CHARGE DA SÉRIE: RECIFE MAQUIADA

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Criação: BLOG DO FLÁVIO CHAVES

Mãe do ano? A escolha polêmica que revela mais sobre a mídia do que sobre a maternidade

Esposa da cantora Ludmilla está grávida

   Blog do Flávio Chaves
Em um mundo onde a maternidade é frequentemente romantizada e reduzida a estereótipos, uma manchete recente chamou a atenção: Brunna Gonçalves, mulher da cantora Ludmilla, foi intitulada “mãe do ano” por um meio de comunicação. O motivo? Aos seis meses de gravidez, ela desfilará na Sapucaí durante o Carnaval. Mas será que essa escolha reflete a realidade das mães brasileiras ou apenas reforça um jornalismo que privilegia o espetáculo em detrimento da substância?
Brunna Gonçalves não é a primeira mulher grávida a desfilar no Carnaval, e certamente não será a última. Então, por que ela foi elevada ao status de “mãe do ano”? Será por sua barriga de seis meses ou por sua relação com a famosa cantora Ludmilla? A escolha parece menos sobre a maternidade e mais sobre a visibilidade midiática. Enquanto isso, mães anônimas enfrentam desafios reais, como Lexa, que luta pela vida de seu bebê em uma batalha silenciosa e heroica. A maternidade, que deveria ser celebrada em sua pluralidade, acaba sendo reduzida a um espetáculo midiático, onde o que importa não é o ato de cuidar, mas sim o de aparecer.
O título “mãe do ano” soa como hipocrisia; como uma piada de mau gosto quando pensamos nas milhares de mulheres que trabalham incansavelmente, muitas vezes sozinhas, para sustentar seus filhos. A professora que dá aula para 25 crianças com um barrigão de seis meses, a empregada doméstica que carrega sacolas pesadas até o nono mês, a mãe solteira que mal tem tempo para se cuidar – essas são as verdadeiras mães do ano. Mas, claro, elas não desfilam na Sapucaí nem têm milhões de seguidores no Instagram. Enquanto isso, a mídia escolhe celebrar uma gravidez que, embora bonita e válida, não representa a realidade da maioria das mães brasileiras.
A manchete também levanta questões incômodas. Será que Brunna foi escolhida por ser casada com uma mulher e estar grávida, em um contexto que ainda causa estranhamento para alguns? A notícia, ao invés de celebrar a diversidade, parece alimentar uma divisão desnecessária entre famílias homoafetivas e heterossexuais. E, pior, abre espaço para comentários preconceituosos, como os que já pipocam na página da notícia. Em vez de promover a inclusão, o autor da matéria parece estar mais interessado em gerar polêmica, jogando lama na plateia não pensante para garantir seus cliques.
Essa matéria é um retrato fiel de um jornalismo que prioriza o sensacionalismo e o clickbait. O autor, perdido no tempo e no espaço, parece mais interessado em gerar polêmica do que em informar. É o mesmo tipo de jornalismo que elege políticos sem projetos e transforma notícias em espetáculos vazios. O tom arrastado e superficial da reportagem lembra aqueles apresentadores que fazem “biquinho” para parecerem importantes, mas que, no fundo, não têm nada de relevante a dizer. É o jornalismo do “piscinão” e das viagens luxuosas, que ignora as reais necessidades do cidadão comum.
Mãe do ano não é quem desfila na Sapucaí ou posta fotos sem blusa para exibir a barriga. Mãe do ano é aquela que acorda cedo, trabalha duro e faz sacrifícios diários para garantir o futuro de seus filhos. Mãe do ano é aquela que ama incondicionalmente, independentemente de holofotes ou manchetes. Talvez, em vez de celebrar figuras públicas, a mídia deveria olhar para as mães reais, que vivem à margem dos holofotes, mas que são verdadeiras heroínas no dia a dia. Afinal, todas as mães, sejam famosas ou anônimas, são mães para sempre – e isso é o que realmente importa.

Bonés, cores e conflitos: A desconexão entre o parlamento e as urgências do Brasil. Por Flávio Chaves

 

    Por Flávio Chaves – Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. Foi Delegado Federal/Minc  –  Enquanto a inflação corrói o poder de compra das famílias, a educação pública enfrenta cortes orçamentários, o desemprego persiste como uma chaga social e a miséria se alastra por todos os cantos do país, o que ocupa o tempo e a atenção de nossos parlamentares? Nos últimos dias, o foco das discussões no Congresso Nacional tem sido a polêmica sobre bonés, suas cores e os dizeres estampados neles. Em um momento de tantas crises urgentes, é profundamente lamentável que questões tão irrelevantes para a vida do cidadão brasileiro dominem o debate político. Isso não só reflete a falta de preparo e envergadura de muitos representantes, mas também a ausência de um projeto claro e consistente para o futuro do Brasil.

O Brasil vive um momento de múltiplas crises. A inflação, que voltou a assombrar o bolso do trabalhador, exige medidas concretas para o controle de preços e o fortalecimento da economia. A educação, base para o desenvolvimento de qualquer nação, sofre com a falta de investimentos e a precarização do ensino público. A habitação, um direito básico, ainda é um sonho distante para milhões de brasileiros que vivem em condições insalubres. O desemprego, que teima em não ceder, mantém famílias inteiras à mercê da informalidade e da insegurança financeira. E a miséria, que deveria envergonhar qualquer governante, só aumenta, escancarando as desigualdades sociais que há décadas desafiam o país.

No entanto, em vez de enfrentar esses problemas com transparência e ações efetivas, o que vemos é a escolha de ministros de Estado para a comunicação como quem escolhe, em uma loja, uma caixa de produtos para maquiagem. Informa-se ao novo ocupante do cargo, de imediato, que sua missão será esconder a real situação do país e mostrar uma face maquiada, vendendo ilusões ao povo. Essa prática não só desrespeita a inteligência do cidadão brasileiro, mas também afasta qualquer possibilidade de diálogo honesto sobre os desafios que precisam ser superados.

Diante desse cenário, é no mínimo desconcertante ver que o tempo e os recursos públicos são gastos em discussões infrutíferas sobre acessórios como bonés. Enquanto o povo clama por soluções, o Parlamento parece mais preocupado com disputas simbólicas e vazias, que não contribuem em nada para a melhoria da qualidade de vida da população.

A obsessão com temas irrelevantes revela uma triste realidade: a falta de preparo e envergadura de muitos parlamentares para lidar com os desafios complexos que o Brasil enfrenta. Em vez de debater propostas concretas para combater a inflação, gerar empregos ou melhorar a educação, vemos representantes eleitos pelo povo se perderem em brigas que mais parecem cenas de um reality show. Isso não só desvia o foco das questões urgentes, mas também desmoraliza a política, afastando ainda mais a população da confiança nas instituições democráticas.

A pergunta que fica é: onde estão os projetos de lei que realmente impactam a vida do cidadão? Onde estão as propostas audaciosas para enfrentar a miséria e a desigualdade? Parece que, para muitos parlamentares, a prioridade não é servir ao povo, mas alimentar polêmicas que geram visibilidade momentânea, mesmo que às custas do interesse público.

O Brasil merece mais. Merece representantes que estejam à altura dos desafios que o país enfrenta. Parlamentares que priorizem as reais necessidades da população, em vez de se perderem em conflitos insignificantes. A política não pode ser um palco para vaidades pessoais ou disputas vazias; ela deve ser um instrumento de transformação social, capaz de melhorar a vida de milhões de brasileiros que dependem das decisões tomadas em Brasília.

Enquanto o Congresso não se reconectar com as urgências do povo, continuaremos a assistir a um espetáculo de irrelevância, enquanto os problemas reais do país se agravam. É hora de cobrar responsabilidade, ética e compromisso com o bem comum. O Brasil não pode mais esperar.