“O PCC acha que sou da polícia, a polícia acha que sou do PCC”

Autor de site sobre facção criminosa é guarda civil em Itu e apaixonado por crônica policial

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Por Claudia Belfort

É entre esse fogo cruzado que há seis anos vive Rícard Wagner Rizzi, 53 anos, autor do site Primeiro Comando da Capital – PCC 1533 (os números representam a posição das letras PCC no alfabeto).

Formado em administração de empresas, apaixonado por fotografia e crônicas, Rizzi não é nem um, nem outro. É guarda civil na cidade de Itu, a 100 quilômetros da capital paulista, onde atua na área de segurança patrimonial.

Primeiro Comando da Capital – PCC 1533, segundo ele, é o maior e mais completo site de temas referentes à facção criminosa de que ele tem notícia.  A página na internet, sob a improvável url aconteceumitu.org, traz informações como estatuto, artigos acadêmicos, dicionário do PCC,  mapa com a área de atuação da facção nos vários estados do País e links para venda de livros sobre o partido, ou comando, como é conhecida a organização criminosa. Também está lá a cartilha da facção, que lista  45 atos de indisciplina e suas respectivas punições. Confira alguns:

DicionariodoPCC

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A origem do site está na Associação dos Guardas Civis de Itu, da qual Rizzi foi diretor no início dos anos 2000. Àquela época, ele criou a página Aconteceu em Itu para divulgar o trabalho da entidade, mas, após sua saída, seus sucessores na organização não se interessaram em atualizar a publicação. Rizzi decidiu então mantê-la sozinho, passando a escrever contos e crônicas.

Em 2005, ao ser transferido para o Fórum Criminal da Cidade, percebeu que era fácil ter acesso aos processos e lá encontrou inspiração para novas crônicas, dessa vez policiais e sempre, segundo ele, com cuidado para não ofender as partes.

Certo dia, deparou-se com uma investigação sobre o PCC, achou interessante e resolveu focar o site no assunto. Acabou entrando num mundo para o qual não estava preparado. Foi adicionado em grupos de Facebook e Whatsapp formado por integrantes do comando.

“O que eu vi era muito pesado, o clima era tenso, preferia nem olhar”, conta.

Mas sua presença num dos grupos mais ativos não durou.

Certo dia, seu celular tocou. Um homem muito educado do outro lado da linha perguntava qual era o objetivo dele com o site. Wagner explicou que era apenas um curioso sobre o tema e que não queria prejudicar ninguém.

“Com muita cortesia, o homem se apresentou como irmão (integrante batizado no PCC) e me informou que eu teria que ser excluído do grupo de whatsapp, por não ser membro do partido”, lembra.

Além da página em português, o autor também montou versões em inglês e em espanhol. “Eu queria ver se a página chegava a integrantes dos Estados Unidos, Bolívia e Paraguai e como eles viviam”, diz.

Conseguiu, acabou conhecendo perfis de membros do comando que vivem nesses países.

“São pessoas comuns, com fotos comuns, que publicam fotos dos filhos, da família. Não tem nada de crime nas páginas deles”, diz. Como ele chegou lá? Foi procurado por gente do partido para corrigir erros nas traduções.

Desde que montou o site, um fato especialmente lhe chamou a atenção: a queda no número de homicídios no estado de São Paulo após os ataques do PCC em 2006, cujos dados ele compilou do Mapa da Violência.

Assim como outros estudiosos que se debruçam sobre dados da violência, Rizzi conclui: existe um acordo tácito entre o partido e o governo do estado para manter os índices de assassinatos em queda.

Ao ser perguntado se não tem medo de tocar um site sobre uma facção criminosa, responde: “é um terreno espinhoso”. Apesar disso, diz nunca ter recebido ameaças diretas de nenhum dos lados.

“Às vezes aparece um comentário velado na página ou por email, mas nada muito grave”. Isso pelo menos até o site ganhar fama, na semana passada, quando uma reportagem da Ponte Jornalismo revelou sua existência.  Em 30 julho, três dias após a publicação da matéria, um recado nada velado foi publicado na área de comentários:

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