Sites e aplicativos prometem achar sua cara-metade eleitoral

Inclusive especulando com valores inegociáveis das democracias liberais, como a defesa dos Direitos HumanosSites e aplicativos prometem achar sua cara-metade eleitoral

O Match Eleitoral, uma espécie de Tinder para unir, em vez de casais, candidatos e eleitores (Foto: Pexels)
Por Hugo Souza – O&N

No último dia 10 de setembro, o Comitê de Direitos Humanos da ONU reafirmou sua decisão de solicitar ao governo brasileiro que garantisse os direitos políticos de Lula enquanto o processo pelo qual o ex-presidente foi condenado em primeira e segunda instâncias não fosse transitado em julgado. No novo documento, o Comitê de Direitos Humanos da ONU ressaltou, diante da decisão do TSE de que a decisão da ONU não é páreo para a Lei da Ficha Limpa, que “todas as esferas do governo (Executivo, Legislativo e Judiciário)” estão submetidas aos tratados e protocolos internacionais assinados pelo Brasil.

Naquele 10 de setembro, quase todos os principais portais de notícias do Brasil deram algum destaque ao Comitê de Direitos Humanos da ONU voltando à carga por Lula. Na Folha Online, a notícia convivia na Home Page com uma chamada para os leitores, eleitores, experimentarem o Match Eleitoral, uma espécie de Tinder para unir, em vez de casais, representados em potencial e representantes idem da nossa gloriosa democracia representativa, nomeadamente, esses últimos, candidatos aos cargos de deputado federal e senador pelo estado de São Paulo.

Justamente naquele dia de Comitê de Direitos Humanos da ONU “causando” no Brasil, a convocatória da Folha Online para os eleitores se decidirem eleitoralmente na base de um questionário de múltipla escolha e processamento de dados, a convocatória da Folha Online para os paulistas usarem o Match Eleitoral, dizia assim, rimando e tudo: “A defesa dos direitos humanos é fundamental? Responda questões e veja deputado ideal?”.

Essa era (é, já que a pergunta ainda está lá, para ajudar a achar o “match ideal”) uma bola perigosamente levantada, capaz de criar uma interessante dificuldade, ou, para usar uma palavra à moda Tinder, um flerte, e um flerte um tanto temerário.

‘Contraditório’? Não me diga…

Trata-se, na prática, de um respeitável órgão da imprensa brasileira, “um jornal a serviço do Brasil”, propondo-se a ajudar parte de seus leitores, eleitores, a achar candidatos à Câmara e ao Senado federais que não transigem com certa onda “Direitos Humanos para humanos direitos”, mas ajudando também a outra parte, no mínimo por tabela, a encontrar aqueles candidatos que negam pela borda uma questão inegociável (se não na prática, ao menos enquanto valor) das democracias liberais. E fazendo isso como quem pergunta sobre se controlar a inflação é mais importante do que ter crescimento econômico.

A questão sobre inflação versus crescimento econômico está lá também, aliás, no Match Eleitoral da Folha. É, por sinal, uma das questões que dificilmente poderiam ser formuladas para serem “resolvidas” mediante uma das quatro respostas possíveis que a Folha disponibiliza para ajudar o sujeito a achar sua cara-metade eleitoral, cruzando “suas respostas sobre temas comportamentais, econômicos e políticos com o posicionamento político dos candidatos”.

Outras questões do mesmo tipo, do mesmo Match Eleitoral, são aquelas sobre se, “para o Brasil, é mais importante usar suas áreas de floresta para gerar riqueza com a agricultura do que preservá-las”; ou aquela outra sobre se “pessoas que não têm condições de pagar por uma casa estão certas em ocuparem imóveis que estão vazios há muitos anos”.

São essas as quatro respostas possíveis para essas e outras questões do “match” da Folha, que são 20 ao todo: “Concordo totalmente”, “Concordo parcialmente”, “Discordo parcialmente” e “Discordo totalmente”. Elas, essas respostas padrão, lembram muito as “etiquetas” usadas pelas agências de fact-checking. A agência Lupa, por exemplo, tem nada menos que seis “variações da realidade”, por assim dizer (inclusive esta óbvia constatação sobre a realidade que se chama “contraditório”), entre os extremos de “verdadeiro” ou “falso”.

Nem mil e uma etiquetas de checagem poderão um dia dar conta daquilo que não pode ser compreendido à luz de lógicas binárias, ou quase; por um qualquer trabalho de trapeiro ou planilhas de Excel: o discurso político. Isso porque, como a própria vida que se faz, e se faz em sociedade, e como já observamos em outra ocasião neste mesmo Opinião e Notícia, o discurso político é um ambíguo incorrigível, cheio de nuances, dado a interpretações, sujeito a esta ou aquela diferente conjuntura.

‘Estúpido cupido’

De maneira semelhante, dificilmente algum aplicativo que se propõe a fazer as vezes de Eros político poderá resultar em algo muito além do que dizia a famosa canção “Estúpido Cúpido”: “A flecha do amor só traz angústia e a dor”.

E isso para além, muito além, de questões das mais elementares, como a possibilidade de um deputado ou senador escolhido via “match”, e depois via urnas, ser convocado para assumir um ministério. Pensará o seu suplente o mesmo que seu eleitor sobre aborto ou casamento gay?

A exemplo de outras ferramentas e aplicativos similares, como o Appoie (“Encontre candidatos pela semelhança com você”) ou o #TemMeuVoto (“Responda 7 perguntas e encontre aqueles que defendem suas ideias e propostas para nosso país”), o Match Eleitoral da Folha parece promover o encontro do eleitor, do cidadão, com, isto sim, algumas das concepções mais pueris sobre a democracia representativa.

O Match Eleitoral dá, por exemplo, uma prestimosa ajuda “algorítmica” para reforçar o caráter demasiadamente personalista da política brasileira. Reforça, também, umas das piores ideias sobre a própria política: a de que se trata simplesmente de opinião versus opinião avulsas sobre os temas “daora”, e não de disputa (e concessões, e recuos, e composições, e acordos, e táticas, e estratégias, e “amor com amor se paga”, ou traições e, sim, os mais temerários flertes) por poder, por espaços de poder, entre projetos de poder – e de país.

Nesta quarta-feira, 19, a Folha anunciou a expansão do Match Eleitoral, ferramenta “inspirada em aplicativos de paquera”, para os estados do Rio de Janeiro e Minas Gerais, pontuando que ela, a ferramenta que “ajuda a achar candidatos”, já registra mais de 400 mil “testes completos”. A Folha lembra também que, para um “match” perfeito, os candidatos que ainda não responderam ao questionário – o mesmo questionário submetido aos usuários – podem procurar o Datafolha “para atualizarem seus dados”, visando o próximo “Valentine’s Day”: 7 de outubro.

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