Nobel de Medicina: “Os tratamentos contra o câncer eram como tentar consertar uma televisão com um martelo”

Oncologista William Kaelin, vencedor do prêmio em 2019, acredita que descobertas nos próximos 10 anos mudarão completamente a luta contra a doença

O médico norte-americano William Kaelin, fotografado em Estocolmo em dezembro de 2019.
O médico norte-americano William Kaelin, fotografado em Estocolmo em dezembro de 2019.ALEXANDER MAHMOUD
Manuel Ansede Por MANUEL ANSEDE – EL PAÍS

O médico William Kaelin não queria vencer o Nobel de Medicina. Sua esposa, a renomada oncologista Carolyn Scerbo, vaticinou que ele acabaria sendo premiado. Juntos se divertiam pensando em como o prêmio sueco, que transforma os vencedores em semideuses no imaginário coletivo, mudaria suas vidas. Em 2015, ela morreu por um câncer cerebral letal aos 54 anos. Kaelin, sem sua “melhor amiga, alma gêmea e companheira de vida”, desejou um ano após o outro não receber a ligação de Estocolmo. Já não queria ganhá-lo, mas estava em todas as apostas. O médico, um nova-iorquino de 63 anos, ajudou a descobrir o mecanismo pelo qual as células detectam o oxigênio disponível e se adaptam a ele, uma descoberta que abriu as portas a novos tratamentos contra seu grande inimigo, o câncer, e também contra a anemia. Em 7 de outubro de 2019, seu telefone tocou em plena noite. Acabava de vencer o Nobel de Medicina.

Kaelin, da Escola de Medicina de Harvard, responde às perguntas do EL PAÍS de sua casa em Boston, antes de participar por videoconferência de uma reunião com jovens cientistas no Instituto de Saúde Global de Barcelona, dentro da Iniciativa Inspiração Prêmio Nobel, apoiada pela Fundação AstraZeneca. “Espero que descubramos algo nos próximos 10 anos que mude completamente a luta contra o câncer”, afirma Kaelin. Ele está na primeira linha para consegui-lo.

Pergunta. Um de seus professores na universidade disse que o senhor não teria futuro na ciência.

Resposta. Sim, já faleceu. Estive no laboratório errado, com o professor errado e com o projeto errado. Mas eu era um garoto de quase 20 anos e acreditei na crítica. Somente após, mais tarde, falar com outros cientistas percebi que talvez o problema não fosse eu.

P. Quando era jovem, o senhor pensava que a biologia era “terrivelmente chata “.

R. Sim, não sou o único. Li as biografias de muitos biólogos de minha geração e muitos deles, como eu, pensavam que a biologia era muito chata, porque era muito descritiva, como colecionar selos. Nas décadas de 1960 e 1970 era preciso memorizar inúmeros nomes de plantas e animais, mas nos faltavam ferramentas para realizar experimentos explicativos. Quando se está no colégio, o mais importante que se pode aprender é a pensar com clareza, de maneira lógica e rigorosa. Se você aprende estudando biologia, maravilha, mas também pode consegui-lo em outras disciplinas. Você pode se reinventar várias vezes pelo caminho, mas precisa aprender a pensar.

P. O senhor nasceu em 1957, o ano do lançamento do satélite soviético Sputnik, e chegou a ir aos desfiles de boas-vindas aos astronautas norte-americanos que chegaram à Lua em 1969. Acha que as crianças de hoje têm heróis científicos suficientes?

R. Quando Barack Obama era presidente, disse que precisávamos de outro momento Sputnik. E soube perfeitamente o que ele queria dizer: esse momento em que a imaginação das pessoas se expande e novas oportunidades aparecem. Eu me beneficiei do interesse na ciência e na engenharia nos anos sessenta, impulsionado pela corrida espacial e pela Guerra Fria. Acho que, pelo menos nos EUA, e temo que em outras partes do mundo, os políticos às vezes perturbam o funcionamento da ciência e questionam as motivações dos cientistas se não gostarem das conclusões. Aí está, por exemplo, a mudança climática. Há pessoas que, por interesses políticos e econômicos, colocam em dúvida as motivações dos cientistas. Isso me preocupa, porque confunde os jovens.

P. Quando sua esposa morreu por um câncer cerebral, o senhor pediu aos que iriam ao funeral que não levassem flores, e sim que fizessem doações à pesquisa do câncer. É preciso mais dinheiro?

R. Ter mais dinheiro e recursos só ajuda. Quanto mais se investir em ciência, mais conhecimento se gera e o tratamento das doenças progride. Mas não é só uma questão de dinheiro, todo o ecossistema é importante: é preciso apoiar a ciência e ter um sistema educacional poderoso. Cumprindo essas condições, quanto mais recursos, melhor. Às vezes não financiamos a ciência o suficiente.

P. Agora que compreendemos melhor os sensores de oxigênio nas células, o que ocorrerá? Quais fármacos podemos ter a curto prazo?

R. Já temos novos remédios que, ao tomá-los, enganam o corpo para que pense que não está recebendo oxigênio suficiente e responda, por exemplo, formando mais glóbulos vermelhos. Um desses remédios, o roxadustat, em que eu estive envolvido, foi recentemente autorizado na Europa como tratamento contra a anemia. Agora sabemos que o câncer frequentemente sequestra o sistema, controlando os sensores de oxigênio, para enganar o corpo e abastecer o tumor de sangue. Há novos fármacos, como os chamados inibidores de HIF-2, que são muito promissores em certos tipos de câncer. O primeiro desses remédios foi aprovado em agosto para o tratamento da doença de Von Hippel-Lindau, uma doença rara que causa câncer, mas ficarei muito surpreso se não forem aprovados também para outros tumores, incluindo o de rim.

P. Em seu discurso do Nobel o senhor afirmou que, na verdade, suas descobertas começam com um estudo do médico britânico Edward Treacher Collins de 1894 [sobre o estranho crescimento de vasos sanguíneos nos olhos de dois irmãos]. A ciência às vezes é muito lenta. Como se pode ir mais rápido?

R. Houve um ponto de inflexão no ano 2000, com a publicação do primeiro rascunho do genoma humano. Algum dia olharemos para trás e diremos que aquilo foi o Big Bang, porque está acelerando radicalmente o progresso nas ciências biomédicas. Estamos em uma época dourada. Não é por acaso que tenha levado tanto tempo para decifrar o que Treacher Collins havia descrito. É que, simplesmente, não tínhamos as ferramentas. Agora tudo anda muito mais rápido.

P. Como era o tratamento de câncer nos anos oitenta?

R. Era baseado principalmente em remédios descobertos por sua capacidade de matar e inibir as células cancerosas em placas de laboratório. Mas não havia um conhecimento real dos segredos moleculares desses tumores. Não sabíamos quais genes eram alterados. Era como tentar consertar uma televisão com um martelo. Agora podemos desenvolver fármacos realmente dirigidos a esses mecanismos moleculares, em vez de depender de medicamentos que matam indiscriminadamente células cancerosas e células normais.

P. Talvez em um futuro próximo, em 10 ou 20 anos, analisaremos a etapa atual e pensaremos que também estávamos consertando a televisão com um martelo.

R. Acho que as coisas mudaram no ano 2000. Correndo o risco de usar outra analogia, acho que estamos tentando consertar um carro e no ano 2000 pelo menos fomos capazes pela primeira vez de abrir o capô e ver o motor. Esse foi o ponto de inflexão.

P. Como o senhor imagina a luta contra o câncer em 10 ou 20 anos?

R. Há uma grande diferença entre a ciência e a engenharia. Quando [o presidente norte-americano John Fitzgerald] Kennedy disse que iríamos colocar um homem na Lua em uma década, foi porque mandar um homem à Lua era principalmente um problema de engenharia. Os princípios científicos necessários já eram conhecidos em 1960, de modo que se podia calcular de maneira fundamentada que em 10 anos seria possível. Em ciência há uma imprevisibilidade muito maior. De repente, aprendemos algo que muda completamente o modo de pensar e aparecem oportunidades que sequer podíamos imaginar. Eu sempre sou um pouco cauteloso em prever como será o tratamento do câncer em uma década, porque me decepcionaria se todas minhas previsões estiverem corretas. Espero que descubramos algo nos próximos 10 anos que mude completamente a luta contra o câncer. Dito isso, precisamos avançar a essa medicina de precisão, em vez das velhas quimioterapias que eram muito rudimentares. Muitos remédios de precisão são utilizados atualmente como único tratamento, mas precisamos combiná-los, porque sabemos que esse é o caminho para curar o câncer e para evitar que apareçam resistências. Um fármaco pode matar as células cancerosas, enquanto outro ativa o sistema imunológico para que seja mais eficiente contra o câncer. Também posso imaginar novas maneiras de corrigir genes defeituosos envolvidos no câncer. Em 10 ou 20 anos podemos ver novos enfoques que agora sequer imaginamos.

CEO do Twitter zomba do conceito ‘metaverso’ do Facebook

Imagem de: CEO do Twitter zomba do conceito 'metaverso' do Facebook
Imagem: dole777/Unsplash/Reprodução

Lupa Charleaux

Jack Dorsey, CEO do Twitter, parece não gostar do conceito de “metaverso” que está sendo promovido pelo Facebook. Atualmente, a rede rival planeja uma “nova versão da internet” em que as pessoas usam dispositivos VR para acessar um espaço virtual.

Aparentemente, o executivo considera a proposta como algo distópico. Para isso, Dorsey se apoiou no tweet de um usuário da sua plataforma para expressar a opinião.

O usuário em questão apontou possíveis semelhanças entre as ambições de Mark Zuckerberg e o metaverso do Facebook com um trecho do livro Snow Crash (1992). Uma passagem da obra de ficção científica de Neal Stephenson diz:

“[Metaverso] é originalmente descrito como um mundo virtual pertencente a empresas onde os usuários eram tratados como cidadãos em uma ditadura corporativa distópica”.

Por fim, o usuário encerrou o tweet perguntando se o escritor norte-americano estava correto sobre o assunto. Então, Dorsey respondeu à mensagem de forma sarcástica: “Narrador: Ele estava”.

Jack Dorsey, CEO do Twitter (à esquerda), e Mark Zuckerberg, CEO do Facebook (à direita).Jack Dorsey, CEO do Twitter (à esquerda), e Mark Zuckerberg, CEO do Facebook (à direita).Fonte:  Joe Raedle/Getty Images/AP Photo/Mark Lennihan/Reprodução 

O Metaverso do Facebook

Em julho deste ano, Mark Zuckerberg revelou o desejo de transformar o Facebook em uma “companhia metaversa”. Comprometida com essa ideia, a big tech lançou um fundo de US$ 50 milhões para o desenvolvimento do novo produto.

Dispensando os computadores e navegadores, os espaços virtuais deverão ser acessados por dispositivos de realidade virtual. Dessa maneira, os usuários deverão explorar uma grande sala virtual interativa com outras pessoas de diferentes localidades.

Nesta semana, o Facebook anunciou que planeja contratar 10 mil pessoas nos próximos cinco anos para ajudar na construção do metaverso. Além disso, a empresa está considerando mudar o próprio nome para focar essencialmente nas “ambições metaversas”.

O que é metaverso, a nova aposta das gigantes de tecnologia

Mulher usar headset de realidade virtual brilhante

CRÉDITO,GETTY IMAGES

Pra quem olha de fora, metaverso pode parecer versão repaginada da realidade virtual que conhecemos

No fim do último mês de setembro, o Facebook anunciou investimento de US$ 50 milhões para construir seu próprio metaverso.

Meses antes havia sido a Epic Games, empresa de jogos eletrônicos por trás do Fortnite, que virou febre mundial. A companhia fundada por Tim Sweeney levantou US$ 1 bilhão em uma rodada de investimentos em abril para financiar “sua visão de longo prazo para o metaverso”.

Mas do que se trata a novidade, apontada por especialistas como a nova aposta das gigantes de tecnologia?

De longe, o metaverso pode parecer uma versão repaginada da tecnologia de realidade virtual. Alguns especialistas argumentam, contudo, que ele se desenha como o futuro da internet. Para efeito de comparação, esse novo universo digital seria para a realidade virtual o que os smartphones modernos representaram para os celulares “tijolões” dos anos 1980.

Isso porque, em vez de se restringir ao computador, o metaverso permitiria que o usuário entrasse em um universo virtual mais amplo, conectado com todo tipo de ambiente digital.

Ao contrário da realidade virtual hoje, usada majoritariamente no mundo dos games, poderia ser aplicado em outras áreas – no mundo do trabalho, para a realização de shows, exibição de filmes ou simplesmente como um espaço para relaxar.

Como o conceito ainda está no campo das ideias, contudo, não existe uma definição exata do que é um metaverso. Na visão de alguns, por exemplo, cada usuário teria nesse “mundo paralelo” um avatar em 3D, uma representação de si mesmo.

Por que agora?

Novos modismos tecnológicos ligados à realidade virtual têm surgido a cada poucos anos, para desaparecerem algum tempo depois.

No caso do metaverso, contudo, há um enorme entusiasmo entre grandes investidores e empresas de tecnologia, e ninguém quer ficar para trás se esse de fato se mostrar como o futuro da internet.

Como pano de fundo, existe ainda a visão de que, finalmente, a tecnologia e a conectividade avançaram o suficiente para levar a realidade virtual a um outro patamar.

O interesse do Facebook

Construir um metaverso é hoje uma das prioridades do Facebook.

A companhia tem investido pesadamente no segmento de realidade virtual. Há alguns anos, lançou seu próprio headset, batizado de Oculus, vendido hoje a um preço menor do que o cobrado pela maioria dos rivais – em algumas situações, abrindo mão inclusive do lucro, conforme a avaliação de alguns analistas.

Também tem desenvolvido aplicativos de realidade virtual para plataformas de comunicação, os chamados social hangouts, e de trabalho, alguns com interação inclusive com o mundo real.

Mulher usa headset Oculus Quest 2 com controle na mão

CRÉDITO,OCULUS

Legenda da foto,O Oculus Quest 2 é um dos modelos mais recentes de headsets de RV do Facebook

Apesar do longo histórico de aquisição de concorrentes, o Facebook já declarou que o metaverso “não será construído da noite para o dia por uma única empresa” e afirmou desejar colaborar nesse sentido.

Parte do investimento de US$ 50 milhões será usado, segundo a empresa, para financiar grupos sem fins lucrativos que ajudarão a “construir o metaverso com responsabilidade”.

Para a companhia, contudo, o mundo ainda precisa de outros 10 ou 15 anos para que a ideia comece a tomar forma de maneira mais concreta.

A ‘experiência musical’ do Fortnite

Tim Sweeney, CEO da Epic Games, há muito fala sobre seus planos envolvendo o metaverso.

Os universos interativos fazem parte do mundo dos games faz décadas. Eles não são exatamente metaversos, mas têm alguns paralelos.

Nos últimos anos, o Fortnite, por exemplo, expandiu seu leque de produtos, realizando shows e eventos de marcas e dentro de seu mundo digital. Em agosto deste ano, a cantora americana Ariana Grande fez uma série de shows dentro do jogo, uma “experiência musical”, assistida por milhões de pessoas.

Os novos caminhos abertos pelo Fortnite impressionaram muita gente – e acabaram colocando a visão de Sweeney do metaverso em destaque.

Outros jogos também têm flertado com o conceito de metaverso. O Roblox, por exemplo, reúne em uma plataforma milhares de jogos conectados ao ecossistema maior, em que os jogadores podem criar experiências diferentes.

Nesse sentido, há ainda a plataforma Unity, para desenvolvimento de aplicativos em 2D e 3D, e que hoje está investindo no que chama de “gêmeos digitais” (cópias do mundo real), e a multinacional Nvidia, que está construindo seu “omniverse”, uma plataforma para conectar mundos virtuais 3D.

Avatares em reunião no Facebook Workplace

CRÉDITO,REUTERS

Legenda da foto,O ‘Workplace’ do Facebook vislumbra reuniões em RV em que os usuários também possam usar seus computadores no mundo real ao mesmo tempo

Além do mundo dos games

Embora existam muitas ideias diferentes sobre o que o metaverso pode ser, a maioria das visões coloca a interação social como núcleo.

O Facebook, por exemplo, tem experimentado um aplicativo de reuniões de realidade virtual chamado “Workplace” e um espaço social batizado de “Horizons”. Em ambos são usados sistemas de avatar virtual.

Outro aplicativo, o VRChat, não foi pensado em torno de uma atividade específica, mas como um local em que as pessoas possam curtir, conversar e conhecer gente nova.

E parece não haver limites para a criatividade. Em entrevista recente ao Washington Post, Sweeney, da Epic Games, disse imaginar um mundo em que uma fabricante de automóveis que queira fazer propaganda de um novo modelo possa disponibilizá-lo na plataforma para que as pessoas consigam dirigi-lo.

Essa mesma ideia poderia ser levada à indústria da moda: pode ser que as pessoas passem a experimentar roupas digitais enquanto compram online.

Um longo caminho

A realidade virtual percorreu um longo caminho nos últimos anos. Os headsets de última geração, por exemplo, criam a ilusão de que nossos olhos estão enxergando imagens em 3D enquanto o jogador se move em um mundo virtual.

A tecnologia também tem se tornado mais popular – o Oculus Quest 2, por exemplo, headset de RV do Facebook, fez sucesso no Natal de 2020 em alguns países.

A explosão de interesse em NFTs (“token não fungíveis”, em tradução livre), por sua vez, pode apontar um caminho sobre o futuro do funcionamento de uma eventual economia virtual. Esses tokens criptográficos permitem a criação de um certificado digital de propriedade que pode ser uma maneira eficiente de rastrear de forma confiável a propriedade de bens digitais.

Mundos digitais mais avançados também precisarão de uma conectividade melhor, mais consistente e mais móvel – algo que pode ser resolvido com a disseminação do 5G.

Por enquanto, porém, tudo está nos estágios iniciais. A evolução do metaverso – se ele vier a se desenvolver de fato – vai ser disputada entre as gigantes da tecnologia no decorrer da próxima década ou por até mais tempo.

MÚSICA – NO MORE TROUBLES – SHARIF DEAN

MÚSICA

NO MORE TROUBLES – SHARIF DEAN

LITERATURA – Os Domingos – Paulo Mendes Campos

os-domingos---paulo-mendes-campos

“Todas as funções da alma estão perfeitas neste domingo.
O tempo inunda a sala, os quadros, a fruteira.
Não há um crédito desmedido de esperança
Nem a verdade dos supremos desconsolos –
Simplesmente a tarde transparente,
Os vidros fáceis das horas preguiçosas,
Adolescência das cores, preciosas andorinhas.

Na tarde – lembro – uma árvore parada,
A alma caminhava para os montes,
Onde o verde das distâncias invencidas
Inventava o mistério de morrer pela beleza.
Domingo – lembro – era o instante das pausas,
O pouso dos tristes, o porto do insofrido.
Na tarde, uma valsa; na ponte, um trem de carga;
No mar, a desilusão dos que longe se buscaram;
No declive da encosta, onde a vista não vai,
Os laranjais de infindáveis doçuras geométricas;
Na alma, os azuis dos que se afastam,
O cristal intocado, a rosa que destoa.
Dos meus domingos sempre fiz um claustro.
As pétalas caíam no dorso das campinas,
A noite aclarava os sofrimentos,
As crianças nasciam, os mortos se esqueciam mortos,
Os ásperos se calavam, os suicidas se matavam.
Eu, prisioneiro, lia poemas nos parques,
Procurando palavras que espelhassem os domingos.
E uma esperança que não tenho.”

Paulo Mendes Campos (Belo Horizonte, 28 de fevereiro de 1922 – Rio de Janeiro, 1 de julho de 1991) – Além de poeta, foi cronista, jornalista e tradutor. Publicou em poesia: ‘A Palavra Escrita’, ‘Testamento do Brasil’ e ‘O Domingo Azul do Mar’. Destacou-se nas crônicas, que, ao lado de Rubem Braga, Fernando Sabino e outros, mudaram a maneira de fazer crônicas no Brasil. Diversos livros com reuniões de suas crônicas como ‘O Cego de Ipanema’, ‘Os bares morrem numa quarta feira’, foram republicados.

Candidatos da terceira via podem brigar entre si, para alegria de Lula e Bolsonaro

Charge do Galvão – Construindo a terceira via

Charge do Galvão (Upiara Online)

Vicente Limongi Netto

Os autos falantes da terceira via informam, sob demorado foguetório, que agora são 11 os pré-candidatos à Presidência da República. Um time completo de arautos patriotas decididos a tirar o Brasil do atoleiro. A democracia saúda a colossal festança eleitoral.

No entanto, essa quantidade de laboriosos homens públicos não tira o sono da cansativa polarização entre Bolsonaro e Lula, cantada em prosa e verso pelo noticiário político. Pelo contrário, quanto mais fogosos políticos apareçam na rinha, um se achando melhor qualificado do que os outros, mais Bolsonaro e Lula são levados para perto do paraíso.

MORO ESTÁ CHEGANDO – O constante movimento das nuvens políticas, que Magalhães Pinto gostava de citar, indica que Sérgio Moro virá enriquecer o balaio da terceira via. Assim, até meados de 2022, Bolsonaro e Lula vão acompanhar de camarote os arranca-rabos entre os demais adversários.

Chutes na virilha soarão como carinhos. Enquanto o bom senso não for morar, de água e cuia, na cachola dos luminares da terceira via, consagrando apenas um nome para enfrentar Bolsonaro e Lula, tudo continuará como antes no quartel de Abrantes. É o scrip cortante do jogo que venho martelando, aqui na Tribuna da Internet, há meses.

PRÉVIAS PSDB – Enquanto isso, o candidato às prévias do PSDB, ex-prefeito de Manaus e ex-senador, Arthur Virgílio Neto encerrou sexta-feira o seu primeiro giro pelo Brasil em campanha pelas prévias do PSDB, que vão indicar, em novembro, o nome que deverá disputar a presidência do país.

Arthur Virgilio já percorreu estados das regiões Sudeste, Sul e Centro-Oeste e, em todos os seus encontros com lideranças e militâncias tucanas, fez ardorosa defesa da Amazônia e do uso sustentável de seus recursos naturais e lançou a campanha “Salve a Amazônia! Riqueza de todos os brasileiros”, chamando a atenção para os riscos de destruição da floresta, seus efeitos ambientais e políticos e, também, das inumeráveis oportunidades econômicas a partir da biodiversidade, capazes de transformar o Brasil em uma verdadeira potência econômica.

COMPRAR A IDEIA – “São muitas as razões para comprarmos essa ideia, empunhar essa bandeira e nos mobilizarmos em torno dessa campanha. A Amazônia é nossa e devemos cuidar, defender, para poder usufruir. É a última fronteira de desenvolvimento para o país, é o nosso cartão de boa conduta junto às comunidades internacionais, é a nossa possibilidade de legar um planeta habitável para a humanidade”, afirmou Arthur. Ele disse também que está feliz com a aceitação que vem obtendo.

“Estou feliz com a aceitação. Quando falo isso para as pessoas, elas vibram, ficam em êxtase. Essa campanha já pegou, vai dar certo”, garantiu.

Há um perigo de pagar indenizações que agora ronda os senadores da CPI da Pandemia

Por Jorge Béja

A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Senado, instaurada para apurar responsabilidades no combate à pandemia, parece ter chegado perto do fim. Falta a aprovação do relatório. Até agora, pelo noticiado, mais de sessenta pessoas, entre agentes públicos ou não, e até mesmo pessoas jurídicas, estão relacionados como indiciados.

A CPI a todos acusou da prática de variados crimes. Tenha o curso que tiver após o encerramento da CPI, os senadores que venham aprovar o relatório passam a ter uma responsabilidade civil enorme, caso as acusações – e nem precisam ser todas, bastando apenas uma – não sejam acolhidas pela Justiça, seja qual for o motivo do desacolhimento. 

IMUNIDADES RELATIVAS – Eles, os senadores, não são soberanos. Menos ainda donos da verdade. Suas imunidades não são tão amplas e abrangentes como se pensa. A responsabilidade civil, ou seja, o dever de indenizar eventuais danos causados, mesmo no exercício da função que lhes acometia, não tem a proteção da imunidade.

Neste particular, fiquemos com a doutrina do eminente César Dario Mariano da Silva, ao escrever sobre “Os Limites das Imunidades Parlamentares” (Consultor Jurídico, publicação de 4.3.2021):

“Com o devido respeito, não podemos concordar com esse posicionamento, porque a imunidade não pode servir de manto protetor para ofensas pessoais sem relação com as funções parlamentares. Ela visa, sim, a resguardar o livre exercício do mandato e a própria democracia”.

SESSÕES INQUISITORIAIS – Portanto, cuidado, senhores senadores. A CPI, com suas sessões inquisitoriais, expôs a público dezenas e dezenas de pessoas.

Quem sentou naquela cadeira como investigado, ou como testemunha que depois virou investigado…, quem foi inquirido, teve seu nome incluído no relatório e a sua imagem exposta, a sua honra maculada e suas atividades devassadas…. e quem deles, ao final, não venha ser denunciado pela promotoria pública, ou se denunciado for, venha ser declarado inocente pela Justiça, poderá ingressar com ação reparatória de danos morais. E até mesmo cumulada com danos patrimoniais, caso venha comprovar o nexo causal entre o prejuízo financeiro com a inclusão de sua pessoa na CPI da Pandemia.

RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA – E a ação reparatória de danos poderá ser dirigida contra a totalidade dos senadores que venham aprovar o relatório. Ou contra alguns deles. Ou apenas um deles. E até mesmo contra a União. É a chamada Responsabilidade Civil Solidária, que faculta ao ofendido fazer a escolha de contra quem dirigir a demanda.

E considerando a gravidade da imputação que a CPI fez e a Justiça venha desfazer, bem como a divulgação e exposição pública da pessoa, o valor do dano moral – que sempre fica ao poder da Justiça arbitrar – não será de pequeno porte financeiro. Mas de altíssimo valor.

Tudo isso constitui os pilares da Responsabilidade Civil da Administração Pública prevista na Constituição Federal e legislação ordinária. Nem se diga que a exposição até aqui feita é mera teoria, mera narrativa ou tese. Não. Há precedentes jurisprudenciais.

CASO DE UM JORNALISTA – Aqui e agora, apenas um. Conhecido jornalista foi incluído no relatório final de CPI, apontado como corrupto. Desviava verbas públicas, dizia o relatório. Indignado com a acusação que foi recusada pela Justiça, o jornalista abriu processo indenizatório. Venceu e levou. Vamos ao que diz a Ementa (resumo do julgamento) da 3ª Turma do Tribunal Regional Federal da 1ª Região:

A circunstância de as Comissões Parlamentares de Inquérito terem poderes de investigação próprios das autoridades judiciais não significa que estão isentas de qualquer responsabilidade, pois o dever de reparar o dano moral surge sempre que exista malferimento de direitos subjetivos, como na hipótese em que jornalista renomado é apontado indevidamente em relatório final da CPI como integrante de esquema de corrupção, consistente no desvio de verbas públicas federais (TRF 1ª R. – 3ª Turma, Apelação nº 199998.01.00.020802-7 – Relator Cândido Ribeiro – julgado em 30.6.1998, DJU de 08.8.2001, Revista dos Tribunais nº 798/405)

“Metade de mim é a lembrança do que fui, e a outra metade, não sei”, canta Oswaldo Montenegro

Quando eu não estiver por perto canta... Oswaldo Montenegro - Pensador
O cantor e compositor carioca Oswaldo Viveiros Montenegro inspirou-se no poema “Traduzir-se”, de Ferreira Gullar, que traduz nossa dualidade na existência, ou seja, somente somos completos no amor. “Metade” foi gravado por Oswaldo Montenegro no CD Ao Vivo – 25 Anos, em 2004, pela Warner.
METADE
Oswaldo Montenegro
Que a força do medo que tenho
não me impeça de ver o que anseio
que a morte de tudo em que acredito
não me tape os ouvidos e a boca
porque metade de mim é o que eu grito
mas a outra metade é silêncio.
Que a música que ouço ao longe
seja linda ainda que tristeza
que a mulher que amo seja pra sempre amada
mesmo que distante
porque metade de mim é partida
mas a outra metade é saudade.
Que as palavras que eu falo
não sejam ouvidas como prece e nem repetidas com fervor
apenas respeitadas como a única coisa
que resta a um homem inundado de sentimentos
porque metade de mim é o que ouço
mas a outra metade é o que calo.
Que essa minha vontade de ir embora
se transforme na calma e na paz que eu mereço
e que essa tensão que me corrói por dentro
seja um dia recompensada
porque metade de mim é o que penso
mas a outra metade é um vulcão.
Que o medo da solidão se afaste
e que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável
que o espelho reflita em meu rosto num doce sorriso
que eu me lembro ter dado na infância
porque metade de mim é a lembrança do que fui
a outra metade não sei.
Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
pra me fazer aquietar o espírito
e que o teu silêncio me fale cada vez mais
porque metade de mim é abrigo
mas a outra metade é cansaço.
Que a arte nos aponte uma resposta
mesmo que ela não saiba
e que ninguém a tente complicar
porque é preciso simplicidade pra fazê-la florescer
porque metade de mim é platéia
e a outra metade é canção.
E que a minha loucura seja perdoada
porque metade de mim é amor
e a outra metade também.

Gabinete do ódio tem nova missão do Planalto: detonar a terceira via o mais rápido possível

Charge de Humberto: Gabinete do ódio

Se não destruir a terceira via, Jair Bolsonaro será derrotado

Vicente Nunes
Correio Braziliense

O gabinete do ódio, comandado pelo vereador Carlos Bolsonaro, já recebeu sua próxima missão: detonar o mais rápido possível a terceira via, vista como principal ameaça para a reeleição do presidente Jair Bolsonaro em 2022.

A pressa tomou conta, diante da decisão do presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, de deixar o DEM para se filiar ao PSD, pelo qual deve ser candidato à Presidência da República. Ainda que seja totalmente desconhecido do grosso da população, pode ganhar embalo quando a campanha começar.

COM FAKE NEWS – Carlos Bolsonaro está montando toda a estratégia para tentar desconstruir, com fake news, os possíveis candidatos da terceira via que tendem tirar votos do pai e ainda agregar a direita que abandonou Bolsonaro, decepcionada com os rumos que o governo tomou, sobretudo ao jogar para o alto a bandeira do combate à corrupção.

Neste primeiro momento, o foco principal da empreitada de Carlos Bolsonaro é o ex-juiz Sérgio Moro. Ele é visto como um “tirador” de votos de Bolsonaro, pois ainda tem forte representatividade na direita conservadora. Várias ações contra ele estão a caminho.

Para Bolsonaro, o que importa é que ele e Lula levem a disputa para o segundo turno. O presidente tem a certeza de que, com o petista, ele conseguirá ressuscitar “o maior partido de 2018”, o antipetismo, que foi fundamental para levar o capitão ao Palácio do Planalto.

‘Crianças comiam em cochos’: os últimos relatos em vida de americanos escravizados

 

Pauline Johnson e Felice Boudreaux

CRÉDITO,BIBLIOTECA DO CONGRESSO AMERICANO

Legenda da foto,Após crise de 1929, governo dos EUA pagou escritores desempregados para entrevistar os últimos negros que haviam passado pela escravidão. Brasil não tem memória semelhante.

  • Thais Carrança
  • Da BBC News Brasil em São Paulo

“Meu Deus, minha senhora, nunca ninguém lhe contou que era contra a lei ensinar um negro a ler e a escrever nos tempos da escravidão? Os brancos lhe cortavam a mão fora por essas mais do que por quase qualquer outra coisa.”

“Isso é só jeito de dizer, cortar a mão fora. Ora, senhora, um negro sem mão não ia ter como trabalhar muito, e o dono não ia conseguir vendê-lo por um preço nem parecido com o que ganharia por um escravo com mãos boas. Eles só espancavam ele a valer quando o pegava estudando como se faz para ler e escrever.”

O relato é de William McWhorter, homem negro americano que viveu a experiência da escravidão no Estado sulista da Geórgia. As memórias dele foram colhidas em 1938, quando tinha 78 anos, pelo Projeto Federal de Escritores (Federal Writers’ Project).

Esse projeto foi criado durante a presidência de Franklin D. Roosevelt (1933-1945), como parte de uma série de iniciativas de sua administração para tentar reviver a economia americana após a Grande Depressão, iniciada em 1929. Nesta ação, escritores profissionais e aspirantes foram contratados pelo governo dos Estados Unidos para entrevistar ex-escravizados idosos.

Entre 1936 e 1938, esses entrevistadores percorreram 17 Estados ouvindo homens e mulheres já próximos da morte e que, em sua maioria, haviam vivido a escravidão quando crianças. As conversas resultaram em mais de 2 mil narrativas datilografadas, enviadas para Washington.

Esse material só viria a ser publicado na década de 1970, quando o fortalecimento do Movimentos dos Direitos Civis — que lutava pela igualdade para a comunidade negra nos Estados Unidos — trouxe um anseio por entender melhor o passado racista do país.

Atualmente, o material está todo disponível no site da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos. No Brasil, uma seleção desses relatos foi publicada no ano passado, no livro Nascidos na escravidão: Depoimentos norte-americanos, lançado pela editora Hedra.

Manuscrito datilografado pelo Projeto Federal dos Escritores

CRÉDITO,BIBLIOTECA DO CONGRESSO AMERICANO

Legenda da foto,Entre 1936 e 1938, entrevistadores percorreram 17 Estados americanos ouvindo homens e mulheres que, em sua maioria, haviam vivido a escravidão quando crianças. Conversas resultaram em mais de 2 mil narrativas datilografadas

Mudando o quadro pintado pelos senhores

“Até a metade do século 20, os historiadores americanos entendiam o cativeiro como uma ‘escola da civilização’, uma instituição que elevava o negro da vida supostamente bárbara na África, para uma vida civilizada nos Estados Unidos. Nesse sentido, eles entendiam que o cativeiro era resignadamente aceito pelos cativos”, diz Tâmis Parron, organizador da edição brasileira e professor do Instituto de História da Universidade Federal Fluminense (UFF).

O historiador, especialista em escravidão, geopolítica e economia do século 19, conta que as narrativas colhidas pelo Projeto Federal de Escritores ajudaram a mudar essa visão.

“Com os depoimentos dos escravizados diante dos olhos, os historiadores revisaram esse quadro róseo da vida escrava, pintado com o pincel dos senhores”, afirma.

“De um lado, os historiadores passaram a ter relatos em primeira mão das práticas de tortura na plantation, do que a escravidão tinha de pior e de mais desumanizador”, diz Parron — plantation era o sistema agrícola baseado na monocultura de exportação, latifúndio e mão de obra escrava.

“Do outro lado, eles começaram a entender as estratégias pelas quais os escravos, mesmo numa posição subordinada, lutavam por manter sua dignidade na família, nas práticas culturais e religiosas e na resistência.”

O pesquisador lembra que o recolhimento de relatos em primeira pessoa de escravizados tem uma origem mais antiga nos Estados Unidos. A prática foi uma estratégia editorial do ativismo abolicionista americano, como forma de desmentir a ideia de que os escravos eram felizes no cativeiro.

Para Parron, a ausência dessa tradição talvez explique por que, no Brasil, não foram colhidos relatos dos um dia escravizados quando essas pessoas ainda estavam vivas para contar suas histórias.

“O abolicionismo brasileiro não sentiu a necessidade de colher esses relatos porque, sendo o Brasil uma nação escravista de Norte a Sul [diferentemente dos Estados Unidos, onde a escravidão estava concentrada no Sul e o movimento abolicionista no Norte do país], todo mundo tinha contato direto com a escravidão”, avalia o pesquisador.

“Por aqui, a publicação da voz do escravizado não produzia o mesmo efeito de escândalo que produzia numa sociedade sem escravidão [como o Norte dos Estados Unidos]”, afirma.

“Então não encontramos um recolhimento em massa de depoimentos dos escravizados. Encontramos suas vozes aqui e acolá, em cartas de ex-escravizados. E temos, por exemplo, o relato do [africano escravizado no Brasil Mahommah] Baquaqua, que conseguiu se livrar da escravidão e foi parar nos Estados Unidos. Por isso temos o relato dele.”

Para o professor da UFF, a ausência desses relatos no Brasil tem consequências até hoje.

“Essas escolhas vão se acumulando no tempo e acabam produzindo uma naturalização das desigualdades socio-raciais”, diz Parron. “Cada vez que uma voz dessas é silenciada, há uma despolitização da raça como um fator de construção da desigualdade humana.”

Confira uma seleção de alguns dos relatos mais impactantes dos últimos americanos um dia escravizados, reunidos no livro Nascidos na escravidão: Depoimentos norte-americanos.

Os trechos entre colchetes — […] — foram acrescentados pela BBC News Brasil para dar clareza a alguns termos que podem não ser tão conhecidos hoje em dia.

Imagem do manuscrito original com o relato de George Womble

CRÉDITO,BILBIOTECA DO CONGRESSO AMERICANO

Legenda da foto,‘As crianças mais jovens eram alimentadas de um cocho de seis metros de comprimento’, contou George Womble, aos 93 anos

Comida em cocho

“As crianças mais jovens eram alimentadas de um cocho de seis metros de comprimento. Sempre na hora das refeições, o senhor vinha supervisionar a cozinheira cujo dever era encher o cocho de comida.

No desjejum, o leite e o pão eram misturados no cocho pelo senhor, que usava sua própria bengala. No almoço e no jantar, as crianças recebiam caldo de vegetais e pão, e às vezes leite misturado da mesma maneira.

Todos se mantinham afastados até o senhor terminar de misturar a comida e, dado o sinal, corriam para o cocho, onde começavam a comer com as mãos. Alguns até mergulhavam suas bocas no cocho para comer.

Algumas vezes, os cães e alguns dos porcos do senhor que corriam soltos no pátio se dirigiam ao cocho para participar da refeição. (…) eles não tinham permissão para bater em nenhum desses animais de modo a afastá-los, então colocavam as mãos nos lados do rosto enquanto comiam para protegê-los das línguas dos intrusos.

Durante a refeição, o senhor caminhava de uma ponta à outra do cocho para garantir que a situação estava como deveria.”

— George Womble. Nascido em 1843, viveu em situação de escravidão no Alabama e foi entrevistado na Geórgia, aproximadamente aos 93 anos.

Ama de leite

“Quando o assunto era trabalho, nunca se tinha folga nenhuma.

Quando os escravos voltavam do eito [roçado] depois do pôr do sol e cuidavam do gado e da janta, os homens ainda tinham que debulhar milho, consertar canga de cavalo [objeto de couro usado no pescoço do animal para ligá-lo a uma carroça ou arado], cortar madeira e coisas assim; as mulheres costuravam, fiavam, teciam e algumas tinham que ir para a casa grande e dar de mamar para os bebês dos brancos.

Uma noite, minha mãe tinha dado de mamar para um dos bebês brancos e depois que ele pegou no sono, ela foi colocar ele na caminha.

O pé da criança se prendeu nos suspensórios do senhor Joe, que ele tinha pendurado no pé da cama, e quando ele escutou o bebezinho chorando, o senhor Joe acordou, agarrou um pedaço de pau e bateu na cabeça da minha mãe até que quase matou ela.

Minha mãe nunca ficou bem de verdade depois disso, e quando morreu ainda tinha um calombo enorme na cabeça.”

— William McWhorter. Viveu em situação de escravidão na Geórgia e foi entrevistado no mesmo Estado, aos 78 anos.

Filhos do senhor

“Uma vez, o senhor foi a Baton Rouge [capital da Louisiana] e trouxe de volta uma moça mulata vestida toda elegante. Era uma negra costureira. Ele construiu uma casa para ela longe da senzala e ela fazia a costura fina para os brancos.

Os negros sabiam que o doutor pegava uma negra como pegava uma branca e pegava quem bem entendia nas suas terras, e pegava bastante.

Mas quase todas as crianças que nasciam por lá pareciam negras. Tia Cheyney sempre disse que quatro dos dela eram do senhor, mas ele não dava bola para eles.”

— Mary Reynolds. Viveu em situação de escravidão na Geórgia e foi entrevistada no Texas, aos 105 anos.

Mary Reynolds

CRÉDITO,BILBIOTECA DO CONGRESSO AMERICANO

Legenda da foto,Mary Reynolds, 105 anos

Banho de salmoura

“Querida, eu não gosto de falar daquela época, porque minha mãe sofreu uma miséria. Tinha um feitor que costumava amarrar minha mãe no celeiro, com uma corda que passava ao redor dos braços e por cima da cabeça, com ela de pé por cima de um bloco. Assim que terminavam de amarrar, puxavam o bloco e os pés dela ficavam no ar. Não encostavam no chão, entende?

Esse velho batia nela pelada até o sangue correr pelas costas até o calcanhar. Eu vi os vergões e cicatrizes eu mesma, com esses dois olhos aqui.

Esse chicote era um relho, igual àqueles que usa nos cavalos, um pedaço de couro largo como a minha mão do mindinho até o dedão.

Depois que batiam na minha mãe, outro feitor… Meu Deus, meu Deus, eu odeio os brancos e a enchente ainda vai levar mais deles.

Bem, querida, esse outro homem dava um banho de salmoura nela. Você nem imagina como aqueles pedaços doíam. Arrã.

Perguntei à minha mãe o que ela tinha feito para baterem nela e fazerem tudo aquilo. E ela disse que nada, só que se recusou a ser esposa daquele homem.”

— Minnie Fulkes. Nascida em 25 de dezembro de 1859, viveu em situação de escravidão na Carolina do Sul e foi entrevistada na Virgínia, aos 77 anos.

Prato quebrado

“‘Se eu fui castigada? Não, senhora, eu não fui’.

(Aqui a filha, formada pela Universidade de Cornell, que estava na sala escutando se aproximou. ‘Abre a camisa, mamãe, e deixa a senhora decidir ela mesma’. Os olhos da velha senhora se arregalaram e ela se empertigou. Ela parecia envergonhada, mas a filha tirou sua camisa, expondo as marcas nas costas e nos ombros, que pareciam ter sido feitas por um chicote de couro trançado. Não havia dúvida alguma disso.)

‘Eu fui açoitada em público’, ela disse sem alterar a voz, ‘por quebrar pratos e por ser lenta. Eu estava com a senhora Carrington naquela época, logo antes do fim da guerra [a Guerra de Secessão, entre o Norte dos Estados Unidos e o Sul escravista, que culminaria no fim da escravidão].

Eu estava na cozinha, lavando os pratos, e deixei um cair. A senhora chamou o Sr. Blount King, um patrulheiro [homens que trabalhavam na captura de escravos fugitivos], e ele me deu o castigo que deixou essas marcas que a senhora vê em mim’.”

— Cornella Andrews. Viveu em situação de escravidão na Geórgia e foi entrevistada na Carolina do Norte, aos 87 anos.

Descalços na neve

“Chefe, eu nasci na Geórgia, em Norcross, e estou com noventa anos. O nome do meu pai era Rogert Stielszen e o da minha mãe era Betty. O senhor Earl Stielszen os capturou na África e levou para a Geórgia. Ele foi morto, então minha mãe e eu fomos para o seu filho.

O filho dele era um assassino. Ele se encrencou lá na Geórgia, então arranjou dois cavalos bem rápidos e uma carroça coberta, acorrentou todos os seus escravos e fez eles caminharem até o Texas.

Minha mãe e minha irmã tiveram que caminhar. Emma era a minha irmã.

No meio da estrada começou a nevar, mas o senhor não deixou a gente amarrar nada ao redor dos nossos pés. A gente tinha que dormir no chão também, com toda aquela neve.

O senhor tinha um chicote de couro cru trançado, bem grande e comprido, e quando um dos negros ficava para trás ou caía, ele atacava com aquele chicote. Tirava carne todas as vezes que ele acertava um negro.

Minha mãe não aguentou mais no caminho, mais ou menos na fronteira do Texas. Os pés delas ficaram sangrando em carne viva e as pernas se incharam até perder a forma. O senhor só puxou a arma e atirou nela, e enquanto estava morrendo no chão ele chutou duas, três vezes, dizendo: ‘Maldita negra, não aguentou nada’.

Chefe, pois sabe que aquele homem não enterrou mamãe, só deixou ela atirada lá onde matou ela. Naquela época não tinha lei nenhuma contra matar negros escravos.”

— Ben Simpson. Viveu em situação e escravidão no Alabama e foi entrevistado no Texas, aos 90 anos.

Casamento de negros

“Eu casei antes da guerra, com a cerimônia da vassoura [sem direito ao casamento legal, os casais de escravos se comprometiam em cerimônias informais, em que, diante de testemunhas, pulavam sobre um cabo de vassoura, marcando a união de suas vidas], que nem todo o resto dos escravos, mas venderam minha mulher antes da gente fazer um ano de casados, e então veio a guerra.”

— Clay Bobbit. Viveu em situação de escravidão no Texas e foi entrevistado na Carolina do Norte, aos 100 anos.

Clay Bobbit

CRÉDITO,BIBLIOTECA DO CONGRESSO AMERICANO

Legenda da foto,Clay Bobbit, 100 anos

Doze filhos

“Além de mim, tinha mais outros 11 filhos na minha família. Quando eu tinha seis anos de idade, todos nós fomos tirados dos meus pais, porque meu senhor morreu e o seu espólio precisou ser liquidado.

Nós escravos fomos divididos pelo seguinte método. Três pessoas desinteressadas foram escolhidas para ir à fazenda, e juntas elas escreveram os nomes dos vários herdeiros em alguns pedaços de papel. Cada um tirou um papel e o nome no papel era o novo dono.

Por acaso eu tirei o nome de uma parente do meu senhor que era viúva. Não consigo descrever a angústia e o horror daquela separação.

Eu tinha só seis anos de idade e foi a última vez que vi minha mãe por mais que uma noite. Doze filhos tirados de minha mãe no mesmo dia.”

— John W. Fields. Nascido em 27 de março de 1848, viveu em situação de escravidão no Arkansas e foi entrevistado na Indiana, aos 89 anos.

John W. Fields

CRÉDITO,BIBLIOTECA DO CONGRESSO AMERICANO

Legenda da foto,John W. Fields, 89 anos

Sermão

“Aos domingos, o Sr. House obrigava todos os seus escravos a irem à igreja branca, onde sentavam-se ao fundo ou na sacada interior.

Após pregar para o público branco, o pastor voltava sua atenção para os escravos. O sermão geralmente se conformava à seguinte linha: ‘Obedeçam seus senhores e senhoras e Deus vai amá-los’.

Às vezes, um pastor negro tinha permissão para pregar do mesmo púlpito após o pastor branco terminar. Seu sermão seguia uma linha semelhante, pois era isso que ele havia sido instruído a dizer.

Nenhum dos escravos acreditava nos sermões, mas eles fingiam acreditar.”

— Henry Wright. Viveu em situação de escravidão no Alabama e Mississipi e foi entrevistado na Geórgia, aos 99 anos.

‘Mamou nessas tetas negras e agora vem bater em mim’

“Ela (minha mãe) não trabalhava no eito. Ela trabalhava no tear, por tanto tempo e tantas vezes que uma vez pegou no sono.

O filho do senhor viu e contou para a mãe. A mãe mandou ele pegar o chicote e lhe dar uma lição. Ele pegou um pedaço de pau e foi acordá-la a pancadas. Ele bateu na minha mãe até acordá-la.

Quando acordou, ela puxou uma vara do tear e bateu nele de volta até quase matá-lo.

‘Não me bate mais, eu não vou deixar eles açoitarem você’, ele gritava. E ela respondeu: ‘Eu vou te matar. Mamou nessas tetas negras e agora vem aqui bater em mim’. E quando ela saiu, ele não conseguia mais caminhar.

E foi a última vez que a vi até a liberdade. Ela saiu e subiu em uma vaca velha que costumava ordenhar. Dolly, era assim que chamava. Ela foi-se embora da fazenda, porque sabia que iriam matá-la se ficasse”.

— Ellen Cragin. Viveu em situação de escravidão na Carolina do Sul e foi entrevistada no Arkansas, aos 80 anos.

Brancos ainda lincham e perseguem

“Os brancos sempre mantiveram os escravos em semiescravidão e ainda praticam as mesmas coisas com eles de formas diferentes. Os brancos ainda lincham, queimam e perseguem a raça negra na América e há pouco que estejam fazendo para ajudá-la.

[O presidente americano Abraham] Lincoln levou a fama por nos libertar, mas foi o que ele fez? Ele nos deu liberdade sem nos dar a chance de viver por conta e ainda precisávamos depender dos brancos sulistas para trabalho, comida e vestuário, e eles usaram nossa necessidade e privação para nos manter em um estado de servidão.

Lincoln não fez quase nada pela raça negra, e nada do ponto de vista dos vivos. Os brancos não vão fazer nada pelos negros além de mantê-los subjugados.

(…)

Você está andando por aí para ouvir a história das condições de escravidão e as perseguições dos negros antes da Guerra Civil e as condições econômicas deles desde a guerra. Após tanto tempo, você já devia saber tudo isso. Você vai nos ajudar? Não! Vai só ajudar a si mesmo.

Você diz que a minha história pode aparecer em um livro, que é do Projeto Federal dos Escritores. Harriet Beecher Stowe escreveu A cabana do pai Tomás [romance abolicionista americano do século 19, repudiado pela comunidade negra no século 20 por seus personagens considerados passivos e subservientes]. Não gostei do livro e odeio ela.

Não me importa de onde você é, não quero que escreva a minha história porque os brancos foram, são hoje e sempre vão ser contra os negros.”

— Thomas Hall. Viveu em situação de escravidão na Carolina do Sul e foi entrevistado na Carolina do Norte, aos 81 anos.

Milly Henry

CRÉDITO,BILBIOTECA DO CONGRESSO AMERICANO

Legenda da foto,Milly Henry, 82 anos

Liberdade

“Foi um dia feliz para nós escravos quando chegou a notícia que a guerra acabara e os brancos tinham que nos soltar. O senhor chamou seus negros até o pátio da casa grande, mas eu não fiquei por lá para ver o que ele tinha a dizer. Saí correndo daquele lugar, gritando o mais alto que podia.”

— Ed McCree. Viveu em situação de escravidão na Geórgia e foi entrevistado no mesmo Estado, aos 76 anos.

“Sim, senhor, eu fico contente que a escravidão acabou.”

— Milly Henry. Viveu em situação de escravidão no Mississipi e foi entrevistada na Carolina do Norte, aos 82 anos.