Gota D’Água [a seco]’ propõe novo olhar para clássico de Chico Buarque

Por Márcio Bastos

“Eles pensam que a maré vai, mas nunca volta (…) Quando eles virem invertida a correnteza, quero ver se eles resistem à surpresa e quero saber como que eles reagem à ressaca”, afirma Joana em um dos momentos mais emblemáticos de Gota D’Água, clássico do teatro brasileiro escrito por Chico Buarque e Paulo Pontes em 1974, durante a ditadura militar. O texto ganhou uma elogiada montagem protagonizada por Laila Garin e Alejandro Claveaux, que mantém a força da obra, mas sugere também um outro recorte, focado na relação de Joana e Jasão. O trabalho é apresentado dia 27 de outubro, às 21h, e dia 28 de outubro, às 19h, no Teatro Guararapes.

A peça de Chico e Paulo Pontes leva para o subúrbio carioca Medeia, uma das mais famosas tragédias gregas, escrita por Eurípedes. Moradora de um conjunto habitacional, Joana vive com o marido Jasão e dois filhos. A realidade dura, piorada pela exploração dos detentores do poder político e econômico, mexe com a estrutura familiar do casal, com Jasão abandonando a família para casar-se com a filha de Creonte, o todo-poderoso da região.

Laila Garin – atriz e cantora, que brilhou em obras como Elis, a Musical – já nutria o desejo de levar Gota D’Água para os palcos. Ao lado do diretor Rafael Gomes, decidiu fazer uma releitura que respeita o texto original, mas que se permite liberdades. A principal delas é a ausência dos outros personagens – em cena, o foco é a dinâmica de Joana e Jasão, da paixão ao esfacelamento do matrimônio.

Achamos que manter ao manter só Jasão e Joana a gente potencializa o duelo entre homem e mulher, marido e mulher; a pessoa que abandona e a que fica, opressor e oprimido, rico e pobre. Outra proposta nossa era de que o espectador não julgasse nenhum dos dois, que ambos pudessem expor seus motivos e que o público pudesse se identificar com ambos. Afinal, todo mundo passa pelo medo de ser traído, de ser abandonado e também tem a ambição, sentimentos conflitantes. É uma discussão ética, de amor”, explica Laila.

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Outra adição feita à peça foi a inserção de canções que não constavam na montagem original, mas que reforçavam a narrativa. Todas, claro, de Chico Buarque, a exemplo de Eu Te Amo, Baioque e Cálice. A montagem também conta com uma espécie de flashback da relação de Joana e Jasão, que mostra a paixão que um dia existiu entre eles.

“A gente queria que as pessoas não se compadecessem só do drama de Joana, mas que entendessem também quem era esse cara, porque ele decidiu abandonar a esposa. Ele tem também o sonho de um lugar ao sol. Eu pensava em como defender o personagem para que ele não tivesse apenas uma camada, como deixar para o público que ele amou de verdade essa mulher, viveu esse amor com ela”, enfatiza Alejandro.

Os atores reconhecem ainda que a peça carrega significados que extrapolam o próprio texto pelo contexto político. Assim como nos anos da ditadura militar, quando estreou, agora há um clima de acirramento ideológico e ameaça aos direitos individuais, pontuam Laila e Alejandro. Nesse sentido, Chico Buarque, antes uma unanimidade, tem sido alvo de ataques por seu apoio às pautas dos direitos humanos.

“Acho que não é um ranço só pelo Chico e pela obra dele. Acho que se está instalando em relação aos artistas em geral. É um germe do fascismo, uma retaliação aos artistas em geral, quando a gente se posiciona politicamente. Mas, acredito que estamos vivendo um momento de potência, com os jovens vivendo no amor e na liberdade e algumas pessoas não sabem lidar com isso. Estamos à flor da pele. O texto de Gota D’Água nunca esteve ão atual. É muito forte ver o público chorando durante Cálice”, afirma o ator.

SERVIÇO

Gota D’Água (a seco)
Quando: dia 27, às 21h, e 28, às 19h
Quando: Teatro Guararapes (Centro de Convenções)
Classificação: 16 anos
Ingressos: R$ 25 (inteira) e R$ 12,50 (meia)
Informações: 3182-8000

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