Como podemos retardar o envelhecimento do nosso cérebro, segundo cientistas

Um modelo do cérebro humano
  • Author,Lara Lewington
  • Role,Do BBC Click, na Califórnia

Há muito sabemos que nosso estilo de vida pode ajudar a nos manter saudáveis por mais tempo. Agora, cientistas se perguntam se novas tecnologias também podem ajudar a retardar o processo de envelhecimento de nossos cérebros, acompanhando o que acontece com eles à medida que ficamos mais velhos.

Em uma manhã ensolarada, a holandesa Marijke, de 76 anos, e seu marido, Tom, me receberam para um café da manhã em sua casa em Loma Linda, a uma hora a leste de Los Angeles.

Foram servidos aveia, sementes de chia, frutas vermelhas, mas nenhum cereal ou café açucarado processados — um café da manhã tão puro quanto a missão de Loma Linda.

A cidade é considerada uma das chamadas Zonas Azuis (Blue Zones) do mundo, lugares onde as pessoas têm uma expectativa de vida maior do que a média.

Em Loma Linda os membros da comunidade da Igreja Adventista do Sétimo Dia da cidade são os que estão vivendo mais.

Eles geralmente não bebem álcool ou cafeína, seguem uma dieta vegetariana ou mesmo vegana e consideram um dever de sua religião cuidar de seus corpos da melhor maneira possível.

Essa é a “mensagem de saúde”, como eles chamam, que os colocou no mapa — por décadas, a cidade tem sido objeto de pesquisas para saber por que seus moradores vivem melhor por mais tempo.

Gary Fraser, da Universidade de Loma Linda, me disse que os membros da comunidade Adventista do Sétimo Dia podem almejar ter não apenas uma vida útil mais longa, mas uma maior “expectativa de saúde” -— ou seja, tempo vivido com boa saúde — de quatro a cinco anos a mais para mulheres e sete anos a mais para homens.

Marijke e Tom se mudaram para Loma Linda mais tarde em suas vidas, mas agora ambos estão firmemente inseridos na comunidade.

Homem toca piano com duas mulheres de pé ao seu lado
Legenda da foto,Marijke e Tom – na foto com a repórter Lara Lewington – são parte da comunidade de Loma Linda

Não há nenhum grande segredo em Loma Linda. Seus cidadãos estão simplesmente levando uma vida realmente saudável, mantendo-se mentalmente estimulados e valorizando o espírito comunitário que é geralmente criado em torno de uma religião.

Há palestras regulares sobre vida saudável, encontros musicais e aulas de ginástica.

Eu conversei com Judy, que mora com outras 112 pessoas em um “conjunto habitacional de vida assistida”, onde sempre “é possível ter conversas que abrem o coração e o cérebro”, ela me disse.

“O que eu não tinha percebido foi a importância da socialização para o cérebro… sem ela, nosso cérebro parece encolher e desaparecer”, disse Judy.

A ciência há muito reconhece os benefícios das interações sociais e de se evitar a solidão.

Mas agora também é possível identificar quais cérebros estão envelhecendo mais rapidamente do que deveriam, para que possam ser monitorados e, no futuro, que possam ser tratados preventivamente de forma melhor.

À medida que avançamos em direção a modelos de saúde mais personalizados, previsíveis e preventivos, o diagnóstico precoce será crucial em todas as áreas da saúde, impulsionado pelas incríveis possibilidades da IA e da coleta e agrupamento de dados em larga escala.

Andrei Irimia, professor associado de gerontologia e biologia computacional na University of Southern California, me mostrou modelos de computador capazes de avaliar como nosso cérebro envelhece e que podem predizer seu declínio.

Para criá-los, ele usou exames de ressonância magnética e outros dados de 15 mil pessoas e o poder da inteligência artificial para entender a trajetória dos cérebros que estão envelhecendo de forma saudável e daqueles em que há um processo de doença, como a demência.

“É uma forma muito sofisticada de analisar padrões que não necessariamente percebemos como seres humanos, mas o algoritmo de IA é capaz de detectá-los”, disse ele.

O professor Irimia, é claro, examinou a minha cabeça.

Eu tinha feito uma ressonância magnética funcional antes da minha visita e, depois de analisar seus resultados, o professor me disse que eu tinha uma idade cerebral oito meses mais velha do que minha idade cronológica (embora, aparentemente, a parte que controla a fala não estava envelhecendo tão rapidamente. Eu mesma poderia ter dito isso a ele).

O professor acrescentou que os resultados estão dentro de uma margem de erro de dois anos.

Empresas privadas também estão começando a comercializar essa tecnologia.

A empresa americana Brainkey está oferecendo o serviço em uma variedade de clínicas em todo o mundo. Seu fundador, Owen Philips, me disse que, no futuro, fazer uma ressonância magnética deveria se tornar mais fácil.

“Está se tornando muito mais acessível para as pessoas fazerem uma ressonância magnética, e as imagens produzidas estão cada vez melhores”, disse ele.

“A tecnologia está chegando a um ponto que nos permite ver as coisas muito mais cedo do que no passado. E isso significa que podemos entender exatamente o que está acontecendo no cérebro de um paciente individual. Com IA, temos condição de fazer isso.”

E eu ainda fui presenteada com uma impressão em 3D do meu próprio cérebro.

Repórter Lara Lewington segura modelo em 3D de seu cérebro
Legenda da foto,Após o exame, Lara Lewington recebeu um modelo de seu próprio cérebro em 3D

Em contraste com o que a análise do professor Irimia sobre minha ressonância magnética me disse, a estimativa da Brainkey reduziu a idade biológica do meu cérebro em um ano.

O objetivo do exame não é apenas fornecer uma avaliação mais precisa do tipo de tratamento, mas também ser capaz de quantificar a melhoria obtida pelas intervenções.

Aumentos significativos na expectativa de vida nos últimos 200 anos deram origem a uma série de doenças relacionadas à idade.

Eu me pergunto se todos nós vivêssemos mais e mais, a demência poderia bater em todas as nossas portas.

O professor Irimia disse que essa é uma teoria que muitos investigaram, embora não comprovada, acrescentando que o objetivo era encontrar uma maneira de retardar o surgimento de demência para além de nossas expectativas médias de vida.

E isso nos leva de volta ao ponto inicial. Todos os cientistas e médicos, assim como os moradores das chamadas Zonas Azuis, dizem que o estilo de vida é fundamental.

Uma boa alimentação, manter-se ativo, mentalmente estimulado e feliz são cruciais para o bom envelhecimento do nosso cérebro.

Também há outro fator importante, de acordo com Matthew Walker, professor de neurociência e psicologia na Universidade da Califórnia, Berkeley, e autor do livro best-seller Why We Sleep (Por que Dormimos, em tradução livtre).

“Dormir é a coisa mais eficaz que você pode fazer todos os dias para restaurar a saúde do cérebro e do corpo”, ele disse.

“Não há uma simples função de sua mente que não seja maravilhosamente aprimorada quando você dorme ou que não seja comprovadamente prejudicada quando você não dorme o suficiente”, acrescentou ele.

Ele comentou sobre o sistema de limpeza do nosso cérebro, que funciona durante nosso sono eliminando as proteínas beta-amilóide e tau -— “duas das principais culpadas por trás do surgimento da doença de Alzheimer”.

Mudanças nos padrões de sono também estão associadas à demência. O professor Walker disse que isso não é apenas percebido em pessoas com 60 ou 70 anos – já pode ser notado aos 30 anos.

Portanto, identificar essas mudanças por meio do monitoramento do sono pode se tornar um “modelo de prevenção na meia-idade”.

A Fauna Bio, uma empresa de biotecnologia nos arredores de São Francisco, está coletando dados sobre esquilos durante e após a hibernação.

Como é sabido, durante esse estado de torpor, a temperatura corporal dos esquilos cai e sua taxa metabólica é reduzida para apenas 1% do normal.

Nesse período, eles parecem ser capazes de regenerar neurônios e refazer as conexões que seus cérebros haviam perdido.

O objetivo da empresa é tentar criar medicamentos para replicar esse processo em seres humanos, sem que eles precisem passar metade do ano hibernando no subsolo. Mesmo que esse seja o desejo de alguns.

Também foi demonstrado que a depressão não tratada aumenta nosso risco de demência.

A professora Leanne Williams, da Universidade de Stanford, identificou um método de “visualizar” algumas formas de depressão no cérebro usando uma ressonância magnética e, assim, verificar se o tratamento funcionou.

Isso pode ajudar os cientistas a entender mais sobre as causas dos problemas de saúde mental, como a depressão, além de fornecer uma maneira de quantificar a evolução do tratamento de um paciente.

Poucos confiaram mais na ciência para alcançar a longevidade do que Bryan Johnson — o empresário de tecnologia que gasta milhões em um esforço para reverter sua idade biológica.

Dezenas de suplementos, 19 horas por dia de jejum, exercícios que o fazem parecer que vai explodir e uma série de tratamentos (às vezes controversos), são o que ele espera que o façam voltar no tempo.

Mas, como Mildred, de 103 anos, que visitei em Loma Linda, disse enfaticamente: “Você absolutamente precisa ter muito cuidado com sua dieta, é verdade, mas eu não gosto disso: ‘Você tem que fazer isso, isso e isso, e absolutamente não tocar naquilo! ‘”.

Ela acha que é mais importante aproveitarmos um pouco a vida e, convenhamos, ela deve saber o que diz.

A Importância dos Veículos de Comunicação Independentes para a Liberdade e Democracia. Por Flávio Chaves

Por Flávio Chaves – Jornalista, escritor, poeta e membro da Academia Pernambucana de Letras. Foi Delegado Federal/Minc

Nos tempos atuais, observa-se um crescente instinto de perseguição contra aqueles que buscam levar ao conhecimento do cidadão matérias que expõem ações e atitudes não republicanas de alguns segmentos do setor público e privado. Nesse cenário, as plataformas de comunicação independentes assumem um papel crucial na preservação da democracia e na promoção de um debate plural e diverso. Estes espaços virtuais, livres de amarras ideológicas ou partidárias, são fundamentais para garantir a liberdade de expressão e o direito ao debate público.

Esses veículos independentes são essenciais para o exercício da liberdade de expressão. Eles permitem que vozes dissidentes e críticas ao status quo tenham um espaço para se manifestar. Isso é especialmente importante em um contexto onde grandes meios de comunicação podem estar sujeitos a pressões econômicas e políticas que limitam sua capacidade de reportar com imparcialidade. Essas plataformas são fundamentais para promover transparência e fiscalização ao expor irregularidades e práticas antiéticas, atuando como um mecanismo de controle tanto do setor público quanto do privado. Além disso, proporcionam uma diversidade de opiniões que muitas vezes são negligenciadas pelos meios tradicionais de comunicação, garantindo que informações relevantes e cruciais cheguem ao público sem censura ou distorções.

Apesar de sua importância, essas iniciativas enfrentam inúmeros desafios. Muitos jornalistas e blogueiros independentes são alvo de ameaças e ações judiciais destinadas a silenciá-los. A manutenção de uma plataforma independente frequentemente depende de recursos limitados, o que pode comprometer sua continuidade. Além disso, há esforços constantes para descredibilizar esses veículos, taxando-os de “fake news” ou “mídia alternativa”, com o intuito de minar sua influência e alcance.

É imperativo que a sociedade reconheça e valorize a importância da pluralidade de opiniões para o bom funcionamento de uma democracia. A troca franca de ideias, independentemente da filiação política ou crença pessoal, é crucial para uma sociedade livre e soberana. Cada cidadão deve ter o direito de falar e ser ouvido, contribuindo para um debate público mais eficiente.

Esses meios de comunicação independentes desempenham um papel indispensável na promoção da liberdade de expressão e na preservação da democracia. Em um mundo onde a informação é poder, garantir que todas as vozes tenham a oportunidade de se manifestar é essencial para a construção de uma sociedade mais justa e equitativa. Portanto, é necessário apoiar e fortalecer essas plataformas, assegurando que continuem a desempenhar sua função vital de informar e engajar o povo.

O caso das joias de Bolsonaro perde de goleada do caso da conta de luz de Lula. Por Mario Sabino – Metrópoles

Nani Humor: O PERDÃO JUDICIAL DOS IRMÃOS BATISTA

Charge do Nani (Nanihumor.com)

Por Mario Sabino
Metrópoles

A maioria dos jornalistas continua muito entretida com as joias sauditas que Jair Bolsonaro teria tentado surrupiar no final do seu mandato. A Polícia Federal primeiramente disse que elas valeriam, no total, R$ 25 milhões. Horas depois da divulgação dessa cifra, veio uma correção: na verdade, elas valeriam R$ 6,8 milhões. A Polícia Federal, como se vê, está cada vez mais científica, e a diferença pouca fala muito da qualidade da investigação.

Em matéria de escândalo, porém, há um incomensuravelmente maior. Ele é que não deveria sair das manchetes, mas que vai ficar por isso mesmo, porque ficou combinado que o único vilão que existe na nossa pitoresca democracia é Jair Bolsonaro.

FORA DA AGENDA – O jornalista Daniel Weterman, do Estadão,  publicou que “executivos da Âmbar Energia, empresa do Grupo J&F, dos irmãos Joesley e Wesley Batista, foram recebidos 17 vezes no Ministério de Minas e Energia fora da agenda oficial antes da edição da medida provisória que beneficiou um negócio da companhia na área de energia elétrica e repassou o custo para todos os consumidores brasileiros.

O ministério e a Âmbar afirmam que não trataram da medida provisória nas conversas, mas não informam o conteúdo dos encontros”.

A derradeira reunião foi entre o presidente da Âmbar, Marcelo Zanatta, e o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, e ocorreu apenas uma semana antes do texto da medida provisória, um presentão do governo Lula para Joesley e Wesley, sair do ministério para a Casa Civil.

PLAY VIDEO – Dez dias após desse encontro, o grupo J&F comprou a Âmbar — que, dois dias depois, seria agraciada com a assinatura da MP. A medida provisória socorreu o caixa da Amazonas Energia para ela poder pagar as termelétricas da Âmbar que são suas fornecedoras. E de quem o grupo J&F comprou a Âmbar? Da Eletrobras. O governo vendeu a empresa para os irmãos Batista e pagou pela sua compra.

Quer dizer, não foi o governo que pagou. Fomos nós. Porque o dinheiro que irá para a empresa dos irmãos Batista, após fazer pit stop no caixa da Amazonas Energia, sairá da conta de luz de todos os brasileiros durante quinze anos. Repetindo: quinze anos. Especialistas no setor calculam que o custo total para os consumidores poderá chegar a R$ 30 bilhões. Agora, vo pode voltar a ler sobre o caso das joias de Bolsonaro. O último a sair, apague a luz.

Ministro de Lula terá de “explicar” 17 reuniões com empresa dos irmãos Batista

Dito & Feito: CANDIDATO A NOIVO

Charge do Gilmar Fraga (Gaúcha/Zero Hora)

Gustavo Zucchi
Metrópoles

Deputados da oposição decidiram cobrar do ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, explicações sobre reuniões entre integrantes de sua pasta e da Âmbar Energia, empresa dos irmãos Wesley e Joesley Batista. Até a tarde desta terça-feira (9/7), ao menos dois requerimentos já tinham sido protocolados na Câmara cobrando do ministro explicações sobre as reuniões de membros do ministério com representantes da Âmbar.

O primeiro requerimento foi protocolado pelos deputados do Novo Marcel Van Hattem (RS) e Adriana Ventura (SP). O segundo é de autoria do deputado federal Cabo Gilberto (PL-PB).

17 REUNIÕES – Reportagem veiculada nesta terça pelo jornal O Estado de S. Paulo, o Estadão, revelou que executivos da Âmbar Energia, empresa do Grupo J&F, tiveram ao menos 17 reuniões no Ministério de Minas e Energia.

Essas audiências ocorreram no período em que o governo Lula preparava uma medida provisória (MP) que beneficiou diretamente termoelétricas recém-compradas pela Âmbar Energia.

“Este requerimento de informação tem como objetivo esclarecer detalhes cruciais sobre a elaboração e aprovação da mencionada medida provisória, além de examinar a participação de agentes externos e internos em seu desenvolvimento”, afirmam os deputados do Novo nos requerimentos, que aguardam despacho da Mesa Diretora da Câmara para serem enviados para o Ministério de Minas e Energia, que terá de respondê-los

MEDIDA PROVISÓRIA – Em 14 de junho, o governo Lula editou uma MP que socorre o caixa da Amazonas Energia, cobrindo pagamentos que a estatal devia para uma série de termoelétricas que lhe fornecem energia.

Segundo a MP, os recursos necessários para socorrer a estatal serão bancados pela conta de luz dos brasileiros pelos próximos 15 anos. Assim, ela terá como pagar os débitos que possui com suas fornecedoras da eletricidade.

Quatro dias antes da MP, a Âmbar tinha adquirido 13 termoelétricas. Parte delas tinha débitos a receber da Amazonas Energia. Na aquisição, a empresa dos irmãos Batista assumiu o risco pela inadimplência.

DIZ A EMPRESA – Ao Estadão, a Âmbar classificou como “descabidas” as “especulações” a respeito da MP 2 e o negócio realizado pela Âmbar, mas não revelou o tema das reuniões no Ministério de Minas e Energia.

“São descabidas especulações a respeito da Medida Provisória 1.232 e o negócio realizado pela Âmbar. Não fazem sentido técnico e econômico, por diversos fatores. A Âmbar nunca tratou do tema com o Ministério de Minas e Energia”, afirmou a empresa.

Por que Trump tem imunidade nos EUA e Bolsonaro é inelegível no Brasil? Por Francisco Leali – Estadão

Pesquisa: maioria dos americanos duvida que Trump aceitará resultado se perder | CNN Brasil

Supremo deu uma imunidade meia-sola a Biden como presidente

Por Francisco Leali
Estadão

A semana que começou com a Suprema Corte dos Estados Unidos dando imunidade ao ex-presidente Donald Trump de atos praticados no exercício da função de chefe de governo termina com o ex-presidente Jair Bolsonaro indo celebrar quem está à direita ou à extrema dela em terras brasileiras. Acima do Equador, Trump ganhou uma espécie de salvo-conduto para disputar as eleições norte-americanas, enquanto aqui o ex-capitão está inelegível por decisão da Corte que regula o processo de votação, o Tribunal Superior Eleitoral.

Com a direita brasileira toda reunida no fim de semana no balneário de Camboriú certamente se fará a pergunta: se Trump está blindado, por que Bolsonaro segue encurralado pelo Judiciário?

DIRIA JURACY – Há quem queira resgatar a declaração mal-posta do embaixador brasileiro nos EUA, o baiano Juracy Magalhães: “o que é bom para os Estados Unidos, é bom para o Brasil”. A frase fora dita no contexto de 1964, com regime militar instaurado pós-golpe.

Anos depois, o político feito diplomata tentou explicar o mal-entendido lembrando que antes de proferir a frase teria afirmado que os dois países estiverem juntos em duas guerras, portanto, o que é bom…. Prevaleceu, entretanto, a versão de que o dito era um ajoelhar-se perante o irmão do Norte.

Passados 60 anos, lembrar do episódio, com intenção oposta, serve aos bolsonaristas. Afinal, com o Poder Judiciário dos EUA declarando, por maioria, que um presidente não pode ser processado por atos que perpetra com intenção de governar, o mesmo espírito deveria espalhar-se pelo mundo jurídico dos regimes democráticos.

EXEMPLO DE TRUMP – Pode-se argumentar ainda que Trump, entre outras coisas, é acusado de tentar impor sua vontade sobre o processo eleitoral e ainda instigar a invasão do Capitólio. Fatos semelhantes aos imputados a Bolsonaro.

O TSE o fez inelegível por usar o Palácio da Alvorada para contestar o sistema de coleta de votos no País a embaixadores estrangeiros e, num segundo julgamento, por usar atos públicos do 7 de Setembro para tirar proveito eleitoral e ainda instigar as Forças Armadas para estar junto a seus projetos de permanecer no cargo.

Numa decisão questionada por liberais, a Corte dos EUA entendeu que um presidente da República deve ter imunidade de seus atos no cargo, mas não fora dele. Ou seja, se Trump cometeu um crime que não tem relação com o exercício do Poder, pode ser processado e sofrer as consequências jurídicas de uma eventual condenação. Mas o mesmo não vale se o ato for por ter uma visão própria do que cabe ao chefe do Executivo.

DIREITO ROMANO – No meio jurídico, costuma-se dizer que a base do Direito norte-americano é diversa. Nossa fonte, é o direito romano, explicam, e disso decorreria outro modo de agir dos tribunais. Se nos EUA a Constituição redigida ainda no século XVIII não chega a dez artigos, a brasileira de 1988 está, por enquanto, com 137 e segue sendo emendada.

Nossa Carta magna, estabelece que o presidente da República está protegido da caneta de juízes das cortes espalhadas pelo País. Mas deve seguir os atos do Supremo Tribunal Federal. A Suprema Corte é a única com poder para processar o chefe do Executivo brasileiro por seus crimes cometidos no exercício do cargo.

Então, se nos EUA o novo entendimento fala em imunidade, no Brasil o que vale é a foro privilegiado. Ocorre que esse benefício de um tribunal especial vale para o presidente enquanto está no poder, fora dele, o caso deveria estar na mão de qualquer juiz, mas segue sob o manto dos ministros do STF.

VISÃO DIFERENTE – Fica então a última palavra sobre o destino de Bolsonaro na mão do Supremo. Se a Corte estivesse repleta de ministros com o perfil dos que devem comparecer à festa da direita na praia de Santa Catarina, talvez o entendimento pudesse ser outro e o ex-presidente ainda estaria com direitos políticos preservados.

Mas a história por aqui é outra. Bolsonaro, que não gostava de vacina, tratava as Forças Armadas como se fossem suas e instigou seus mais ferozes seguidores a atropelar a Praça dos Três Poderes, por enquanto, está impedido de ter o nome na urna eletrônica.

Na quinta-feira passada, dia 4, a Polícia Federal acrescentou à ficha criminal de Bolsonaro mais um ponto. Ele foi indiciado por suposto crime no caso das joias da Arábia Saudita, caso revelado pelo Estadão. Nesse caso, aquele que fora saudado como mito fora flagrado em posição de quem quer pôr no bolso o patrimônio que é do Estado.

VAI DEMORAR – O caminho do processo criminal ainda levará algum tempo. Não se sabe ainda se vai coincidir com o calendário eleitoral. Ainda assim, Bolsonaro permanece inelegível.

A não ser que o TSE, em 2026, sob o comando dos ministros Nunes Marques e André Mendonça, mude o rumo, por uma liminar ou mesmo decisão do plenário, e libere a candidatura do ex-presidente.

Nesse cenário hipotético, a decisão ainda bateria no Supremo. A confusão estará formada em ano eleitoral se uma corte disser sim e outra não. O imponderável de hoje costuma ser o possível de amanhã.

“O brasileiro convive com o escândalo como se fosse o seu pão de cada dia”

Tribuna da Internet | Thiago de Mello jamais aprendeu a lição de aceitar as injustiças sociais

O poeta amazonense Thiago de Mello (1926-2022) denunciou em versos as agruras da política brasileira, ao compor “Diário de um Brasileiro”, um poema que mostra a realidade de nosso dia a dia.

DIÁRIO DE UM BRASILEIRO
Thiago de Mello

O brasileiro convive bem com o escândalo moral.
Os ladrões infestam os salões de luxo,
os Bancos estouram, os banqueiros
são cumprimentados com reverência,
o Presidente do Congresso chama o senador
de bandido, sim senhor, vossa excelência.

O Presidente diz pela televisão
que “é preciso acabar com a roubalheira
nos dinheiros públicos”.
As pessoas das cidades grandes
vivem amedrontadas, qualquer
transeunte pode ser um assaltante.
As meninas cheiram cola. Depois
vão dar o que têm de mais precioso
ao preço de um soco na cara desdentada.

O brasileiro convive com o escândalo
como se fosse o seu pão de cada dia,
com uma indiferença letal.

Como se dormir na casa com um rinoceronte,
mas rinoceronte mesmo,
fosse a coisa mais natural do mundo,
chegando a cheirar a camélias.

O povo, um dia.
Do povo vai depender
a vida que vai viver,
quando um dia merecer.
Vai doer, vai aprender.

No futuro, não será a História que julgará os tiranos, mas o riso das plateias. Por João Pereira Coutinho

Como Stálin escondeu sua cooperação com os nazistas durante a 2ª Guerra  Mundial

Hitler e Stálin, retratados da maneira que realmente merecem

Por João Pereira Coutinho
Folha

É uma história que sempre me intrigou: em junho de 1934, o camarada Stálin telefonou ao escritor Boris Pasternak. O motivo do telefonema era inusitado: o que tinha Pasternak a dizer sobre o poeta Osip Mandelstam, preso um mês antes por ter recitado um poema satírico sobre o tirano?

Na versão contada anos depois por Isaiah Berlin, a única que conhecia, Pasternak foi esquivo nas respostas: alegou não ser íntimo de Mandelstam e depois tentou mudar o tema da conversa para assuntos mais metafísicos.

Stálin, antes de terminar abruptamente com o telefonema, criticou Pasternak por não defender o amigo.

NUNCA SE PERDOOU – A história correu Moscou e Pasternak nunca verdadeiramente se perdoou. Mandelstam, torturado em 1934, acabaria por morrer no exílio em 1938. Aprendo agora que essa não é a única versão. Existem, pelo menos, 13 versões, escreve Ismail Kadaré no seu derradeiro livro, “A Dictator Calls”, ou um ditador telefona.

Era inevitável que Kadaré, morto aos 88 anos, revisitasse esses três minutos de conversa entre Stálin e Pasternak. Na literatura europeia do nosso tempo, ninguém escreveu mais ou melhor sobre a relação entre o totalitarismo e a vida intelectual do que Kadaré.

Nenhuma das versões apresentadas iliba Pasternak. Em todas elas, o escritor não defende o colega. Em todas, Stálin critica Pasternak por não ser capaz de o fazer.

MAS POR QUÊ? – O interesse do livro, porém, está na busca obsessiva de porquês. Por que motivo Stálin telefonou a Pasternak? E por que motivo Pasternak falhou neste teste trágico?

Comecemos pelo autor de “Doutor Jivago”. Falhou por inveja, talvez. Como excluir esse veneno silencioso que corre livre entre a república das letras? Ou, então, falhou por medo, para não sermos tão cínicos.

Não foi apenas Mandelstam a parodiar Stálin no seu círculo de amigos —”o alpinista do Kremlin”, com “dez vermes grossos [como] seus dedos” e “enormes baratas risonhas no seu lábio superior” etc. Pasternak também o retratara em tempos como um anão em corpo de adolescente e com um rosto de velho.

TEMOR Á DENÚNCIA – Estaria Pasternak a pensar no seu próprio currículo? Ou temia que, sob tortura, Mandelstam o denunciasse como uma das testemunhas da sua ofensa poética?

Em caso afirmativo, a ambiguidade de Pasternak também pode ser vista como uma estratégia de defesa.

É legítimo especular. Mas é supérfluo também. As respostas de Pasternak —não somos íntimos, não pertencemos à mesma escola poética, falemos de outros assuntos— só revelam o terror do espírito perante a brutalidade do poder tirânico.

OUTRO EXEMPLO – O próprio Ismail Kadaré relata uma experiência semelhante: o dia em que o ditador albanês Enver Hoxha lhe telefonou inesperadamente para o congratular por um poema.

A reação de Kadaré, que era um crítico sutil do regime, foi uma mistura de pasmo e angústia, servida por sucessivos “obrigados”. Nenhum heroísmo.

Mas por que Stálin telefonou? Para testar a lealdade do escritor ao regime? Para saber até que ponto a paródia de Mandelstam se tornara conhecida entre a “intelligentsia” russa? Nesse último caso, não será a fragilidade do tirano, o seu medo do ridículo, o seu temor ante a perenidade da arte, mais patético do que as hesitações de Pasternak?

RICARDO III – Como lembra Ismail Kadaré, o rei Ricardo 3º da Inglaterra não terá sido o monstro pintado por Shakespeare, mas é como monstro que ele ficou.

E lembra mais: Lênin sempre temeu as caricaturas selvagens dos mais talentosos escritores russos, razão pela qual poupou e cortejou Maximo Górki.

Quando Stálin telefona a Pasternak, talvez estivesse interessado em saber a opinião do maior escritor do seu tempo sobre o lugar que ele, Stálin, ocuparia nas belas-letras.

PENA E ESPADA – Para usar o ditado célebre, a pena pode ser mais poderosa do que a espada. O comentário final de Stálin, criticando Pasternak pela sua falta de coragem na defesa de Mandelstam, é tão patética e descabida que apenas revela uma frustração mais profunda.

No fim das contas, é a frustração que habita o coração dos tiranos. Embriagados pelo poder, rodeados de lisonjas e mentiras, eles temem e invejam o talento dos criadores livres.

E sabem, inconscientemente que seja, que não será a história a julgá-los; serão os risos da plateia quando seus cadáveres forem expostos sem máscaras. É por isso que a obra de Boris Pasternak ou Ismail Kadaré perdurarão. A poesia de Mandelstam também. Stálin ou Enver Hoxha serão apenas piadas de mau gosto.

Moraes recebe documento que o obriga a enfim soltar ex-assessor de Bolsonaro

Moraes dá 15 dias para PGR avaliar se denuncia Bolsonaro no caso das joias | VEJA

Moraes cometeu vários erros e manteve uma prisão ilegal

Paolla Serra
O Globo

A operadora de telefonia Tim encaminhou ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), a geolocalização de Filipe Martins, ex-assessor do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), mostrando que ele esteve no Paraná e em Brasília, no final de 2022. Martins tenta provar ao magistrado que não viajou a bordo do avião do governo brasileiro, burlando o sistema migratório dos Estados Unidos, nesse mesmo período.

O documento foi juntado na tarde desta quarta-feira ao inquérito em que Martins é investigado. O ex-assessor de Assuntos Internacionais foi preso preventivamente pela Polícia Federal, em 8 de fevereiro deste ano, durante a deflagração da Operação Tempus Veritatis, que apurava uma suposta organização criminosa que teria atuado para manter Bolsonaro no poder por meio de uma tentativa de golpe Estado e abolição do Estado Democrático de Direito.

MINUTA DO GOLPE – A trama, segundo o inquérito, teria envolvido a entrega da minuta e a preparação para realizar um golpe de Estado “com apoio de militares com conhecimentos e táticas de forças especiais em ambiente politicamente sensível”.

De acordo com o relato da delação premiada de Mauro Cid, ex-ajudante de ordens de Bolsonaro, Martins elaborou uma suposta minuta golpista após o resultado das eleições em 2022 que previa a prisão de Moraes e uma intervenção no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). De acordo com informações levantadas pela PF, o ex-assessor esteve no Alvorada nos dias 18 de novembro e 16, 20 e 21 de dezembro de 2022.

No pedido de prisão encaminhado pela PF a Moraes, os investigadores apontam que Martins viajou “sem realizar o procedimento de saída com o passaporte em território nacional” para “se furtar da aplicação da lei penal”.

MARTINS NEGA – Desde que o mandado foi cumprido na casa de sua namorada, em Ponta Grossa, no Paraná, ele nega que tenha deixado o Brasil e que tenha atuado para elaborar uma minuta golpista.

O ex-assessor já enviou a Moraes faturas do cartão de crédito com despesas em aplicativos no Brasil, como Uber e iFood, além de passaporte, certidão do órgão encarregado pela segurança nas fronteiras americanas. No mês passado, ele apresentou novas certidões em que contesta um comprovante obtido pela PF junto ao site do U.S. Customsand Border Protection (CBP) — que atesta sua entrada em Orlando em 30 de dezembro de 2022.

“A Polícia Federal poderia ter requerido acesso à lista oficial e definitiva de passageiros do vôo diretamente na Presidência da República, mas preferiu ficar com um rascunho de suposta lista, um documento extra-oficial (pois encontrado apenas nos aparelhos eletrônicos do delator Mauro Cid, e não corroborado pelos órgãos pertinentes, pelos arquivos oficiais ou pelos canais próprios), meramente rascunhado, editável, o que é pior ainda, pois poderia ter sido editada pelo próprio delator – e foi com base nisso, nessa prova imprestável, que a Polícia Federal, demonstrando toda a sua diligência, requereu a prisão do peticionante, a qual foi aceita e já dura quatro meses”, afirmou a defesa do ex-assessor.

COMPROVAÇÃO – Na petição, o advogado Sebastião Coelho relatou que o documento formalmente emitido pelo órgão de proteção de fronteiras do governo americano atesta que Martins entrou no país pela última vez em setembro de 2022.

Na ocasião, ele estaria acompanhando Bolsonaro na Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova Iorque.

A admissão teria acontecido para a classe de visto G-2, fornecido a “representantes do governo viajando temporariamente para participar de reuniões em organizações internacionais”.

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NOTA DA REDAÇÃO
 – Em tradução simultânea, o ministro Moraes errou feio e repetidamente, em especial porque preferiu acreditar em acusação leviana da Polícia Federal, ao invés de se submeter às múltiplas provas apresentadas. Agora, Moraes vai ter de soltar Filipe Martins, depois de deixá-lo preso ilegalmente por cinco meses, o que evidencia a existência de uma ditadura do Judiciário, pois os ministros do Supremo se comportam como se estivessem acima da lei. É lamentável(C.N.)

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Há cassinos no mundo todo, abrindo empregos e oportunidades

Deu em O Globo

Desde 1946, quando cassinos e jogos de azar foram proibidos no Brasil, nada impediu que a jogatina se expandisse na clandestinidade — basta lembrar a popularidade do jogo do bicho. O Estado se tornou o único banqueiro autorizado com as loterias, mas o poder público deixou de exercer sua função de regulador.

Com a internet, o brasileiro passou a apostar em sites no exterior, sem ter a quem reclamar caso enganado. Só com a recente regulamentação das apostas esportivas a situação começou a mudar.

PROJETO DE LEI – Um novo passo é o Projeto de Lei que legaliza cassinos, bingos e o jogo do bicho, aprovado na Câmara e na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado.

Passados 78 anos da proibição, está claro que a melhor alternativa é legalizar o jogo. É preciso tomar cuidados para mitigar riscos como lavagem de dinheiro ou dependência dos apostadores. Mas há formas de punir responsáveis por manipulações criminosas.

E sobram exemplos no mundo para inspirar a regulação de cassinos e outras modalidades de apostas. “Os indicadores econômicos e sociais dos países melhoraram, não houve aumento da violência nem da evasão fiscal”, diz o senador Irajá (PSD-TO), relator so projeto na CCJ do Senado.

BONS EXEMPLOS – Ao legalizar o jogo, o Brasil seguirá o exemplo de países como Estados Unidos, China, Índia, Alemanha, Japão, França, Itália, Reino Unido ou Austrália. Só em solo americano há mais de mil cassinos em 40 estados, empregando 1,7 milhão e movimentando US$ 240 bilhões anuais.

Numa amostra de 200 países analisados pela revista médica britânica The Lancet, 164 permitem algum tipo de aposta. De 50 europeus, 48 convivem com jogos de azar. Nas Américas, o Brasil está em minoria: 33 de 37 países não proíbem o jogo, preferem regulá-lo e taxá-lo.

No estado americano de Nevada, onde fica Las Vegas, duas agências licenciam, regulam e fiscalizam o setor. Quem detém mais de 10% do capital das empresas de jogos passa por escrutínio rigoroso e tem de preencher 65 páginas de formulários.

OUTRAS SALVAGUARDAS – Também são avaliados produtores e distribuidores de equipamentos como caça-níqueis.  E a legislação contra lavagem de dinheiro equipara cassinos a instituições financeiras para efeito de fiscalização.

No Reino Unido, a Comissão de Jogos de Azar protege os interesses dos apostadores. No final de abril, multou uma operadora em £ 582 mil por falhar nos cuidados contra lavagem de dinheiro.

Em Macau, a Direção de Inspeção e Coordenação de Jogos exige que o principal responsável por cassinos tenha residência permanente e detenha pelo menos 15% do negócio. Executivos são submetidos a testes de aptidão. A concessão vale por dez anos, mas há fiscalização e renovações a cada três.

OUTROS CUIDADOS – No Brasil, o projeto limita a quantidade de cassinos por estado e tenta integrá-los a resorts e polos turísticos. Entre os cuidados, há medidas para evitar endividamento e lavagem de dinheiro. Não será permitido apostar em espécie.

Cria-se também uma autoridade nacional, que precisa ter plenos poderes para coibir os abusos. A expectativa é uma movimentação inicial de R$ 14 bilhões anuais e, no futuro, arrecadação de R$ 20 bilhões em impostos.

Um mercado fortemente regulado com medidas inspiradas nas melhores práticas internacionais é preferível à situação atual. A proibição jamais funcionou na prática. Tomados os devidos cuidados, legalizar o jogo será melhor.

Democracia e moderação salvaram a França hoje, mas logo haverá um amanhã

Presidente francês, Emmanuel Macron e o novo primeiro-ministro, Gabriel Attal

Macron mantém o jovem premier Gabriel Attal até fechar a coalizão

Joel Pinheiro da Fonseca
Folha

Macron e todos os que acreditam numa sociedade aberta e plural respiram aliviados com o mau resultado do Reunião Nacional nas eleições legislativas francesas. Foi —é preciso lembrar— o melhor resultado de sua história, mas ficou aquém da esperada maior bancada e ainda mais de uma maioria de parlamentares.

Apesar disso, não parece que o discurso nacionalista, anti-imigração e anti-integração global (ou, no caso da UE, continental) vá desaparecer. Ele segue forte e, se seus adversários não conseguirem entregar resultados e narrativas mais persuasivas, crescente. Marine Le Pen declarou que sua vitória foi “apenas postergada”. Está nas mãos de Macron e da coalizão entre esquerda e centro enterrar ou cumprir essa profecia.

COALIZÃO DEMOCRÁTICA – Macron, que depois do primeiro turno parecia o grande derrotado, emerge agora não como o vencedor triunfante, mas como um líder que ao menos conseguiu se manter. A frente partidária vencedora —a Nova Frente Popular, de esquerda— não tem maioria para indicar um primeiro-ministro sozinha. Terá que negociar com os centristas, formar coalizão, algo tão normal para nós. Assim, o próximo primeiro-ministro será alguém de esquerda, mas não um radical.

Isso, mais a realidade das regras fiscais da UE e dos movimentos do mercado, deve proteger o país do terraplanismo econômico de um Mélenchon, líder do França Insubmissa, partido mais radical da NFP. Um parlamento fragmentado, que ao menos depende dos centristas é melhor para o presidente do que um no qual direita ou esquerda pudessem governar sozinhas.

DOIS ELEMENTOS – Analisando essa vitória de esquerdistas e centristas, dois elementos saltam aos olhos. O primeiro é a importância das regras eleitorais. A eleição em dois turnos incentiva a moderação e a formação de alianças. Vimos isso no Brasil em 2022: Lula ganhou por um fio, graças à aliança com Simone Tebet e com a pequena parcela de eleitores liberais da “terceira via”.

A diferença é que a aliança na França cobrava um preço mais alto: diversos candidatos tiveram que abrir mão de suas candidaturas. E assim chegamos ao segundo elemento: uma disposição inédita, tanto de centristas quanto de esquerdistas, de colocarem suas diferenças de lado para juntos combaterem a direita nacionalista. Esse tipo de abnegação virtuosa não se vê todo dia. A estratégia deu certo.

Do outro lado do Canal da Mancha, em 4 de julho, a esquerda também teve uma vitória avassaladora. O Partido Conservador caiu de podre depois de 14 anos no poder. Nesse meio tempo, os trabalhistas expulsaram sua ala mais radical e deram uma guinada ao centro.

ERRAR E CORRIGIR – A ala do Partido Conservador que defendia o brexit teve sua chance. Depois de todas as promessas, chegou o momento de entregar a melhora na qualidade de vida, que não veio, e a população se cansou. Democracia é também a possibilidade de errar, aprender e corrigir os erros.

Regras do jogo racionais —que estimulam a moderação— e respeitadas e disposição de fazer política para construir frentes amplas deram conta do desafio de hoje. Mas ele continua posto no amanhã. E, aí, não haverá mera estratégia eleitoral que dê conta. Será preciso mostrar à sociedade que a direita nacionalista não tem respostas para os problemas que ela própria foi pioneira em apontar.

E isso passa por reconhecer esses problemas —os custos da imigração e da integração regional—, implementar soluções concretas e traçar uma narrativa que vença o pessimismo reacionário. Na falta disso, chegará uma hora em que essa direita também terá sua chance no poder. Democracia tem dessas.