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O amor à literatura

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No dia sete de julho de 1998, para celebrar os 80 anos de Antonio Candido, morto nesta sexta (12), a Folha publicou, no extinto caderno Mais!, um especial sobre o crítico literário.

Além de Leyla Perrone-Moisés, Haroldo de Campos, José Miguel Wisnik, Luiz Costa Lima, Luciana Stegagno Picchio, Walnice Nogueira Galvão, José Paulo Paes, Gilberto Felisberto Vasconcellos, Lygia Fagundes Telles, Alain Touraine, Silviano Santiago, Celso Lafer, Benedito Nunes, José Mindlin e Maria Sylvia Carvalho Franco também escreveram sobre Candido.

Ler e reler Antonio Candido é algo que todos os críticos ou aspirantes a críticos deveriam fazer regularmente, porque sempre há muito para se aprender ou reaprender com ele. Dentre as qualidades que fazem de Antonio Candido um crítico modelar, eu destacaria as seguintes: o amor à literatura, que o faz valorizar o texto mais do que o contexto, o objeto mais do que o método; a enunciação delicada de suas avaliações, que nunca se apresentam como juízos de verdade, definitivos e indiscutíveis; o reconhecimento de valores estéticos independentes de valores éticos e políticos.

Essas são qualidades que podem ser aprendidas e cultivadas por quem se dispuser a tomá-las como exemplares. Outras qualidades, essenciais, infelizmente não podem ser ensinadas ou adquiridas: a sensibilidade e a argúcia críticas, a capacidade de reconhecer imediatamente, dentre os escritores contemporâneos, aqueles que o tempo confirmaria como fundamentais. Além disso, Antonio Candido possui uma cultura literária vasta que lhe permite ajuizar em termos não apenas locais, mas internacionais. “Provinciano” e “fechado ao mundo” são atributos negativos recorrentes em sua obra, e que a ela não se poderiam aplicar.

Vejamos de perto algumas dessas qualidades. Como se sabe, A. C. é um crítico de formação e inspiração sociológicas. Coube-lhe, mesmo, inaugurar a crítica sociológica moderna no Brasil e fazer escola nesse gênero, a tal ponto que, pelo país afora, os literários das universidades paulistas são vistos como predominantemente sociológicos (o que é só parcialmente verdadeiro). A grande lição da crítica sociológica de A.C. é que esta jamais consistiu, para ele, em utilizar a literatura como simples documento para o estudo da sociedade.

Em seus textos teóricos, como em suas análises críticas, é constante a prioridade por ele concedida ao texto literário como tal. Em “Literatura e Sociedade”, o “ângulo sociológico” é apontado como um entre vários, em vez de “ser imposto como critério único, pois a importância de cada fato depende do caso a ser analisado”. O texto literário tem múltiplas faces e “uma crítica que se queira integral deixará de ser unilateralmente sociológica, psicológica ou linguística, para utilizar livremente os elementos capazes de conduzirem a uma interpretação coerente”. Assim sendo, ele aconselha que se evite “o sociologismo crítico, a tendência devoradora a tudo explicar por meio de fatores sociais”. Os fatores sociais são por ele considerados “no seu papel de formadores de estrutura” e, como tal, tão indispensáveis quanto os psíquicos.

Coerente com esses princípios, que fazem de “Literatura e Sociedade” um livro que deveria ser de leitura obrigatória em todo curso básico de letras, as análises sociológicas de A.C. são efetuadas com dedos leves, nunca reduzindo as obras aos dados históricos ou sociais, mas procedendo à iluminação mútua do texto e do contexto. Uma análise em que aparece, de modo explícito, o extremo cuidado nesse sentido, é a de “Grande Sertão: Veredas”: “Jagunços Mineiros de Cláudio a Guimarães Rosa”, em “Vários Escritos”.

O título do ensaio, que foi inicialmente um curso, sugere uma análise puramente sociológica.

Ora, a leitura de “Grande Sertão” leva o crítico muito além da questão dos “jagunços mineiros” ou de qualquer regionalismo, o que é por ele assinalado: “(…) Depois de embalados pela leitura, só por um esforço de reflexão podemos pensar em termos históricos ou sociológicos, como até aqui tínhamos feito nestas aulas. Escritor genial, dos poucos que aguentam esse qualificativo em nossa literatura, Guimarães Rosa supera e refina o documento, que não obstante conhece exaustivamente e cuja força sugestiva guarda intacta, por meio da sublimação estética. Por isso, não basta procurar nele em que medida a ficção vale como transposição dos fatos; mas também em que medida o comportamento do jagunço aparece como um modo de ser no mundo, encharcando a realidade social de preocupações metafísicas”.

O romance de Guimarães Rosa, como “operação de alta estética”, solicita e recebe do crítico uma análise que inclui a reflexão filosófica sobre nosso estar no mundo, os procedimentos técnicos como o foco narrativo e o uso do nome próprio, e o “princípio de reversibilidade”, que ele já apontara e demonstrara em estudo anterior. Leitor sensível à “transfiguração estética do real”, o crítico voa tão alto com o escritor que, para concluir a análise, parece efetuar um esforço voluntário: “Recaindo no documento (grifo meu), observemos que o livro de Guimarães Rosa é meticulosamente plantado na realidade física, histórica e social do norte de Minas (…)”.

A segunda grande qualidade apontada, a enunciação delicada, exigiria espaço maior para ser demonstrada. Basta-nos lembrar, de modo geral e reconhecível para os leitores de A.C., que ele jamais se coloca como um juiz que emite sentenças ou como o analista que achou a verdade única de um texto analisado. Vários de seus ensaios, para nós completíssimos, terminam com uma observação acerca daquilo que faltou estudar ou dizer. E já numa altura em que, do alto de sua obra, ele poderia pontificar, a conclusão de uma análise sua é a seguinte: “Mas não tenho certeza se é mesmo assim” (“As Transfusões de Rimbaud”, 1991). Esse traço de humor e de auto-ironia é próprio das grandes inteligências.
Isso não quer dizer que não haja, na obra de A.C., afirmações e juízos; somente, estes não são simples asserções, mas demonstrações convincentes. A autoridade do crítico não está no performativo “eu afirmo que”, mas na capacidade persuasiva de suas análises, providas ao mesmo tempo de coerência interna e de aderência ao objeto.

Os grandes críticos são dotados de uma generosidade de mão dupla: na disponibilidade com que recebem a obra, buscando ver qual o seu projeto e em que medida este se realiza, e na afabilidade com que oferecem sua leitura a outros leitores, tratados como interlocutores inteligentes e não como receptores beócios de um saber superior, ditado de cátedra. O estilo de A.C. é caracterizado por essa delicadeza que consiste em não submeter a obra a um método ou a uma ideologia prévias, e não tratar o leitor como alguém que deva ser desasnado. A própria clareza de sua exposição, jamais hermética ou pedante, é uma forma de urbanidade.

Pelo fato de possuir essa generosidade no trato com o outro, escritor ou leitor, os juízos críticos de A.C. não são atrelados a suas próprias convicções, éticas ou políticas. Sua admiração reiterada pela “genial rebeldia” de Oswald de Andrade é uma prova disso. Oswald, o escandaloso, o amoral, o irresponsável, o vira-casaca político, é em tudo o antípoda do homem Antonio Candido. No entanto, este soube colocar acima dessas características negativas as qualidades humanas e literárias de Oswald: a vitalidade, a força libertária de seu humor, os acertos de sua intuição e de suas fórmulas ficcionais, nas duas obras que o crítico nos ensinou a ver como um par e como grandes, “Miramar” e “Serafim”.

Com a mesma equanimidade, o crítico se manifestou recentemente acerca de Octavio Paz, geralmente execrado pela esquerda latino-americana. A discordância com as posições políticas do escritor mexicano, expressa na mesma ocasião, não o impediu de reconhecê-lo como “o maior intelectual da América Latina”.

Quanto às qualidades que não podem ser ensinadas, as de saber escolher seus objetos de admiração, têm sido comprovadas pelo único juiz em questão de valor estético: o tempo. Alguém que, em 1943, foi capaz de saudar “o raiar de Clarice Lispector” como “um dos valores mais sólidos e mais originais de nossa literatura”, que em 1946 soube ver o regionalismo de Guimarães Rosa como uma “experiência total, autêntica e duradoura” e em 1957 escreveu um texto-marco sobre a “extraordinária obra-prima ‘Grande Sertão: Veredas'” (publicado um ano antes), não precisa provar mais nada como crítico. O reconhecimento atual desses autores, no Brasil e no exterior, como dos mais notáveis na literatura do século 20, lhe tem dado, cada vez mais, razão.

Suas opiniões acerca da ficção brasileira mais recente, emitidas há 19 anos (“A Nova Narrativa”, em “A Educação pela Noite”), também se revelam hoje como justas e proféticas. A.C. observava então a tendência ao “realismo feroz”, o abandono dos grandes projetos, a ausência de parâmetros críticos de julgamento, a busca, pelos autores, do impacto produzido pela habilidade ou a força, a indiferença à duração da obra, “montagem provisória em era de leitura apressada” etc. O que ele estava descrevendo era o que agora se chama de ficção pós-moderna.

Assim como seus juízos críticos têm resistido ao tempo, suas análises também se mostram imunes ao envelhecimento, pelo estilo, que não apresenta tiques datados, modismos ou lugares-comuns acadêmicos, e pela pertinência, que permanece inteira. Apenas um exemplo: em 1965, A.C. descreveu as “inquietudes na poesia de Drummond” de maneira tão abrangente que se tornou difícil dizer, da obra passada e futura do poeta, algo que não estivesse pelo menos sugerido nesse estudo. Enfim, fazer o elogio de A.C. é chover no molhado, e por isso paro por aqui.

Leyla Perrone-Moisés é ensaísta e crítica literária, autora de “Flores na Escrivaninha”.

 

Fonte: Folha de S. Paulo

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