O legado de Chaplin, 41 anos depois de sua morte

Cineastas lembram obra do eterno Carlitos

Charles Chaplin morreu 40 anos atrás, mas sua obra permanece eterna | Foto: Roy Export / Divulgação / CP

Charles Chaplin morreu 41 anos atrás, mas sua obra permanece eterna | Foto: Roy Export / Divulgação

Completarão, neste Natal de 2018, 41 anos da morte de Charles Chaplin. Ele morreu em 25 de dezembro de 1977 e, quase sem exceção, todos os obituários destacaram a importância da data. Claro, ninguém escolhe o dia em que vai morrer, mas faz todo sentido que Chaplin, criador de um personagem imortal – Carlitos –, tenha se despedido justamente no dia em que a cristandade festeja o nascimento de Jesus Cristo. Jesus é amor, proclamam os cristãos. Seu nascimento é signo de esperança – o Messias que os judeus não reconhecem e ainda esperam. As informações são do colunista Luiz Carlos Merten, do jornal O Estado de S. Paulo.

Carlitos tinha/tem tudo a ver com esse espírito de humanidade e fraternidade. Vagabundo, sapatos rotos, chapéu e bengala, ele se equilibra sobre os próprios passos, sempre enfrentando o poder, em todas as suas formas. O policial, o capitalista são seus arqui-inimigos. Sem um níquel, Carlitos comeu os cadarços do seu sapato, como se fossem fios de espaguete, para matar a fome (Em Busca do Ouro), protegeu o menino órfão (O Garoto), devolveu a visão à garota cega (Luzes da Cidade), enfrentou a automação (dos Tempos Modernos) etc. Chaplin, agora não é mais Carlitos, foi um dos construtores da linguagem, fazendo avançar as técnicas de narração cinematográfica. A questão é: na lembrança desses 40 anos, qual é o legado de Chaplin?

Ingrid Guimarães, uma das atrizes mais conhecidas de cinema e TV do Brasil, recordista de público com sua série De Pernas pro Ar – na quinta-feira, 28, ela estreia Fala Sério, Mãe –, o tem em altíssima conta. “Chaplin é a minha maior referência de humor. Sou louca por ele. Tenho todos os seus filmes. Essa mistura poética entre humor e emoção é tudo o que almejo. Esse vagabundo desastrado, genial, atemporal. Meu favorito é O Garoto. Choro todas as vezes em que eles se reencontram.” Na contracorrente, Fábio Porchat, igualmente conhecido do cinema, TV e internet, emite uma opinião que pode ser polêmica. “O humor pode ser cruel, porque envelhece muito rápido, e o Chaplin envelheceu. Não creio que o jovem de hoje tenha o mesmo interesse por ele. É importante, a resistência dele em O Grande Ditador, o discurso final, mas é meio peça de museu. Representa outra época.”

E Renato Aragão, o Didi, a alma dos Trapalhões? “(Chaplin) É uma das minhas maiores referências, ao lado de Oscarito e Carmem Miranda. Com ele, passei a olhar a melhor maneira de se usar o corpo com graça, mas sem exagero. E poucos conseguem fazer chorar da mesma forma, com o mesmo gestual.” Jarbas Homem de Mello, que estudou muito a obra e a vida de Chaplin para fazer o musical de 2015, reflete: “Ele foi um gênio do seu tempo, porque encontrou sua arte num momento oportuno, quando o cinema estava se criando. A partir daí, Chaplin foi fundo, ao colocar em seu personagem, Carlitos, todas as nuances do ser humano e deixando para os artistas que viriam depois um legado – saber como desvendar e colocar em sua interpretação o lado bom e o lado mau”.

Como diz Jarbas Homem de Mello, Chaplin foi dos últimos cineastas, daquele tempo, a acreditar no cinema falado. “Quando o fez, valorizou a palavra mais que qualquer outro. Nenhuma palavra é gratuita em seu cinema. A valorização da palavra e do silêncio é uma das grandes contribuições de Chaplin.”

Gregório Duvivier (talvez o mais “cabeça” dos humoristas brasileiros – é um admirável cronista) destaca a força desse Chaplin “pensador”. Ele não pensava apenas o homem e o mundo. Pensava o fazer cinema. Duvivier é capaz de ficar horas falando do seu Chaplin – o de Luzes da Cidade. “Conta que ele ficou muito tempo empacado, com o filme parado, porque não conseguia resolver o impasse. A questão é que a garota é cega e, quando Carlitos a toma sob sua proteção, ela pensa que é milionário. Quando recupera a visão e descobre que é um vagabundo, a decepção é grande – para ambos. Chaplin quebrou a cabeça até ter a ideia do som. É o som da porta de um carro batendo que cria, no imaginário da mulher, a ideia do Carlitos rico. Em 1931, ele já usava o som para contar sua história e fazer avançar a linguagem.”

Por volta de 1950, em plena era do macarthismo, Chaplin fosse considerado esquerdista e antiamericano. J. Edgar Hoover o considerava um inimigo pessoal e instruiu o FBI a criar um dossiê secreto sobre Chaplin, a quem sonhava banir dos EUA. Em 1952, foi para o exterior. Exilou-se com a família – havia se casado com Oona O’Neill, filha do escritor Eugene O’Neill – na Suíça, e lá morreu. Voltou, em 1972, para receber um Oscar honorário. Tardiamente, a Academia fez-lhe justiça, aplaudindo-o de pé. Nos 40 anos de sua morte, a obra de Chaplin segue viva. E é necessária, nos tempos obscuros que vivemos.

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