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Diálogos no caso de hospital de Curitiba são normais em UTIs, diz presidente de associação

A presidente da Sotipa (Sociedade de Terapia Intensiva do Paraná) –regional da Amib (Associação de Medicina Intensiva Brasileira), Cintia Magalhães Carvalho Grion, disse que as declarações da médica Virginia Soares, que foi presa e acusada de homicídio qualificado enquanto trabalhava na UTI do Hospital Evangélico de Curitiba, podem ter sido mal interpretadas. Virginia teve telefones grampeados durante a investigação da polícia.

“O que aconteceu na UTI do Hospital Evangélico não é diferente do que é praticado nas UTIs de todo o mundo, onde deve-se decidir sobre a limitação ou não do suporte de vida dos pacientes considerados terminais”, disse ela, ao avaliar os depoimentos e partes do conteúdo do inquérito policial. “Está claro que há sensacionalismo em torno do caso.”

A médica e  professora de medicina intensiva na UEL (Universidade Estadual de Londrina), mestre e doutora na área, com muitas publicações especializadas, disse que “não vê nada de anormal” nas declarações da médica Virginia Soares, sempre ressaltando que é preciso conhecer o contexto em que foram feitas.

“Mas pelos depoimentos, me parece que há uma interpretação errada dos atos médicos, mesmo entre pessoas da equipe da médica, e as feitas pelos familiares dos pacientes. Há uma criminalização das falas sem se levar em conta o contexto e como foram feitas”, disse Cintia Grion.

Segundo ela, as decisões sobre a limitação do suporte de vida dos pacientes podem ser polêmicas, mas que só podem ser tomadas em consenso entre a equipe médica e a família dos pacientes.

A médica afirmou que o ambiente das UTIs pode ser estressante e angustiante, mas que antes de tudo é frustrante para quem deve tomar decisões sobre continuar ou não um procedimento terapêutico, que pode resultar em morte do paciente.

“Por isso, as decisões sobre se a continuidade ou não de um tratamento podem ser interpretadas de forma equivocada se há falta de diálogo e falha na comunicação entre todos os envolvidos”, disse.

Para ela, os problemas de diálogo e de comunicação podem levar a muitas distorções e interpretações erradas sobre as decisões dos médicos.

“Acho que, por isso, tantas pessoas procuram agora a polícia para falar sobre pacientes internados na UTI do Evangélico. Elas querem uma explicação para o que aconteceu e muitas vezes não entendem as situações e agora questionam as decisões, pois antes não foram esclarecidas.”

Ela disse que em uma  UTI não se pode garantir resultados. “Não é um contrato de fim e sim de meio–não se pode dizer que não haverá morte, dependendo da gravidade de cada caso, e esta sempre é uma situação difícil para todos”, disse Cintia.

Resolução

A decisão sobre limitar o suporte de vida em uma UTI é chamada de ortotanásia e é regulamentada no Codigo de Ética Médica e está prevista na resolução 1805/2006 do CFM (Conselho Federal de Medicina).

“É diferente da eutanásia, que é crime, e também da distanásia, a obstinação terapêutica, que é quando não se colocam limites no suporte á vida, muitas vezes com procedimentos que implicam no sofrimento do paciente e que não vão resultar em cura e prolongam sem necessidade o tratamento”, disse.

“É comum as pessoas acharem que não há limites para os tratamentos intensivos, mas muitas vezes a realidade é outra e deve-se avaliar com muitos critérios.”

Segundo a médica, o ambiente das UTIs é muito organizado.

“É muito diferente do setor de emergência, por exemplo. Em uma comparação pode-se dizer que uma UTI é como uma cabine de pilotar avião. Existem vários procedimentos padrão,  checklists e outros para se garantir a segurança do paciente. Então não é simples decidir sobre sobre continuar ou não um tratamento que pode resultar em morte do paciente”.

“Não vou entrar no mérito das decisões da doutora Virginia, mas a minha primeira impressão é que faltou diálogo dentro da própria equipe médica e que isso gerou estas interpretações equivocadas sobre os procedimentos adotados”, concluiu.

Fonte: Uol

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