Dirceu afirma que Bolsonaro terá base social e que PT se afastou da população

Petista diz que derrota não foi apenas “política, mas ideológica”

Catia Seabra
Folha

O ex-ministro José Dirceu afirmou, na noite desta segunda-feira, dia 12, que o governo do presidente eleito, Jair Bolsonaro (PSL), terá base popular e tempo pela frente. Ao discursar para um público de apoiadores, durante o lançamento de seu livro de memórias, o ex-ministro disse ainda que Bolsonaro avançou sobre a base da qual o PT se afastou durante seus quatro mandatos. “Não nos iludamos. É um governo que tem muita base social, muita força e muito tempo pela frente. Vai transformar a segurança em pauta”, disse.

Segundo o petista, “há um Brasil profundo que se manifestou legítima e democraticamente” que o PT precisa entender para mudar. Na opinião de Dirceu, o PT não foi derrotado apenas eleitoralmente nessas eleições, mas ideologicamente. Ao fazer uma análise do cenário político, Dirceu perguntou onde o PT esteve quando o filho de uma mulher pobre chegava em casa sob efeito de drogas ou em momentos igualmente trágicos na vida do brasileiro. “Em 13 anos e meio [de vida institucional], nos afastamos do dia a dia do povo”.

CRÍTICA – Ainda que chame de heróico o desempenho de Fernando Haddad na disputa presidencial, Dirceu fez uma crítica ao PT ao comentar o impacto das fake news no resultado eleitoral. “Eles só chegaram lá [no eleitor] porque não estávamos lá onde eles chegaram”, reconheceu.

Um dos fundadores do PT, lembrou que o discurso anti-corrupção deu suporte a momentos históricos, como o golpe de 64, o suicídio de Getúlio Vargas e a eleição de Fernando Collor de Mello. E que o PT precisa se defender, lembrando que são raros os casos de petistas que enriqueceram na política. Cercado de apoiadores, Dirceu frisou que a esquerda conta com uma militância cultural e intelectualmente preparada para a defesa da democracia. “Querem nos impor o medo. Se fosse por medo não teríamos derrotado a ditadura”, discursou ele. Mas admitiu: “Estamos numa defensiva. Fomos derrotados. Precisamos de sabedoria política”.

Condenado a 30 anos e nove meses de prisão pela Lava Jato, Dirceu — que responde ao processo em liberdade— encerrou seu discurso político pregando a campanha pela anulação da pena aplicada ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Ele pregou a fixação de um programa mínimo de comunhão dos partidos de esquerda.

OPOSIÇÃO – “Quer fazer um bloco, faça. Não quer fazer uma frente, não faça. Agora, vamos ter um programa mínimo. Suponho que esse programa mínimo é oposição ao governo, defesa da democracia, da soberania nacional e de reformas políticas, estruturais, sociais e econômicas que levem à distribuição de renda, da riqueza e do poder cultural e formação nesse país”, afirmou.

Ele disse que os demais partidos de esquerda não deveriam apostar na ideia de que a prisão de Lula abrirá um caminho à rampa do Palácio do Planalto. “Não se iludam os outros. Lula é o primeiro interditado”.

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