Imortal da ABL, Antonio Carlos Secchin lança coletânea de ensaios ‘Percursos da poesia brasileira’

Em livro, poeta e imortal da ABL faz panorama informal da lírica brasileira

Antonio Carlos Secchin: poeta e membro da ABL faz panorama informal da lírica brasileira Foto: Fernando Lemos / Agência O Globo
Antonio Carlos Secchin: poeta e membro da ABL faz panorama informal da lírica brasileira – Fernando Lemos / Agência O Globo

POR BOLÍVAR TORRES

Secchin, que lança o livro nesta quinta, a partir das 19h, na Blooks, falou com O GLOBO por e-mail.um panorama informal e sem compromisso com o cânone.

‘O mar celebrado nos era alheio — vide ‘Os Lusíadas’. O nosso era de chegada, de despojos (inclusive humanos), de derrotas, e de naufrágios, literais ou metafóricos’

– ANTONIO CARLOS SECCHIN Ensaísta e poeta

No ensaio inaugural, o senhor destaca uma característica histórica da poesia: a de viver excluída do grande circuito de consumo. Quais são as vantagens e desvantagens desta condição?

Sabemos que o divórcio entre poesia e a massa de leitores consolidou-se especialmente a partir do século XIX, quando o romance assumiu esse papel interlocutório com o grande público. Não à toa, certas “seitas poéticas”, do Simbolismo em diante, pareciam ritualizar e deleitar-se com a própria marginalidade, “vingando-se” da indiferença ou da hostilidade de um gosto burguês que pareciam desprezar. Com isso, abriu-se campo para uma intensa experimentação no âmbito da materialidade da linguagem, às expensas do teor mais diretamente comunicativo do texto. O que houve de ganho (inequívoco) nessa radicalização de procedimentos correspondeu à perda (também inequívoca) de um contingente de leitores, refratários a acompanhar esses novos e complexos caminhos da poesia.

O senhor também afirma que a poesia não tem compromisso com a Verdade, pois sempre oscila no terreno sólido. É uma ideia que se conecta lá na frente, com o seu elogio à obra de Cecilia Meireles, que “em vez de pretender-se decifradora da realidade, busca o inalcançável”. Qual a importância da poesia em mundo dominado pela ciência, a produtividade e o objetivismo?

Poesia “a favor” não interessa muito: ainda que seja a favor dela própria, quando pode cristalizar-se em estátua de autossuficiência. Na prática, alinho-me ao grupo dos que veem na ironia e na autoironia um dos instrumentos mais eficazes para a desconstrução das verdades. Mais do que “dizer” algo obre o que quer que seja, penso que compete ao poeta “desdizer” – não só o que os outros disseram, mas também, ou principalmente, o que ele mesmo disse. E depois, se necessário, desdizer o que por ele próprio fora desdito.

O senhor fez questão de valorizar a obra de poetas que considera fora do nosso panteão. Na sua opinião, quais escritores incluídos causam mais surpresa e afronta ao cânone?

Citaria Bernardo Guimarães, na vertente erótica-demoníaca de sua poesia; Alphonsus de Guimaraens, em sua fase pré-católica; Mário Pederneiras, pelo emprego (praticamente pioneiro) do verso livre. Autores, sob esses ângulos, não muito considerados. De Bernardo, o cânone prefere cultivar a contribuição do romancista de “A escrava Isaura”. De Alphonsus, a imagem do místico poeta mariano. Já Pederneiras é de todo ignorado, não só porque sua obra (muito irregular) só recentemente ganhou segunda edição, mas também porque é mais simples acreditar no clichê de que o verso livre foi invenção modernista.

Um dos ensaios é sobre o posicionamento ambíguo dos românticos frente ao legado de Portugal. Até que ponto essa relação com os nossos colonizadores define a nossa produção?

Em “Pátria Portugal Poesia” examinei um curioso paradoxo: o de nossos primeiros românticos, simultaneamente, declararem independência frente à língua portuguesa de Portugal, e dependência frente ao padrão literário lusitano, ao pedirem benção (sob forma de prefácios) a escritores portugueses, representantes da modalidade linguística que nossos autores, em tese, pretendiam combater. Essa reverência extrema ao “literário alheio” — proviesse ele até do Pai Português colonizador — se manifesta também na proliferação das epígrafes de poemas, quase sempre estrangeiras.

O senhor demonstra que, curiosamente, o mar não é um elemento importante para o romantismo brasileiro. E aponta que, dos 52 poetas do período, 22 não assinaram textos com motivo marinho…

Convenhamos que o litoral, de pescaria, o mar costeiro, não chegava a ser tema para despertar o vulcão imaginativo romântico. Restava, então, o gigantismo do mar oceano. Esse, porém, não era o nosso mas sim o do colonizador, do europeu que subjugou índios, e aqui depôs os escravos dos navios negreiros. Do ponto de vista épico, das narrativas vitoriosas, o mar celebrado nos era alheio — vide “Os lusíadas”. O grande mar era o da partida, na busca bem sucedida das grandes aventuras. O nosso era mar de chegada, de despojos (inclusive humanos), de derrotas, e de naufrágios, literais ou metafóricos.

“O verso livre (como a literatura brasileira em geral) não nasceu com o Modernismo de 1922, é anterior a ele, seja na forma livre propriamente dita, seja em modalidade intermediária”

No Brasil um criminoso fica na prisão, no máximo, por 30 anos. Mas os modernistas conseguiram condenar o Parnasianismo à prisão perpétua. Como em qualquer movimento, existiu ali boa e má produção literária; mas, enquanto em quase todos os períodos, filtra-se se e propaga-se o que se considera melhor, contra o Parnasianismo há tendência a confundi-lo com os clichês de seus subprodutos, fomentando uma imagem que mereceria ser revista. Não para imerecidamente hiperdimensioná-lo, mas ao menos para libertá-lo da versão caricata a que os modernistas de 22 o reduziram.

Outro clichê desmontado é o de que coube aos modernistas fazerem a tábula rasa dos sistemas de metrificação. Pode explicar melhor esse mal-entendido?

Procurei demonstrar que o verso livre (como a literatura brasileira em geral) não nasceu com o Modernismo de 1922, é anterior a ele, seja na forma livre propriamente dita, seja em modalidade intermediária: o verso polimétrico, que concilia liberdade e padrões métricos regulares. Também verifiquei que o verso tradicionalmente métrico sobreviveu, meio camuflado, nas primeiras manifestações do Modernismo, e retornou com intensidade a partir de fins da década de 1940.

O livro se encerra argumentando por que Ferreira Gullar (morto em 2017) merecia ter ganhado o Nobel. Se fosse membro da Academia Sueca e tivesse que definir a razão de escolha de seu antigo colega na ABL, o que diria?

Permita-me transcrever trecho do que apresentei quando fui, pessoalmente, em 2002, formalizar a candidatura do poeta na Academia de Estocolmo: “Vida admirável pela capacidade de dizer não a toda forma espúria de poder, mesmo ao preço de pagar por isso com a própria liberdade. Poesia admirável pela inquietação e pela ampla gama de recursos, e que tanto fere a nota pessoal do amor quanto se ergue na defesa de valores éticos universais através de sua muralha luminosa de palavras. Por todos esses motivos, Ferreira Gullar é merecedor do Prêmio Nobel de Literatura”.

SERVIÇO:

“Percursos da poesia brasileira”

Autor: Antonio Carlos Secchin.

Editora: Autêntica.

Páginas: 368.

Preço: R$ 59,80.

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