Em plena crise, Guedes abre às multinacionais um mercado de R$ 100 bilhões, que era exclusivamente nacional

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Charge do Nani (nanihumor.com)

Carlos Newton

O governo do Jair Bolsonaro é muito esquisito e contraditório. Por exemplo, defende abertamente a submissão do Brasil aos Estados Unidos, algo jamais admitido pelos militares aqui debaixo do Equador. Aliás. muito pelo contrário.

Quando os Estados Unidos, em parceria com o Império Britânico, arrendaram o Acre à Bolívia no final do Século XIX, para criar o Bolivian Sindicate e explorar sozinhos a extração da borracha, que só existia lá, os brasileiros pegaram em armas, chefiados pelo major gaúcho Plácido de Castro, derrotaram o Exército boliviano e impediram que o Acre se tornasse um estado americano tipo Alaska ou Havaí.

A luta contra a Bolívia durou de 1899 a 1903. Os brasileiros eram guerrilheiros e enfrentavam as forças organizadas e bem armadas do Exército e da Marinha boliviana, cujas tropas e navios eram mantidos com dólares e libras esterlinas. Mas isso os livros de História não ensinam aos jovens brasileiros.

AMOR À PÁTRIA – Naquela época, costumava-se lutar pelo amor à pátria. Mas agora, 122 anos depois, os brasileiros parecem amorfos e inertes. Não há o menor vestígio de nacionalismo, nem dentro nem fora do governo, apesar da participação maciça de militares no Planalto e na administração federal.

O governo não tem planejamento e opera desordenadamente. Agora mesmo, o Planalto anuncia que empresas estrangeiras poderão vender produtos e serviços para os três níveis de governo – federal, estadual e municipal. Essa mudança nas regras do jogo econômico está ocorrendo justamente quando o país sofre um brutal processo de desindustrialização, agravado pelo esvaziamento de suas maiores empreiteiras, envolvidas na operação Lava-Jato.

Assim, ao invés de acontecer um crescimento natural das empreiteiras que não tiveram envolvimento com a corrupção, serão as empresas estrangeiras que passarão a dominar as grandes obras no continente, substituindo as brasileiras, especialmente a Odebretch. E isso ocorre em um governo que se orgulha de ser contrário à globalização, como proclama o chanceler Ernesto Araújo.

BENEFICIAR A QUEM? – Orgulhosamente, o Ministério da Economia alega que “a partir de maio a Medida Provisória vai beneficiar também estados e municípios, com menor preço e mais qualidade”. Na empolgação pré-carnavalesca, a Secretaria de Gestão do Ministério da Economia, que está conduzindo esse processo sob orientação do ministro Paulo Guedes, avalia com entusiasmo que será aberto para os fornecedores e prestadores de serviço estrangeiros um mercado de mais de R$ 100 bilhões, que era exclusivamente nacional.

E ninguém diz nada? Cadê a Confederação Nacional da Indústria? As Federações estaduais, lideradas pela espetaculosa Fiesp, também vão se omitir? E as Forças Armadas, que sempre deram prioridade e defenderam as empresas genuinamente nacionais, também concordam com esse retrocesso, em plena desindustrialização? Cadê os clubes militares? Desgraçadamente, o silêncio fala mais alto, digamos assim.

O operador desse crime de lesa-pátria é Cristiano Heckert, secretário de Gestão do Ministério da Economia. Animadíssimo, ele informa que os estrangeiros poderão participar dos processos de compras públicas a partir de 11 de maio, quando a nova versão do Sistema de Cadastramento Unificado de Fornecedores (Sicaf) entrará em operação.

IMITEM TRUMP – Na nossa matriz USA, o empresário e apresentador de TV Donald Trump chegou ao poder defendendo as empresas e produtores rurais americanos. Seu amigo Bolsonaro deveria imitá-lo, mas faz exatamente o contrário. Ao invés de abrir empregos no Brasil, prefere fechar os que ainda restam, para prestigiar os produtos estrangeiros.

E o exemplo americano é precioso. Em 1929, os EUA sofreram sua pior crise, a Grande Depressão. O presidente Herbert Hoover, na véspera de deixar o cargo, sancionou o famoso “Buy American Act”, determinando que o governo passasse a dar preferência a produtos norte-americanos. Um século depois, é exatamente por isso que o avião Tucano, da Embraer, tem de ser montado lá, assim como os luxuosos ônibus da MarcoPolo. Caso contrário, os americanos não aceitam.

Para comprar produto estrangeiro, é exigido que seja 25% mais barato ou não houver concorrente americano no mercado interno em quantidade ou qualidade suficientes. Aliás, em 1983, houve nova versão do “Buy American Act”, que se aplica a compras relacionadas ao transporte de massa, como rodovias e ferrovias, em obras avaliadas em mais de US $ 100 mil e financiadas com recursos federais, beneficiando as empreiteiras locais.

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