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Proposta de simplificação da ortografia divide opiniões sobre vantagens para o aprendizado

Por Gabriela Ferigato e Rodrigo Alvares

A “prezidente” Dilma Rousseff (PT) adiou a obrigatoriedade do novo acordo ortográfico, assinado em 2009, para janeiro de 2016. Com o novo prazo, a “Comisão” de “Educasão”, Cultura e Esporte (CE) do Senado Federal aprovou a “criasão” de um grupo de trabalho para “aprezentar” propostas que facilitem o uso das regras na língua “portugueza”. Calma, o teclado de IMPRENSA não quebrou e a revisora não dormiu no ponto.

Encabeçada pelo professor de língua portuguesa Ernani Pimentel, a iniciativa denominada “Simplificando a Ortografia” sugere algumas alterações na atual escrita. Algumas delas já foram introduzidas por aqui: o fim do “s” com som de “z”, alterações no uso do “ç”, “ss”, “sc” e “ch”, bem como o fim da letra “h” no início de palavras (homem vira omem) e a junção “ch” (chave vira xave).

Segundo Pimentel, as regras utilizadas hoje se baseiam na metade do século passado. “Aquela educação se fundamentava na memorização, e hoje se dá pelo raciocínio lógico. Naquela época, se ensinava um conjunto de regras e exceções, e o aluno tinha que decorar. Se o professor tiver que fazer isso hoje, vai cair no ridículo”, afirma.

O abaixo-assinado de apoio à proposta já conta com mais de 36 mil assinaturas. Pimentel afirma que há dados suficientes para apontar um caminho. “Queremos a participação de mais gente. Nas palestras que faço, a cada 100 pessoas, 98 apoiam o projeto – sendo a maioria professores e estudantes de ensino médio e de faculdade”, completa.

Essa é apenas uma das ideias debatidas no grupo e que ainda será analisada pela Comissão, antes de seguir para votação. Mesmo assim, ela já deu muito o que falar – e escrever. Sérgio Nogueira, professor e consultor de língua portuguesa, é contra qualquer tipo de reforma e diz não ser essa a solução para melhorar a qualidade do ensino.

“Há todas essas ‘invencionices’ no que diz respeito à fonética. Não é preciso ter toda essa preocupação com o som. O nosso problema na sala de aula é incentivar cada vez mais a leitura. A ortografia não é o mais importante. Não é simplificando o nosso sistema que a pessoa vai deixar de ser analfabeta”, opina.

Na seção “Dois Pesos, Duas Medidas”, IMPRENSA oferece aos especialistas o mesmo espaço para a defesa de suas opiniões sobre o tema.

Crédito:Divulgação
Professor Ernani Pimentel é autor da proposta de simplificação da ortografia

IMPRENSA – Por que o senhor acredita na necessidade da reforma ortográfica?Ernani Pimentel – O acordo ortográfico foi assinado em 1990, mas a discussão vem desde um inconformismo em 1945. Então, a rigor, as regras que estão sendo colocadas hoje são baseadas na “reeducação” da metade do século passado. Aquela educação se baseava na memorização, o que não acontece hoje. Não há padrões, por exemplo, em dizer por que viagem, que vem do verbo viajar, passou a ser escrito com “g”, se antes era com “j”. Ou porque estender se escreve com “s” e extensão com “x” se ambos são derivados.

Quais os principais pontos do projeto?

Existem detalhes do acordo ortográfico que precisam ser repensados. Como eliminar ao máximo as exceções e as duplas grafias, essas que causam sérios problemas (Exemplo: biebdomadário/ bi-hebdomadário, carboidrato/carbo-hidrato). Isso deve ser eliminado para facilitar o aprendizado. Também não temos uma regra clara que oriente o uso do “x” e do “ch”. Poderíamos eliminar o “ch” e deixar apenas o “x”. Aí tem gente que vai falar que isso irá ferir a etimologia, mas nunca houve um padrão científico, e sim uma “pseudo-etimologia”.

Como seria o processo de adaptação dos professores às novas regras?

Ainda vamos discutir isso. Nosso objetivo é criar tempo com menos regras e com menor número de exceções. Assim vamos atingir um melhor desempenho. A ideia é que os professores possam transmitir o conteúdo por lógica. O projeto seria como qualquer outro de educação e um material didático para que se treinem os alunos.

O senhor propõe a redução da carga horária de aulas de ortografia, qual seria o intuito

da iniciativa?

O objetivo é focar no que é mais importante: leitura e produção de textos. De acordo com a proposta, é possível simplificar de tal forma que, ao invés das atuais 400 horas/aula, seriam utilizadas apenas – ou em torno de – 150.

As pessoas ainda estão se adaptando à reforma de 2009, como seria se habituar à nova

demanda?

Já se passaram cinco anos e ninguém aprendeu as regras. A imprensa adotou, mas ninguém consegue entender e a população não sabe usar. Queremos estudar formas de simplificar isso, ao invés de gastar tempo com algo que nunca se vai aprender.

Como vocês irão lidar com os novos gastos que a proposta custaria?

Desde 2009, foram gastos bilhões com isso. Esse sistema é caro, porque isso foi gasto e nenhum proveito se teve. Se simplificarmos o sistema, haverá uma economia de tempo (250 horas-aula) e dinheiro (R$ 2 bilhões por ano). Além disso, teríamos a diminuição do analfabetismo funcional. Sobre a necessidade de atualização de livros,

isso seria em longo prazo.

Crédito:Divulgação
Professor Sérgio Nogueira categoriza como “invencionice” a ideia de simplificar a ortografia

IMPRENSA – Por que o senhor acredita que a reforma de simplificação da ortografia não é necessária?Sérgio Nogueira – Eu sou contra qualquer tipo de reforma. Não é isso que vai melhorar a qualidade da nossa ortografia. Ela foi estabelecida em 1943 e convivemos muito bem com ela. Há todas essas “invencionices” no que diz respeito à fonética. Não é preciso ter toda essa preocupação com o som. Vamos pegar como exemplo o inglês: O “by” tem o mesmo som de “bye” e eles não reclamam que têm de escrever diferente. O que faz as pessoas saberem escrever é a leitura.

Como o senhor avalia os principais pontos do projeto, eles são viáveis?

Não acho. Isso só vai atrapalhar mais a vida das pessoas. A reforma de 2009 não mexeu em 1% das nossas palavras e criou mais problemas do que soluções. Ela acabou com os acentos, com o hífen e com o trema. Não é isso que fez o nosso português ficar melhor.

Com a proposta, como seria o processo de adaptação dos professores?

É de uma perda de tempo danada. O professor tem de incentivar a leitura, estabelecer novos métodos para melhorar a redação, a compreensão e a coerência. A nossa memória não é digital, e sim analógica. Você lê pelo conjunto.

Como o senhor avalia a ideia de reduzir a carga horária dos alunos?

Isso é mais ridículo ainda. Temos que aumentar a carga horária dos alunos. O mais importante é a leitura, a compreensão e a interpretação dos textos. Nós estamos tentando levar o português para as universidades, para que hoje um auditor que trabalha numa grande empresa e vai produzir um relatório não precise fazer um curso de atualização de português. Nas universidades nunca mais ensinaram nada. Nunca mais viram crase, concordância ou acentuação.

O senhor acredita que outra reforma deixaria as pessoas mais confusas?

Só pode confundir mais. Se a última já confundiu, imagine outra. Ainda mais essa que estabelece que se deve escrever como se fala. Vai ser um caos. Nós vamos ter de estabelecer uma pronúncia oficial ou vai valer tudo? Não vejo vantagem nenhuma. Acho que tem de investir em educação de outra maneira: com condições de trabalho, formação dos professores e, principalmente, um salário que incentive essa profissão.

Menos de cinco anos depois, o governo precisa arcar com mais gastos para atualização

de livros?

Ainda tem todo esse gasto. É melhor pegar esse dinheiro e investir em escola, em merenda. Deixa os livros didáticos como estão. E não é só livro didático, isso vai mexer em toda a literatura. Tudo fica desatualizado e isso tem um custo caríssimo para o país.

 

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