Redes sociais feriram de morte falsa política, analisa

‘Sincericídio’ passa a ser regra

Bom ou ruim, Trump é coerente

O ex-presidente Lula cumprimenta Paulo Maluf, aliado em São Paulo nas eleições de 2012Reprodução/YouTube

Por XICO GRAZIANO

Está em bancarrota o SPD, partido social-democrata da Alemanha. Primeiro, saiu-se muito mal nas últimas eleições. Depois, topou aliar-se à adversária Angela Merkel para formar o governo. Perdeu credibilidade.

Embora uma pesquisa recente indique que a maioria dos membros do SPD apoiem a coalizão, quem está se destacando nesse processo, cujas eleições internas se iniciaram neste 20 de fevereiro, é o jovem Kevin Kühnert, 28 anos, que combate duramente a aliança com os conservadores. Veremos no que dará.

A questão fundamental não reside, propriamente, no velho e superado debate entre a esquerda e a direita. A grande polêmica da política alemã escancara um valor ético: a coerência. Juntar-se a Merkel, adversária de sempre, significa ao SPD rasgar seu passado. Isso chocou os alemães.

Serve ao Brasil o que rola na política da Alemanha. Aqui, falar em coerência política soa estranho, quase uma piada. Pois é exatamente sua falta, ao lado da corrupção, que explica boa parte do descrédito que acomete os nossos políticos.

É comum as pessoas dizerem que os políticos “pensam uma coisa e falam outra”. E, quando podem, fazem uma terceira diferente. A arte da dissimulação caracterizava os grandes políticos. Enigmáticos ou demagogos, escondem do povo suas verdadeiras intenções.

Vem de longe esse embaraço. A sinceridade não era reconhecida como virtude, mas como um defeito do “bom” político. Muitos foram acusados de cometer “sincericídio”, ou seja, dizer o que pensavam. Perderam posições.

Mais recentemente, a chegada do PT ao poder inaugurou uma fase especial da enganação política. Tudo começou com a famosa Carta aos Brasileiros, na qual Lula esclarecia que seu discurso contra tudo e todos não era bem assim. Desde então, se deliciaram em iludir a Nação. Fizeram jogo duplo todo o tempo: uma cachaça do MST aqui, um whisky da JBS ali. Fingiam santidade, namoravam a bandidagem.

O clímax da incoerência política no Brasil se escancarou naquela foto, de 2012, que mostra Maluf fazendo um “positivo” para Lula, sob o sorriso lacônico de Fernando Haddad, então candidato à prefeitura de São Paulo.

Por mais que se possa compreender a necessidade, visando a vitória, de alianças eleitorais, há limites para essa ousadia da política. A fatídica foto marcará indelevelmente a história do PT, pois ali começou seu fim. Não pela imagem em si, que é constrangedora, mas pelo que ela representa: a morte do idealismo. Quando Lula e Maluf, inimigos declarados por décadas, trocaram afetos e juraram amor, transmitiram à sociedade o pior: tudo vale em nome do poder.

Está modificando-se a percepção da sociedade, que agora na democracia contemporânea exige transparência da ação pública. As redes sociais feriram de morte a falsidade política. Coerência é um dos trunfos de Donald Trump: para o bem ou para o mal, ele está cumprindo aquilo que prometeu.

Se, no passado, até como virtude era aceita a capacidade de os políticos esconderem seu verdadeiro pensamento, hoje em dia, quem assim procede se destina ao desprezo. Na linguagem da era digital, político sem palavra vira um fake man. Credibilidade zero.

Coerência se juntou à honestidade na receita da nova política. Vale na Alemanha, chegará ao Brasil. Felizmente. Evitado no passado, o “sincericídio” passará a ser a regra da política correta. E os fake men perderão.

Tomara.

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