PEZÃO, OU OS MALES DE UM GOVERNANTE FRACO

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EM FOCO – DIARIO DE PERNAMBUCO

Por Vandeck Santiago

Que autoridade tem um governador que não governa? Nenhuma. É um fantasma em palácio, aguardando o café que o garçom lhe traz frio. “Ninguém governa governador”, já dizia o político pernambucano mais influente da primeira metade do século 20, Agamenon Magalhães, que foi ministro de Getúlio Vargas e governador de Pernambuco (1950). A frase de Agamenon não pode ser pronunciada pelo governador do Rio, Luiz Fernando Pezão – este agora é subordinado ao general Braga Netto, comandante da intervenção federal decretada na segurança do estado. Acrescente-se à narrativa que a intervenção foi solicitada pelo próprio Pezão, que foi ao Palácio do Planalto confessar o seu fracasso e dizer que que a segurança pública no estado saíra do seu controle.

Com todo respeito ao cidadão Pezão, e levando em conta também a sua saúde debilitada, o fato é que o colapso do governo dele é emblemático dos tempos que vivemos no Brasil – de lideranças acovardadas, fracas, submissas, sem disposição para enfrentar de frente as adversidades. Muitas vezes, oportunistas – falando grosso, quando está em superioridade; fino, quando a situação se inverte.
A um governador, a um prefeito, a um presidente, a um líder em geral, mesmo que sua liderança seja temporária e circunscrita a uma aldeia, se perdoa muita coisa, menos que se acovarde. Não importa quão ferozes sejam os rugidos – um líder, ou quem pretenda sê-lo, não se acovarda jamais. Pode fazer como Getúlio Vargas, que com um tiro no coração, em 24 agosto de 1954, sustou o golpe tramado por seus adversários. Pode fazer como Brizola, que levantou o Rio Grande do Sul para garantir o cumprimento da Constituição e a posse de João Goulart, em 1961, após a renúncia do presidente Jânio Quadros. Pode fazer como Miguel Arraes, que em 1º de abril de 1964, ao ser interpelado em Palácio por um oficial que lhe disse “governador, o senhor está deposto por ordem do IV Exército”, respondeu, olhando-o nos olhos: “Deposto, não. Poderei estar preso. Ninguém pode me tirar o poder que o povo me outorgou”. Pode fazer como o presidente chileno Salvador Allende que, em 11 de setembro de 1973, ingressou de armas em punho no palácio presidencial para enfrentar os golpistas, às custas da própria vida.

Dou estes exemplos históricos, de personalidades de um determinado campo ideológico, mas há outro, extraordinário, de uma liderança de centro, Tancredo Neves. Nunca foi um homem de esquerda, nunca foi um radical. No funeral de Getúlio, em São Borja (RS), Tancredo não se escondeu: estava lá, ao lado do caixão, até o último minuto, e até discursou. A caneta com que escreveu sua carta-testamento, Getúlio a deixou para ele. Veio o golpe de 1964, e novamente ele deu provas de sua coragem cívica. O nome indicado pelo novo regime para presidente foi o do general Castelo Branco. Até Juscelino Kubitschek pediu que, no Congresso, Tancredo votasse no general. Irredutível, Tancredo votou contra. Em 1976, morre o presidente deposto João Goulart. A ditadura então vigente no país proibiu manifestações no enterro dele. Quem estava lá, junto do caixão? Tancredo Neves.

Foi eleito presidente em 1985. Morreu antes de receber a faixa presidencial. Mas deixou pronto o discurso que faria no dia da posse. “Nosso progresso político deveu-se mais à força reivindicadora dos homens do povo do que à consciência das elites. Elas, quase sempre, foram empurradas à ação”, afirma trecho do pronunciamento. “Há razões singelas para que haja maior amor à Pátria no povo do que entre algumas das suas elites. A pátria dos pobres está sempre no futuro. E, por isso, em seu instinto, eles se colocam à frente da História”.

À luz desses exemplos, causa constrangimento quando você vê um governador abrir mão de sua autoridade e resignar-se ao papel de coadjuvante de terceiro plano. É sinônimo de um fracasso administrativo e político. Sendo assim, para o povo do Rio melhor seria que a intervenção federal se desse logo em todo o governo, com a nomeação de um interventor de fato e de direito, como destacou Elio Gaspari, em artigo cujo título resume a situação: “Pezão precisa sair do governo do Rio” (18/02/18, FSP).

Em todos esses exemplos que citei há bravura cívica, que reveste a indispensável bravura pessoal. Nela não há necessidade de atestado ideológico nem partidário, e também não é sinônimo de bravata retórica. Um líder com estas características pode ser derrotado mil vezes. Pode fracassar mil vezes em seus intentos. Pode errar mil vezes. Mas os seus governados, seus seguidores, seus adversários, seus desafetos, sempre saberão que nos momentos-chave, na hora H, ali estará alguém que não teme adversidades e que não se acovarda jamais.

Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

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