Com quase R$ 5 bilhões do Fundo Eleitoral, a velha política está turbinada para buscar votos

Alvaro Dias on Twitter: "@Marcelo46898930 Estamos juntos nessa luta contra  o Covid-19!! Todo dinheiro é necessário nesse momento de crise!!  #EquipeAlvaroDias" / Twitter

Charge do Zé Dassilva (NSC Total)

Jorge Vasconcelos
Correio Braziliense

Três anos depois da eleição que promoveu uma grande renovação na Câmara e no Senado, em meio à onda anticorrupção que ajudou Jair Bolsonaro (PL) a conquistar a Presidência da República, o balanço desse período sinaliza que o mesmo fenômeno não deve ocorrer no pleito de 2022.

A atual legislatura começou com 243 deputados federais eleitos pela primeira vez, o que corresponde a 47,3% das cadeiras da Câmara. No Senado, a mudança foi ainda maior: das 54 vagas em disputa, 46 foram ocupadas por estreantes — 85%.

NADA DE NOVO – Desde então, porém, a alardeada renovação se limitou a novos rostos. Nesses três anos, vários deputados e senadores eleitos com a bandeira do bolsonarismo acabaram se tornando adversários do governo, em meio a uma sucessão de crises.

Isso aconteceu, por exemplo, com parlamentares do PSL, em razão de um racha interno no partido pelo qual o presidente foi eleito. Sem o apoio do Planalto, que envolve, entre outras benesses, a liberação de emendas, muitos desses congressistas caíram no anonimato.

Ao mesmo tempo, o que se viu, nesse período, foi o fortalecimento da chamada “velha política”, que o bolsonarismo prometia erradicar. O Centrão, por exemplo — bloco partidário sem coloração ideológica definida e que, tradicionalmente, apoia os governos —, ficou ainda mais poderoso ao se aliar a Bolsonaro.

ORÇAMENTO SECRETO – Com o controle da destinação de verbas de emendas parlamentares, sobretudo as do orçamento secreto, esse grupo tem privilegiado políticos veteranos, que ganham fôlego para tentar a reeleição neste ano.

Outro fator que pode inibir uma grande renovação no Congresso é o valor do fundo eleitoral, aumentado pelo Congresso de R$ 2 bilhões para R$ 4,9 bilhões. A distribuição desses recursos, segundo analistas, deve privilegiar candidatos que estão no exercício do mandato.

A queda de popularidade de Bolsonaro também tem potencial para impactar as eleições proporcionais. O apoio declarado do presidente a postulantes ao Congresso não deve ter o mesmo peso de três anos atrás.

LULA DE VOLTA – Por outro lado, o favoritismo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na corrida pelo Planalto, apontado pelas pesquisas, pode refletir positivamente nas campanhas de candidatos de partidos progressistas ao Congresso, sobretudo se houver uma federação de legendas de esquerda.

“O arquivamento dos processos do Lula deu gás grande para a esquerda em geral e para o PT, em particular. O PT tinha apoio popular abaixo de 15%; hoje, chega a 28%. Isso vai se reverter em votos”, avalia Antônio Augusto Queiroz, analista político e diretor de documentação do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap).

Segundo ele, os partidos progressistas, reunidos em uma federação, disputarão, em melhores condições, as chamadas sobras eleitorais — vagas não preenchidas pelo quociente eleitoral. “Quem tem mais votos no conjunto se beneficia. Por exemplo: os partidos de esquerda, separados, teriam 15 cadeiras a menos do que terão juntos, como uma federação”, frisa Queiroz.

TERCEIRA VIA – Já o cientista político e pesquisador Leonardo Queiroz Leite chama a atenção para os possíveis impactos que a construção de uma terceira via, formada por siglas de centro-direita, terá nas eleições proporcionais. “Uma questão que nós temos de observar é a força que a chamada terceira via terá, principalmente após a filiação do (ex-juiz da Lava-Jato Sergio) Moro ao Podemos. É um campo conservador, de direita, mas não uma direita tosca, estridente, extremista, negacionista, como esta que está com Bolsonaro”, enfatiza Queiroz.

Ele também compartilha da opinião de que este não deve ser um ano positivo para os candidatos que pretendem atrelar sua imagem à do presidente.

“É preciso observar o declínio de Bolsonaro, que está cada vez mais evidente, com elevadas taxas de reprovação, queda de popularidade, enfim. Isso tende a refletir naqueles candidatos ao Congresso que tentam ir nessa onda, que, na minha avaliação, deve ser mais fraca do que aquela do bolsonarismo, do antipetismo, do lavajatismo, que impulsionou Bolsonaro e uma grande bancada”, acredita o especialista.