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13 de maio: “Liberdade, hoje é seu dia”

Detalhe da capa de Lima Barreto: triste visionário, ilustração de Dalton Paula.

     Por Lilia Moritz Schwarcz

Foi no dia 13 de maio de 1881 que nasceu Afonso Henriques de Lima Barreto. Mesmo dia e mês da abolição da escravatura no Brasil, mas exatos sete anos antes. Essa foi uma coincidência que faria toda a diferença para o futuro escritor — autor de romances memoráveis, como Triste fim de Policarpo Quaresma, Recordações do escrivão Isaías Caminha, Numa e a Ninfa, Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá e Clara dos Anjos, e de muitos contos e tantas crônicas. A ideia de liberdade significava um imenso divisor de águas não só para a história do país, como para o projeto literário que Lima desenhou. Segundo ele, o fim do cativeiro e a conquista da liberdade eram “troféus” difíceis de ganhar, complicados de guardar, quase impossíveis de manter. Afinal, estamos falando de uma nação que permitiu a existência de escravos em todo o seu território; que recebeu, por quatro longos séculos, 40% das populações africanas que conheceram o desterro nas Américas.

Mais que mero acaso, a data de nascimento de Lima parecia premonição. Ele foi, afinal, o escritor que trouxe para o primeiro plano de sua obra, e já no início da carreira, um tema que, durante tanto tempo, ganhou apenas espaço de coadjuvante: a complexa questão racial no Brasil, e as consequências da vigência desse longo sistema de trabalhos forçados.

Numa coluna que intitulou “Maio”, publicada na Gazeta da Tarde no dia 4 de maio de 1911, Lima descreveu a alegria de ter nascido naquele mês. “Estamos em maio, o mês das flores, o mês sagrado pela poesia. Não é sem emoção que o vejo entrar […] Nasci sob o seu signo, a treze, e creio que em sexta-feira; e, por isso, também à emoção que o mês sagrado me traz se misturam recordações da minha meninice.”

Naquele ano, o dia 13 de maio caiu numa sexta-feira; dia de sorte para alguns (Lima sempre pensou assim), de azar para outros. O menino viria ao mundo numa casa modesta, situada na rua Ipiranga número 18, no bairro de Laranjeiras, “arrabalde” da região central do Rio de Janeiro. Seus pais, o tipógrafo João Henriques e a professora Amália, eram jovens e cheios de projetos. Haviam nascido livres, o que fazia toda a diferença no Brasil dos tempos do Império. Confiantes no futuro, ensinaram ao filho que a verdadeira abolição se daria por meio da educação, e não fiando-se no texto da lei que, oficialmente, traria a liberdade como “presente”. Liberdade é direito, não dádiva, e Lima seguiria pela vida afora lembrando das lições que aprendera ainda nos tempos da infância.

A vida foi, porém, dura com os pais de Lima. A mãe morreria em 1882, muito jovem, vítima da doença que mais matava no país: a tuberculose. Já seu pai, por uma espécie de trapaça do destino, seria o primeiro desempregado da República. Como trabalhava no jornal monarquista A Reforma, foi demitido em novembro de 1889, e viu-se sem emprego, sem esposa, e com três filhos pequenos para cuidar. Usando, porém, das relações que acumulara nos tempos da monarquia, conseguiu e aceitou um novo emprego como administrador das Colônias de Alienados; hospício situado na Ilha do Governador. E foi nesse momento que a loucura entrou na vida de Lima Barreto para não sair mais.

João Henriques, mesmo antes do casamento com Amália, já havia dado alguns sinais de desequilíbrio, tendo sido internado por alguns meses. Naquela ocasião, a fragilidade pareceu apenas passageira, e logo o pai de Lima estava de volta à rotina. Depois disso, viriam os loucos que viviam nas Colônias de Alienados, e que se tornaram grandes amigos do garoto. Foi por lá que o futuro escritor conheceu Manuel Cabinda, que o ensinou a ter orgulho de seu passado e de seu continente de origem. A África de coração e imaginação.

Mas se Lima passava os finais de semana na Ilha do Governador, durante o resto do tempo estudava no colégio niteroiense; uma escola de elite em que foi matriculado com a ajuda de seu padrinho, o até então poderoso Visconde de Ouro Preto, que chefiara o último gabinete do Império. Foi naquela instituição que o menino sentiu a primeira dor da discriminação. Vivia separado dos colegas que eram mais abonados, assim como se sentia excluído por causa de sua cor.

Lima tinha, pois, sete anos quando soube da boa-nova: “não havia mais escravos no Brasil”. Quem lhe deu a notícia foi a professora, d. Teresa, que explicou para a classe a complexidade que envolvia o conceito de liberdade. Naquela mesma coluna, intitulada “Maio”, o escritor descreve o momento: “Eu tinha então sete anos e o cativeiro não me impressionava. Não lhe imaginava o horror; não conhecia a sua injustiça. Eu me recordo, nunca conheci uma pessoa escrava. Criado no Rio de Janeiro, na cidade, onde já os escravos rareavam, faltava-me o conhecimento direto da vexatória instituição, para lhe sentir bem os aspectos hediondos”.

Embora distante da memória do cativeiro, o menino não deixou de se contaminar com a alegria que tomou as ruas da capital: não havia mais escravos no Brasil! Mas Lima continua seu relato tardio: “Era bom saber se a alegria que trouxe à cidade a lei da abolição foi geral pelo país. Havia de ser, porque já tinha entrado na consciência de todos a injustiça originária da escravidão. Quando fui para o colégio, um colégio público, à rua do Rezende, a alegria entre a criançada era grande. Nós não sabíamos o alcance da lei, mas a alegria ambiente nos tinha tomado. A professora, d. Teresa Pimentel do Amaral, uma senhora muito inteligente, a quem muito deve o meu espírito, creio que nos explicou a significação da coisa; mas com aquele feitio mental de criança, só uma coisa me ficou: livre! Livre! Julgava que podíamos fazer tudo que quiséssemos; que dali em diante não havia mais limitação aos propósitos da nossa fantasia. Parece que essa convicção era geral na meninada, porquanto um colega meu, depois de um castigo, me disse: ‘Vou dizer a papai que não quero voltar mais ao colégio. Não somos todos livres?'”.

Essas são reminiscências de um Lima jovem, que ainda acreditava e sonhava alto com as possibilidades inauguradas junto da República. Rapidamente, porém, no lugar do encanto, reinaria o ceticismo. No ano de 1902, por conta de um balanço financeiro que não fechava, o pai de Lima se inquietou, com medo de ser considerado corrupto. Enlouqueceu e jamais recuperou a razão. João Henriques é aposentado de seu cargo nas Colônias de Alienados, e o escritor, que era o primogênito da família, foi obrigado a largar o curso da Politécnica, onde estudava nessa época.

Lima se transforma, então, em arrimo da família Barreto, trabalhando como funcionário público, na posição de amanuense. E se o escritor jamais desistiu de seu “casamento com a literatura”, amargou uma rotina de escritório e uma vida nos trilhos da Central do Brasil — fazendo todos os dias o trajeto de Todos os Santos para o centro do Rio e vice-versa. Além do mais, se era um crítico do darwinismo racial — teoria que defendia a existência de diferenças essenciais entre as raças e considerava os mestiços “desequilibrados” —, sofreu com o diagnóstico de seu pai e de sua mãe. Naquele contexto, alienação e tuberculose eram considerados “estigmas”; ou melhor, “sinais externos” e visíveis da “degeneração” que, segundo essas teorias, assolava as “raças mistas”. É por isso que, em seus Diários, cuja primeira entrada data do dia 2 de julho de 1900, o escritor por vezes admitia temer que seu próprio corpo estivesse lhe “traindo”.

É um outro Lima, com certeza mais velho e desiludido, que deixa um novo manuscrito, não datado, e que hoje se encontra depositado na Biblioteca Nacional. A despeito de parecer idêntico, se repararmos bem, o começo e o final do texto são um tanto diferentes: o primeiro parágrafo foi suprimido e no último Lima é menos pitoresco e mais cético nas suas recordações: “Livre! livre! […] Mas como estamos ainda longe disso! Como ainda nos enleamos nas teias dos preceitos, das regras e das leis! […] São boas essas recordações; elas têm um perfume de saudade e fazem com que sintamos a eternidade do tempo. O tempo inflexível, o tempo que, como o moço é irmão da Morte, vai matando aspirações, tirando perempções, trazendo desalento, e só nos deixa na alma essa saudade do passado, às vezes composto de fúteis acontecimentos, mas que é bom sempre relembrar”.

Para confirmar a impressão, o autor de Policarpo Quaresma ainda introduz um título provocativo: “O traidor”.

Quem seria “O traidor”? Imagino que o projeto de lei que extinguiu a escravidão em 10 de maio de 1888 na Câmara, e no dia 13 no Senado, quando se promulgou a lei nº 3353. O texto da Lei Áurea saiu curto; apenas duas linhas: “É declarada extinta desde a data desta lei a escravidão no Brasil. Revogam-se as disposições em contrário”. A lei que custara tanto a ser promulgada — e que fez do Brasil o último país a abolir esse sistema mercantil —, chegava breve e conservadora: nada de priorizar reparações aos ex-escravizados. Nada de pensar em projetos de inclusão social.

Muitas vezes escritos inacabados funcionam como peças vivas, pois estão sempre sendo alterados por seu autor. No caso desse documento, em que Lima reflete sobre a ideia de liberdade, as oscilações acompanham as próprias expectativas “decrescentes” do escritor.

Esses e outros episódios da vida de Lima Barreto vão aparecer na biografia, que publico em junho pela Companhia das Letras, chamada Lima Barreto: triste visionário. Foram dez anos de trabalho para tentar compreender esse triste visionário, essa história tão particular, mas muito comum desse nosso país. Esse personagem que se desilude mas encontra sempre um novo sonho para sonhar. A história de uma República que ainda luta para se consolidar, e que teve no escritor um de seus maiores testemunhos críticos e vigilantes. A sina de uma nação que continua sofrendo para dar conta desse racismo institucional e estrutural, que ainda persiste enraizado em nosso dia a dia, e que o autor denunciava já no início do século XX. A trajetória de um Brasil que prometeu inclusão mas entregou muita exclusão social.

Liberdade é a palavra que Lima seleciona, e que gostaria de lembrar nesse 13 de maio de 2017. “Liberdade, hoje é seu dia” era o mote dos jornais de 1888. Ou então, conforme anotou Lima, no início de seu Diário íntimo: “Quando comecei a escrever este, uma ‘esperança’ pousou”.

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Lima Barreto: triste visionário chega às livrarias no dia 26 de junho.

Lilia Moritz Schwarcz é professora titular no Departamento de Antropologia da USP e Global Scholar na Universidade de Princeton (EUA), além de autora de O espetáculo das raçasAs barbas do imperador (vencedor do prêmio Jabuti na categoria ensaio), D. João carioca (em coautoria com Spacca), O sol do Brasil (vencedor do prêmio Jabuti na categoria biografia) e Brasil: Uma biografiaescrito com Heloisa M. Starling, entre outros. Em junho, lança Lima Barreto: triste visionário.

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