Copa legado positivo para a Rússia e Vladimir Putin

Os presidentes Gianni Infantino, da Fifa, e Vladimir Putin, da Rússia – REUTERS/14-7-2018

Mesmo sem atenuar tensões geopolíticas, presidente do país colecionou vitórias com o Mundial

Vivian Oswald –O Globo – Enviada especial

Não faltaram teorias da conspiração em torno desta Copa do Mundo, que foi carregada de mensagens políticas. Teve FBI investigando a escolha do país-sede, expulsão de diplomatas e boicote liderado pelos britânicos depois do caso do envenenamento de um ex-espião russo e sua filha com gás nervoso na Inglaterra. Teve até aquela ponta de desconfiança que levou os desacreditados da seleção dona da casa a sugerir nas redes sociais que o Kremlin acertara o placar de 5 a 0 contra a Arábia Saudita, um dia antes de assinar um acordo de petróleo com o país, ou o de 3 a 1 contra o Egito, para que sejam retomados os voos de milhares de turistas russos para Sharm-al-Sheikh.

Todos os elementos para um eletrizante roteiro de James Bond, como nos velhos tempos. Pode até ser que alguma dessas — e outras tantas teorias — tenham fundo de verdade. O fato é que a Rússia mudou aos olhos do mundo depois da Copa.

Se isso não serviu para atenuar a tensão no cenário geopolítico, que terá alcançado seu ponto mais crítico desde a Guerra Fria, e reduzir o isolamento do Kremlin em relação aos governos do Ocidente, foi o suficiente para convencer os cinco milhões de estrangeiros que circularam pelas 11 cidades-sede do Mundial de que a imagem que se pinta da Rússia talvez seja mais carregada nas tintas do que imaginavam. Quem esteve no país da Copa se surpreendeu. Viu uma Rússia sobre a qual pouco se lê nos jornais.

Os ganhos políticos do presidente Vladimir Putin são inegáveis, dentro e fora do país. A Copa era o palanque para mostrar ao resto do mundo que a Rússia estava em melhor forma do que queriam que estivesse. O recado foi dado. As sanções comerciais impostas por Estados Unidos e Europa desde 2014, depois da anexação da Crimeia, não impediram o país de arrumar e abrir a casa para os forasteiros. Mesmo que não estivessem representados na cerimônia de abertura os líderes de países de peso do mundo ocidental na Copa (outros 20 estiveram presentes), muitos vieram depois. Na sexta, o Kremlin confirmou que dez chefes de Estado participarão da festa de encerramento e terão encontros com Putin.

Mundial não mudará o país

Até o time russo apresentou mais futebol do que o esperado, para a sorte do presidente. Conquistou os torcedores nacionais, que, em sua maioria, diziam que não acompanhariam os jogos. Putin disse que a Copa “ajudou a quebrar muitos estereótipos sobre a Rússia”. Ele tem razão. Torcedores têm enchido as redes sociais com fotos e vídeos, alardeados todos os dias pela TV russa no horário nobre.

 

Os jornais ocidentais também destacam a atmosfera mais leve na interação pessoal do que o clima pesado que acompanha a política internacional. Viralizou o vídeo de um jovem britânico no YouTube contando que nenhum dos perigos que disseram que veria na Rússia se confirmaram. Os britânicos foram menos numerosos do que se imaginava neste Mundial. Temia-se o enfrentamento de hooligans ingleses e russos, como em Marseille na Eurocopa.-2016

— Pelo que lia nos jornais, vim com a expectativa bem baixa — admitiu em Moscou outro inglês, Johnattan Smith, de 19 anos.

É claro que houve muita propaganda, e que restrições vigentes no país em tempos ordinários foram suspensas na Copa. O policiamento foi mais do que redobrado. Deslocaram-se contingentes de cidades menores para as sedes, que ainda levaram banho de loja. Até os cachorros de rua sumiram de vista.

A Rússia continua sendo um país com muitos problemas, entre eles as restrições às liberdades individuais. Mas engana-se quem imagina que a descontração jamais vista nas ruas vai mudar os russos ou fomentar o desejo de lutar por certas liberdades identificadas no Ocidente. Foi uma espécie de carnaval prolongado, como eles mesmos descrevem.

— Putin agora não quer uma vitória, quer softpower. Mostrar que somos amigos de novo. O Festival Mundial da Juventude e dos Estudantes, em 1957 (que levou 37 mil estrangeiros de 131 países a Moscou), abriu a janela do mundo para os soviéticos, que não tinham contato com estrangeiros à época. Hoje, os russos são parte do mundo. A classe média, 20% da população, viaja o tempo todo — diz o especialista do Centro Carnegie de Moscou, Andrei Kolesnikov.

Para Rodrigo Ianhez, historiador brasileiro especialista em União Soviética, que vive na Rússia há oito anos, esta Copa não terá o mesmo impacto do festival de 1957 ou da Olimpíada de 1980.

— Foram eventos que sacudiram a URSS. O festival aconteceu um ano depois do discurso secreto de Nikita Krushev, que iniciou o processo de desestalinização do país. De repente, naquele regime fechado, onde não se podia viajar, as pessoas veem a capital inundada de estrangeiros — diz Ianhez.

Até hoje são chamados de “filhos do festival” os bebês nascidos meses depois daquele evento. No início da Copa, a deputada conservadora Tamara Pletnyova chegou a pedir às russas que não fizessem sexo com estrangeiros para evitar os agora “filhos da Copa”. A Olimpíada de 80 trouxe para o país as latas de cerveja e refrigerante. Os preparativos mudaram a cara da capital, que construiu os dois maiores hotéis da Europa só para receber os Jogos — o Cosmos e o Alfa Gama Beta. Para o resto do mundo, no auge da Guerra Fria, e com o boicote à Olimpíada, ficou a imagem de Misha, o mascote mais popular da História olímpica.

— Mas não espere uma mudança na cabeça dos russos, desta vez. Eles estão superconectados. Não há tanta novidade assim para ver nesta Copa — admitiu o sociólogo Denis Volkov, chefe do Departamento de Pesquisa do Centro Iuri Levada.

Até 2016, 87% faziam uso diário da internet, contra 48% de uma década atrás, segundo o instituto FOM. O VKontate, uma espécie de Facebook russo, tem mais de 80 milhões de perfis, num país onde há sete milhões de blogs.

Sobre o clima de liberdade nas ruas, já está claro que tem data de validade. A vista grossa aconselhada às equipes de segurança da Copa deve voltar à linha dura de antes. Há alguns dias, um russo divulgou pelo Twitter a gravação do diálogo com um policial que chamara a sua atenção por beber cerveja na rua (o que é proibido).

— Você é russo? — indagou o guarda.

— Sou — respondeu.

— Então, não pode — retrucou.

— E aqueles estrangeiros? — rebateu.

— Eles podem.

De todo modo, foram bonitas as imagens de russos com ingleses, com quem vivem às turras, ou brasileiros, com quem sempre se relacionam bem, abraçados, tirando fotos e compartilhando sorrisos que o clima da Copa proporcionou. Quem sabe os locais não vão sorrir mais e se sentir mais em uma aldeia global do que em uma ilha fortificada como tem feito parecer o governo?

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