalizar “todos” ou “não (se) pune ninguém”. “Se ele é criminoso, tem de criminalizar o (Sérgio) Moro (atual ministro da Justiça) também. Ou pune todo mundo ou não pune ninguém. Não podemos ter uma regra só para alguns. Não podemos deixar fatos acontecendo de forma rotineira no País sem ninguém criticar enquanto uma pessoa perdeu seus direitos por ter feito a mesma coisa”, disse.

O deputado federal Orlando Silva (PCdoB-SP), mesmo partido pelo qual Protógenes foi deputado, também argumenta que a condenação dele é seletiva. “Defendo a anistia de Protógenes porque só ele foi condenado por práticas que são rotina de agentes públicos. Quem observa as decisões judiciais no Brasil percebe que a condenação é seletiva.”

Precedente

Apesar de ter assinado o projeto, o deputado federal Hildo Rocha (MDB-MA) disse que o Congresso pode ter de rever o documento para não abrir precedente para outros casos. “Se for o caso, a gente pode refletir e fazer uma proposta legislativa que evite abrir procedente. Podemos editar um novo texto que seja mais adequado e impeça que essa legislação se estenda a outras pessoas.”

Para o autor da proposta, não haveria necessidade disso. “Não abre precedente, cada anistia é uma luta, se eu entender que existe algum outro caso semelhante ao dele, vou investir no trabalho de anistiar essa pessoa. Anistia é para aquela pessoa”, diz Coronel Tadeu. O deputado diz ter avisado o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), da intenção de colocar o projeto para votação no plenário. A aliados, Maia diz ter resistência ao texto.

Por anular decisão do Supremo, a proposta pode ser considerada uma afronta do Congresso à corte máxima. Procurados, Eduardo Bolsonaro e Protógenes Queiroz não quiseram comentar.

fonte:Estadão Conteúdo

Pessoas generosas são mais felizes, afirma pesquisa

Existe uma ligação entre generosidade e felicidade: segundo um estudo realizado por pesquisadores da Universidade de Zurique, na Suíça, a simples promessa de ser mais generoso pode resultar em alterações no cérebro que estão ligadas à felicidade.

Para a pesquisa, que foi publicada no periódico científico Nature, os cientistas conduziram um experimento no qual prometeram dar uma quantia de dinheiro para 50 participantes. Estes foram divididos em dois grupos: um que teria que gastar o que recebeu em outras pessoas, e outro que usaria o dinheiro em benefício próprio.

Os pesquisadores então realizaram ressonâncias magnéticas dos cérebros dos participantes, analisando três áreas: o córtex órbito-frontal, subdivisão do córtex pré-frontal que é ativado de acordo com as emoções, a junção temporal-parietal, onde o comportamento generoso é processado, e o estriado ventral, que é associado com a felicidade.

Observou-se que as regiões reagiam de formas diferentes de acordo com o grupo do qual participavam as pessoas analisadas. Aquelas que prometeram ser generosas e gastar o dinheiro com os outros em vez de si mesmas, por exemplo, apresentaram uma ativação na “área altruísta” do cérebro, que por sua vez, teve uma interação intensa com a parte associada com a felicidade.

“Você não precisa ser um mártir para se sentir feliz. Ser um pouco generoso já é o suficiente”, afirmou o cientista Philippe Tobler no anúncio do estudo. “É incrível que só a intenção de ser generoso gere uma mudança neural antes mesmo de ação acontecer.”

Os cientistas continuarão o estudo para entender como a comunicação entre as três áreas citadas do cérebro pode ser treinada e reforçada e se as pessoas só são generosas para se sentirem felizes.

Via Revista Galileu

ZYGMUNT BAUMAN: VIVEMOS TEMPOS LÍQUIDOS. NADA É PARA DURAR

 Por GISELI BETSY

Estamos cada vez mais aparelhados com iPhones, tablets, notebooks, etc. Tudo para disfarçar o antigo medo da solidão. O contato via rede social tomou o lugar de boa parte das pessoas, cuja marca principal é a ausência de comprometimento. Este texto tem como base a ideia do “ser líquido”, característica presente nas relações humanas atuais. Inspirado na obra “Amor Líquido” – sobre a fragilidade dos laços humanos, de Zigmunt Bauman. As relações se misturam e se condensam com laços momentâneos, frágeis e volúveis. Num mundo cada vez mais dinâmico, fluído e veloz. Seja real ou virtual.

O sociólogo polonês Zygmunt Bauman é um dos intelectuais mais respeitados da atualidade. Aos 87 anos, seus livros venderam mais de 200 mil cópias. Um resultado e tanto para um teórico. Entre eles, “Amor liquido” é talvez o livro mais popular de Bauman no Brasil. É neste livro que o autor expõe sua análise de maneira mais simples e próxima do cotidiano, analisando as relações amorosas e algumas particularidades da “modernidade líquida”. Vivemos tempos líquidos, nada é feito para durar, tampouco sólido. Os relacionamentos escorrem das nossas mãos por entre os dedos feito água.

Bauman tenta mostrar nossa dificuldade de comunicação afetiva, já que todos querem relacionar-se. Entretanto, não conseguem, seja por medo ou insegurança. O autor ainda cita como exemplo um vaso de cristal, o qual à primeira queda quebra. As relações terminam tão rápido quanto começam, as pessoas pensam terminar com um problema cortando seus vínculos, mas o que fazem mesmo é criar problemas em cima de problemas.

É um mundo de incertezas, cada um por si. Temos relacionamentos instáveis, pois as relações humanas estão cada vez mais flexíveis. Acostumados com o mundo virtual e com a facilidade de “desconectar-se”, as pessoas não conseguem manter um relacionamento de longo prazo. É um amor criado pela sociedade atual (modernidade líquida) para tirar-lhes a responsabilidade de relacionamentos sérios e duradouros. Pessoas estão sendo tratadas como bens de consumo, ou seja, caso haja defeito descarta-se – ou até mesmo troca-se por “versões mais atualizadas”.

O romantismo do amor parece estar fora de moda, o amor verdadeiro foi banalizado, diminuído a vários tipos de experiências vividas pelas pessoas as quais se referem a estas utilizando a palavra amor. Noites descompromissadas de sexo são chamadas “fazer amor”. Não existem mais responsabilidades de se amar, a palavra amor é usada mesmo quando as pessoas não sabem direito o seu real significado.

Ainda para tentar explicar a relações amorosas em “Amor Líquido”, Bauman fala sobre “Afinidade e Parentesco.” O parentesco seria o laço irredutível e inquebrável. É aquilo que não nos dá escolha. A afinidade é ao contrário do parentesco. Voluntária, esta é escolhida. Porém, e isso é importante, o objetivo da afinidade é ser como o parentesco. Entretanto, vivendo numa sociedade de total “descartabilidade”, até as afinidades estão se tornando raras.

Bauman fala também sobre o amor próprio: o filósofo afirma que as pessoas precisam sentir que são amadas, ouvidas e amparadas. Ou precisam saber que fazem falta. Segundo ele, ser digno de amor é algo que só o outro pode nos classificar. O que fazemos é aceitar essa classificação. Mas, com tantas incertezas, relações sem forma – líquidas – nas quais o amor nos é negado, como teremos amor próprio? Os amores e as relações humanas de hoje são todos instáveis, e assim não temos certeza do que esperar. Relacionar-se é caminhar na neblina sem a certeza de nada – uma descrição poética da situação.

“Para ser feliz há dois valores essenciais que são absolutamente indispensáveis […] um é segurança e o outro é liberdade. Você não consegue ser feliz e ter uma vida digna na ausência de um deles. Segurança sem liberdade é escravidão. Liberdade sem segurança é um completo caos. Você precisa dos dois. […] Cada vez que você tem mais segurança, você entrega um pouco da sua liberdade. Cada vez que você tem mais liberdade, você entrega parte da segurança. Então, você ganha algo e você perde algo”, afirma o filósofo.

MÚSICA – ENQUANTO HOUVER SOL – TITÃS

MÚSICA – ENQUANTO HOUVER SOL – TITÃS

Sobre a menina síria que se rende ao confundir câmera fotográfica com uma arma

Quando ainda com pouca idade, lia muito Drummond. Achava um exagero ele dizer que chegaria um tempo de absoluta depuração, em que “(…) os olhos não choram./E as mãos tecem apenas o rude trabalho./E o coração está seco.” Mas hoje eu vi no noticiário uma cena muito peculiar, e a verdade do poema me veio à alma, imediatamente. Um fotógrafo, ao tentar retratar a vida das crianças sírias, conseguiu captar não a frieza deste mundo, mas já a sua consequência. Ele enquadra a criança em sua lente e essa levanta os braços, rendida, pensando ser uma arma.

Deus! Que mundo é este, onde a inocência caminha de mãos levantadas e a alma do mundo não sangra, e os olhos dos homens não choram, e a dor já não nos pode chocar? Que mundo é este cujos avanços tecnológicos não encontram eco na evolução moral dos indivíduos e onde só o que conta são os cifrões?

Um mundo cujo colorido já não é convidativo aos olhos. Onde a beleza é preterida. Onde a pureza dos pequeninos ainda é roubada e banhada do sangue de seus pares, de seus pais e, não raro, do seu próprio sangue. Um mundo cujas crianças já têm a esperança prematuramente envelhecida pela dor que transborda dos noticiários e que não raro floresce ao seu lado. Um mundo em que, a cada dia, o homem teme mais e mais o próprio homem.

Frequentei um curso, há um tempo, e algo me deixou sobremodo perplexa. O instrutor mostrava-nos diversos vídeos com acidentes causados por veículos. Em dada situação, um homem fora atropelado por não olhar para a sua direita quando um carro vinha na contra mão. Alguns dos colegas, a maioria jovens entre 18 e 25 anos, riram da cena. Noutro atropelamento, a maioria riu. Esboçaram alguma comoção, leve, quando uma criança foi atropelada. Mas, pasmem: um cachorro foi atropelado e, nesse momento, houve uma comoção geral: “Ah, pobrezinho! Tadinho dele!”.

A banalização da dor do outro é hoje tamanha que os jovens se identificam mais e se comovem mais com a dor de um animal que com a dor de um homem ou de uma criança.

A dor do outro é estatística. “Quanta mortes, mesmo, na Síria? Quantos desabrigados no Acre? Quantas mulheres são agredidas por ano? Quantas crianças são estupradas por parentes próximos?” Não! Essa postura desmerece o infinito que somos, desautoriza a angelitude a que estamos destinados, desmente a centelha do Eterno que permeia a alma de cada um de nós!

Necessitamos ver o outro como parte desprendida, mas ainda ligada a nós por lanços infindáveis de natureza espiritual. Ninguém pode ser plenamente feliz enquanto um só de nós estiver de braços levantados, rendida criança assustada pelos estrondos da guerra, cativa da dor e da morte. Esfomeada de uma Justiça que ela não pode compreender ou dizer, mas, humana que é, já a pode desejar e de sua falta se ressentir.

Que esta criança que hoje vi de mãos levantadas por confundir a câmera com uma arma possa ainda, é o que utopicamente desejo, levantar novamente as suas mãos, mas não por medo. Que ela ainda possa, na pontinha dos pés, elevar os seus braços para brincar com as estrelas.

ProFilosóficas

FILME – MINHA VIDA SEM MIM

FILME – MINHA VIDA SEM MIM

Qual é a história de Quasimodo e por que o personagem criado por Victor Hugo virou símbolo da catedral de Paris

Anthony Hopkins em cena do filme O Corcunda de Notre-DameDireito de imagemGETTY IMAGES
Image captionO ator galês Anthony Hopkins interpretou Quasimodo em um filme de 1982

A Catedral de Notre-Dame, que sofreu graves danos segunda-feira devido a um incêndio, é sem dúvida um dos edifícios mais emblemáticos de Paris, a capital francesa.

Mas além de ser uma atração turística visitada todos os anos por mais de 13 milhões de pessoas e que abriga relíquias de valor incalculável, ela tem sido objeto de inúmeras lendas e cenário de importantes obras literárias ao longo dos seus mais de oito séculos de história.

Talvez a obra mais conhecida seja a Nossa Senhora de Paris, do escritor francês Victor Hugo, que foi publicada em 1831 e conta a história de Quasimodo, corcunda que cuidava dos sinos da igreja.

Quasimodo se agarra a um sino. Desenho de Lemud de O Corcunda de Notre-Dame, de Victor Hugo, ilustração de L'Illustration, Journal Universel, 1877.Direito de imagemGETTY IMAGES
Image captionQuasimodo também foi retratado muitas vezes. Nesta imagem ele aparece em um desenho de 1877

Do que se trata a obra?

A obra é ambientada no século 15 em Paris e descreve a vida medieval na capital francesa sob o reinado de Luís XI.

O protagonista da história é Quasimodo, um homem surdo e deformado por uma corcunda nas costas cujo trabalho é tocar o sino da Catedral de Notre Dame.

Ele acaba se apaixonando pela cigana Esmeralda, que se compadece dele após vê-lo ser humilhado e espancado por uma multidão de pessoas.

Quando o arquidiácono da catedral, Claude Frollo, que também é obcecado por Esmeralda, descobre que ela está apaixonada pelo Capitão Febo, apunhala o capitão e a mulher é acusada de ser a autora do ataque.

Gina Lollobrigida e Anthony Quinn como Esmeralda e Quasimodo em filme de 1956Direito de imagemGETTY IMAGES
Image captionA atriz italiana Gina Lollobrigida interpretou Esmeralda e o ator mexicano-americano Anthony Quinn foi Quasimodo em um filme de 1956

Quasimodo tenta proteger Esmeralda na catedral, mas ela acaba condenada à forca.

Ressentido e desesperado, Quasimodo atira Frollo de uma das torres da catedral.

Ao final da história, dois esqueletos são encontrados no túmulo de Esmeralda: é o corcunda abraçando a mulher.

O romance de Victor Hugo também inspirou vários filmes, peças de teatro e musicais, entre outras mostras de arte.

Em 1939, o filme O Corcunda de Notre Dame foi lançado – no que é amplamente considerada a melhor adaptação do romance – com o ator inglês Charles Laughton como protagonista. O ator galês Anthony Hopkins também interpretou Quasimodo em um filme de 1982.

Já a Disney levou a história ao cinema em 1996, adaptada como desenho animado.

Cartaz do filme O Corcunda de Notre-Dame, de 1939, mostra Esmeralda deitada e observada pelo olhar triste de QuasimodoDireito de imagemGETTY IMAGES
Image captionCartaz do filme O Corcunda de Notre-Dame, de 1939

Existiu um verdadeiro Quasimodo?

Para além da ficção, em 2010, historiadores descobriram referências a um verdadeiro escultor “corcunda” que poder ter inspirado Victor Hugo.

Pesquisadores encontraram nas memórias de Henry Sibson, um escultor britânico do século 19 que trabalhava na catedral, uma menção a um colega de trabalho que era corcunda.

Cena do filme de animação O Corcunda de Notre-Dame, lançado em 1996 pela Disney. Na imagem, Quasimodo aparece com um pássaro nas mãosDireito de imagemWALT DISNEY PICTURES
Image captionQuasimodo também virou protagonista de um filme de animação lançado em 1996 pela Disney

“Fiz uma solicitação nos estudos do governo, onde estavam construindo grandes figuras, e aqui me encontrei com o senhor Trajano, o homem mais digno, paternal e gentil que já existiu. Ele trabalhava para o escultor do governo, cujo nome eu esqueci porque não me relacionei com ele. Tudo o que sei é que ele era corcunda e não gostava de se misturar com os escultores”, dizem as memórias de Sibson, que fazem parte do arquivo da Tate Gallery em Londres.

Notre-Dame foi construída entre 1163 e 1345 na Île de la Cité em Paris. É uma das catedrais góticas mais antigas e a terceira maior do mundo nesse estilo, depois das de Colônia (Alemanha) e Milão (Itália).

O incêndio na Catedral

Na segunda-feira, por volta de 18h50 (horário local), a catedral foi atingida por um incêndio cujas causas ainda são desconhecidas.

Jean-Claude Gallet, comandante dos bombeiros de Paris, afirmou à imprensa que, graças ao trabalho da corporação, a estrutura principal do monumento gótico de 850 anos, incluindo as duas torres, está “a salvo e preservada em sua totalidade”.

No entanto, sabe-se que a agulha principal e a cúpula colapsaram.

O prédio estava sendo restaurado desde o ano passado, quando a Igreja Católica da França fez um apelo por financiamento para salvar a estrutura, que estava com diversos problemas. Suspeita-se de que o fogo esteja relacionado ao trabalho de restauração.

Presidente deposto do Sudão transferido para prisão em Cartum

Manifestantes continuaram nesta quarta-feira (170 em frente ao quartel-general do exército em Cartum pedindo uma rápida transição para um governo civil no Sudão, mesmo após a transferência para a prisão do ex-presidente Omar al Bashir, principal alvo dos protestos.

Um amigo de Bashir, de 75 anos, disse à AFP que o ex-presidente, que havia sido detido em um lugar desconhecido, foi transferido durante a noite para uma prisão no norte da capital, Cartum.

Horas depois, o Conselho Militar de Transição, que sucedeu Bashir, anunciou a prisão de dois dos cinco irmãos do presidente deposto, Abdalá e Abas. Ambos empresários não tinham função oficial.

A detenção de Bashir não acalmou os manifestantes, que protestam desde dezembro contra o governo e que permanecem acampados diante do quartel-general das Forças Armadas em Cartum.

Os militares fizeram algumas concessões aos manifestantes, incluindo a demissão na terça-feira do procurador-geral Omer Ahmed Mohamed. Mas os manifestantes seguem determinados.

“Enfrentamos gás lacrimogêneo, muitas pessoas foram detidas. Eles atiram contra nós e muitos morreram. Tudo porque dissemos o que queríamos”, afirmou Fadia Jalaf à AFP.

As autoridades indicaram que pelo menos 65 pessoas morreram durante os protestos desde dezembro.

Os sudaneses celebraram diante do quartel-general, mas a inquietação aumenta porque muitos acreditam que os militares tentarão dispersar o protesto à força.

“Tememos que roubem nossa revolução, por isso estamos aqui, até que nossas demandas sejam atendidas”, disse Jalaf.

Testemunhas afirmaram que veículos militares cercaram a área e que as tropas removeram as barricadas criadas pelos manifestantes.

Ao tomar o poder na quinta-feira passada, os militares anunciaram que um Conselho Militar governaria o país durante dois anos, o que provocou reações negativas dos líderes dos protestos, que pediram a dissolução da junta.

Um dia depois, o ex-ministro da Defesa Awad Ibn Ouf pediu demissão como chefe da junta, o que foi celebrado pelas ruas.

Seu substituto, o general Abdel Fatah al Burhan, iniciou conversas no fim de semana com os partidos políticos, mas nada foi anunciado.

A junta militar enviou um representante à sede da União Africana (UA) em Adis Abeba, mas o bloco regional ameaçou suspender o Sudão pelo golpe de Estado.

Os 55 membros da UA deram aos militares prazo de 15 dias para entregar o poder a um governo civil, enquanto a ONU designou um novo enviado para trabalhar com o bloco regional em uma mediação.

Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos anunciaram apoio aos militares sudaneses. Cartum integra a aliança liderada por Riad que atua na guerra do Iêmen.

As potências ocidentais, que já haviam pressionado Bashir a aceitar as reivindicações das ruas, mantêm o apoio aos manifestantes.

AFP / Estado de Minas