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Selton Mello quer oferecer ‘encanto em tempos de espanto’ em novo filme

Diretor de ‘O filme da minha vida’, ator também está em série da Netflix sobre corrupção


Na trama, o jovem Tony Terranova (Johnny Massaro, na foto) precisa lidar com a ausência do pai Nicolas (o francês Vincent Cassel)
Foto: Joba Migliorin/Divulgação

Em sua terceira investida na direção de longa-metragem, Selton Mello quer se comunicar com a maior quantidade possível de espectadores.

— Esse filme é o que eu gostaria que fosse o cinema comercial brasileiro — diz o cineasta sobre “O filme da minha vida”, em cartaz desde esta quinta-feira.

Ele diz que a pegada do novo trabalho, no qual também atua, é a mesma de seu longa anterior, o premiado “O palhaço” (2011), escolhido para representar o Brasil no Oscar e um fenômeno de bilheteria que levou 1,2 milhão de espectadores ao cinema. Antes, ele dirigiu “Feliz Natal” (2008).

Para os menos familiarizados com a identidade artística de Mello, a “pegada” a que ele se refere se traduz numa história com o objetivo de arrancar risos e lágrimas, embalada num visual afiado e moldado com a ajuda do olhar do paraibano Walter Carvalho, um dos maiores diretores de fotografia em atuação no Brasil.

Baseado no romance “Um pai de cinema”, do chileno Antonio Skármeta — o próprio autor sugeriu Selton Mello como a pessoa certa para levar a obra à tela grande —, “O filme da minha vida” se sustenta na força de temas como memória e amadurecimento para abordar a relação entre um pai e um filho.

Na trama, ambientada nos anos 1960, o jovem Tony Terranova (Johnny Massaro) precisa lidar com a ausência do pai Nicolas (o francês Vincent Cassel), que voltou para a França repentinamente e sem dar motivo ao filho. Tony compensa a ausência de uma figura paterna recebendo conselhos de Paco (Selton Mello), um amigo da família, ao mesmo tempo em que cresce dentro dele uma paixão por duas colegas, as irmãs Luna (Bruna Linzmeyer) e Petra (Bia Arantes).

— A atmosfera da história é muito onírica. Em tempos cinzentos, fazer filmes carregados de encantamento, ternura e lirismo, em que o público sai do cinema transformado e repleto de bons sentimentos, é quase um ato político — diz Mello, resumindo a tese com uma frase de efeito. — Em tempos de espanto, quero oferecer o encanto.

Ainda que Mello já seja encarado como um cineasta maduro, ele se define como um “diretor em formação”. A série “Sessão de terapia”, cujas três temporadas foram exibidas pelo canal GNT, foi o seu “mestrado”.

— Dirigi 115 episódios, sozinho, dentro de uma sala — conta, referindo-se ao fato de que a maior parte da série é ambientada num consultório de terapia.

A primeira coisa que chama atenção em “O filme da minha vida”, antes mesmo de a trama dizer a que veio, é a estética, que descolore as paisagens da Serra Gaúcha, onde se passa a história, com tons nostálgicos de sépia.

— Meu trabalho com o Walter Carvalho foi curioso. A gente não discutia técnica, e sim a vida: a história dele na Paraíba e a relação com o irmão (o cineasta) Vladimir, assim como a minha relação com minha família. Quando colocávamos a câmera a postos, já sabíamos o ângulo que queríamos. Por isso o filme é carregado de afeto. Pode ser esteticamente lindo, mas há muito mais por trás disso: é gentil, exalta o lado belo da vida. É um filme de memória, como olhar para um álbum de fotografias — compara.

Os últimos tempos têm sido de correria para Selton Mello. Além de percorrer o país promovendo o longa, ele também grava “O mecanismo”, série de José Padilha produzida pela Netflix, prevista para o ano que vem. Isso sem contar que há um mês ele protagonizou “Soundtrack”, da dupla Bernardo Dutra e Manitou Felipe, que assina como 300ml. O filme, no entanto, só vendeu 12,9 mil ingressos até a sua quarta semana em cartaz, segundo o site de análise do mercado cinematográfico “Filme B”.

— “Soundtrack” foi um trabalho bem autoral e radical — pondera o ator, oferecendo um prognóstico bem melhor para “O filme da minha vida”. — Já “O filme…” é acessível, com início, meio e fim.

No longa anterior, a maior parte dos diálogos de Mello era em inglês. Em menor intensidade, o mesmo aconteceu em “Meu amigo hindu” (2015), de Hector Babenco, e “Trash: a esperança vem do lixo” (2014), de Stephen Daldry e Christian Duurvoort. Se você pensa que Selton Mello tem interesse numa carreira internacional, você está certo.

— Tenho vontade, e admiro a trajetória do Rodrigo Santoro. Ele é um cara que batalhou desde o começo. Agora, não me vejo largando tudo. Se algo que se eu fizer aqui ecoar lá, seria legal.

Sobre a série da Netflix, o ator está impedido de dar detalhes. As primeiras notícias que já circulam na internet dão conta de que a atração será inspirada na Operação Lava-Jato, e que o personagem de Mello será um delegado aposentado da Polícia Federal. Ele diz, porém, que o escopo temático será bem mais amplo:

— Posso dizer que estou feliz em trabalhar com o Padilha, que eu admiro. É uma série que fala sobre o Brasil de hoje. É importante que tenha vários olhares sobre essa situação. Vivemos num momento peculiar da nossa História. Falaremos sobre o país e a corrupção generalizada, que não começou ontem. É uma espécie de raio X.

 

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