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Personagens da ficção reacendem fama de fofoqueiros de jornalistas de celebridades

Basta o personagem Téo Pereira, interpretado pelo ator Paulo Betti, dar as caras na novela “Império”, da TV Globo, carregando no “queriiiiida” e caprichando no bico, que as redes sociais de Léo Dias, colunista do jornal O Dia e repórter do “TV Fama”, começam a “bombar”. “Téo Pereira usou a frase do perfil do Twitter do @euleodias na novela <3”, postou recentemente um de seus seguidores. A frase em questão é do jornalista e escritor George Orwell: “Jornalismo é publicar aquilo que alguém não quer que se publique. Todo o resto é publicidade”.

Crédito:Divulgação
O ator Paulo Betti (à dir.) em visita ao jornalista Léo Dias, na redação do jornal “O Dia”

Seguindo a premissa de que “a arte imita a vida”, Paulo Betti de fato se inspirou em alguns colunistas de celebridades para incorporar o jornalista que não mede esforços para conseguir um furo de reportagem. E, obviamente, cliques. Muitos cliques. Mas a questão que paira no ar é se Téo consegue captar a essência e o universo desses profissionais ou se os deixam somente estereotipados.

Para viver o papel, Betti fez um breve laboratório com o próprio Léo Dias. Observou como é a rotina do repórter, quis saber de onde vêm suas fontes e até chegou a vasculhar seu Twitter. “Eu também fiz muitas perguntas para ele, porque tinha algumas preocupações. A primeira seria sobre me rotular e a segunda sobre o personagem contar mentiras. Se for odiado ou considerado vilão por muitos, não me importo. Mas inventar notícias? Eu não invento”, enfatiza Dias.

Na trama, após uma série de chantagens, Téo revela a homossexualidade do badalado cerimonialista Cláudio Bolgari (José Mayer), que é casado e pai de dois filhos – causando brigas familiares, constrangimentos e ameaças de processo. Ambos estudaram juntos quando pequenos. Para Fabíola Reipert, colunista e blogueira do R7, não dá para dizer que Téo Pereira representa os jornalistas que cobrem o universo dos famosos, principalmente por ir muito para o lado pessoal.

“É extremamente obsessivo. Nós não temos raiva dos famosos. Tem gente que acha que eu pego no pé da Cláudia Leitte, por exemplo. Mas quando tiver uma coisa legal sobre ela, vou falar. Ele usa o trabalho para se vingar das pessoas que tem raiva. Assim fica parecendo que somos um bando de recalcados. Você acha que os repórteres de política que querem desmascarar falcatruas vão para o lado pessoal? Tanto eles, como nós, queremos mostrar a verdade da área que cobrimos”, diz Fabíola.

O apresentador Leão Lobo, um dos precursores do jornalismo de “fofocas”, acredita que “Império” é um grande painel de caricaturas, a começar pelo blogueiro. “Acho um absurdo um cara que é jornalista e com a formação de Aguinaldo Silva criar um personagem tão estereotipado. Ele não tem a menor humanidade, além de tudo é chantagista”, afirma. Mas, para ele, não é apenas Aguinaldo Silva que carrega na tinta. Segundo Lobo, as novelas brasileiras decaíram muito nos últimos anos. “Ficaram ralas, superficiais”, completa.

Fofoca

Crédito:Antonio Chahestian/ Divulgação Record
Fabíola Reipert é jornalista do R7

“Vem cá e me diz uma coisa: de que vivem os milhares de blogueiros que assolam a mídia eletrônica no Brasil e no resto do mundo? Não sei, não me interessa. O que me interessa é saber como vive o blogueiro que sou eu… E como vive Téo Pereira, que eu inventei”, adianta Aguinaldo Silva em sua página pessoal. E do que ele vive? Para o autor é bem simples.

“A coluna eletrônica que ele atualiza compulsivamente várias vezes por dia é reproduzida, na forma impressa, por dezenas de órgãos da mídia tradicional do Brasil e outros países… que pagam caro por isso. Não é novidade que Téo ganhe bem com o que faz: fofoca rende muito dinheiro! Ou seja: Téo não é mau porque é mau. Ele é mau porque lhe pagam pra ser assim… E lhe pagam pra ser assim porque há muitos leitores ávidos por esse tipo bastante… peculiar, digamos assim, de jornalismo.”

Leão Lobo afirma que com o tempo criou-se a ideia de que ser jornalista de celebridade era o “ápice” do glamour e o que dava dinheiro e, assim, muitos seguiram esse caminho. “Alguns com talento, muitos com pouco talento. E muita várzea”, pontua. Segundo ele, a grande mudança, da época em que começou até hoje, foi a internet. Se antes inflamavam o debate de “invasão de privacidade”, hoje os próprios artistas se expõem nas redes sociais.

“As pessoas que acompanham essa área não gostam de ver gente boazinha puxando o saco dos famosos. Temos que mostrar o lado B mesmo. Não adianta mostrar o carro caríssimo que compraram, e, sim, que eles brigam e fazem barraco. O público gosta de ler a Caras para ver a riqueza e o glamour, mas gostam de ler a gente para ver o que o povo apronta de verdade”, diz Fabíola.

Vida real

“Fora do personagem”, Paulo Betti, em entrevista ao blog de Aguinaldo Silva, disse que “todo jornalismo tem um quê de fofoca” e que a “ética é circunstancial”. “A isenção ou imparcialidade é um mito. A imprensa é tendenciosa sempre. Cada um puxa a sua brasa. (…) Tenho admiração pela profissão, mas não seria jamais um jornalista da fofoca da intimidade”, disse na ocasião.

Crédito:Yuri Andreoli
Leão Lobo é um dos pioneiros no segmento de jornalismo de celebridades

Que Téo Pereira aparece estereotipado todos concordam, mas, de acordo com Esther Rocha, diretora de conteúdo do O Fuxico, ele representa, sim, uma parcela dos profissionais que cobrem esse tema. “É só acompanhar colunas e blogs do assunto que vamos perceber algumas semelhanças fora da ficção. Não apenas sobre celebridades, mas tem que existir um limite para a imprensa publicar determinadas coisas”, afirma.

De acordo com Esther, o jornalismo baseado no “alguém me contou” – e que não cita nomes – é lamentável. “Você cativa uma audiência, mas faz mau uso disso. Conheço meia dúzia de jornalistas que só querem notícia quando é malvada. Há colunistas que têm mais número de processo do que de tempo de carreira. Toda categoria tem o lado bom e o mau”, opina.

Mas, ao mesmo tempo, Téo Pereira já mostrou que se preocupa em comprovar suas teses. Esse trabalho fica a cargo de Érika, sua assistente, interpretada por Letícia Birkheuer. “Essa parte de ir atrás, apurar, obter flagras com fotos, provas, nesse quesito ele conseguiu pegar o espírito. Fazemos o mesmo trabalho de quem cobre política”, afirma Fabíola.

Ficção X realidade

“As telenovelas retratam o jornalismo sem abordar a precarização do trabalho.” Essa foi a conclusão de um estudo realizado pela historiadora Adaci Aparecida Oliveira Rosa da Silva, em sua pesquisa de mestrado na Escola de Comunicações e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo (USP).

Analisando três tramas da Rede Globo (“A Favorita”, “Paraíso” e “Insensato Coração”) e comparando com depoimentos de 598 profissionais da vida real, a historiadora chegou à conclusão de que a ficção mostra a carreira jornalística como algo árduo, mas não dá espaço para discussões acerca da instabilidade da profissão.

De acordo com o estudo, a ética é um ponto forte em comum entre a realidade e a ficção. Além disso, muito se citou sobre o comprometimento do profissional com a verdade. Adaci pontua que na vida real “a velocidade do processo de trabalho está dificultando o exercício desse lastro que o jornalismo tem”. “O jornalista na telenovela carrega essa característica: ele não trabalha para viver, ser jornalista é a vida dele.”

fonte:PI

 

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