PONTO DE VISTA

O PAPEL DE CADA UM


por Vandeck Santiago

Tem uma cena naquele documentário sobre os bastidores da campanha do Lula em 2004, Entreatos, do João Moreira Salles, que é uma ótima tradução do que seja o embate político. Depois de anunciada a vitória do petista, alguém sai de uma sala (o Ricardo Kotscho? Cito o episódio de memória, não tenho certeza) e diz para o José Dirceu: “Acabou, Dirceu, acabou!”. E o Dirceu, quase sem levantar os olhos: “Não, agora que começou”.

A disputa eleitoral acaba, mas o embate político está sempre começando. E o que vai começar para os principais personagens da eleição recém-encerrada é o seguinte:

Dilma Rousseff: Obteve uma vitória maiúscula. Enfrentou um noticiário negativo durante meses (sobretudo a partir das Jornadas de Junho de 2013), viu líderes do seu partido irem para a cadeia, resistiu a duas ondas eleitorais durante a campanha (as de Marina Silva e Aécio Neves), sobreviveu a debates em que nunca teve um desempenho exemplar e aum frenético (para dizer o mínimo) final de campanha – e mesmo assim saiu vitoriosa no primeiro e segundo turnos. O resultado mostra a competitividade da candidatura dela e do projeto petista que representa. Acabou? Não, agora que vai começar. Sua base de apoio será mais fragmentada do que nos três últimos governos petistas. Ela terá de dialogar muito mais do que em seu primeiro mandato (uma deficiência que alguns dos seus próprios aliados reconhecem). E trabalhar para superar os desafios que ela mesmo destacou: o da aprovação da reforma política e o do combate à corrupção e à inflação. Saindo-se bem nesta agenda, Dilma chegará em 2018 como um trunfo do partido para a sucessão (até lá o PT deve manter acesa a possibilidade de o próprio Lula ser o candidato. Isso evitará que haja uma corrida de petistas postulando a vaga, o que sempre atrapalha o governo e pode gerar divergências internas).

Aécio Neves: Tem a faca e o queijo na mão para tornar-se o principal líder da oposição no país. Os 51 milhões que obteve o credenciam para isso. Acabou? Não, agora que começou – porque para ocupar este papel não basta um discurso ou outro no Senado. Ele deve manter-se como protagonista da política nacional e para isso deve manter uma atividade vigorosa. Era o momento de fazer algo como Lula fez entre 1993 e 1996, as chamadas Caravanas da Cidadania, que o levaram a percorrer o país inteiro. Claro, não se trata de copiar o modelo do adversário; estou falando na adoção de algo que permita a Aécio Neves manter-se em evidência, travar contato direto com a população, ser notícia e incorporar uma agenda diferente daquela elaborada apenas em gabinetes. Necessitará montar um grupo de estudos e de assessores. Dependendo do que aconteça em São Paulo daqui até lá, o governador reeleito Geraldo Alckminn estará disposto a concorrer novamente à Presidência em 2018 – ou seja, sob a perspectiva de hoje não há garantia de que a vaga estará aberta aguardando Aécio. Até agora, nenhum tucano saiu tão forte quanto ele após a derrota – nem Serra nem Alckmin. Mas é preciso saber o que fazer com a votação recebida, sob o risco de cometer erros como Marina.

O eleitor-crítico: Uma das grandes singularidades desta eleição foi o grande número de pessoas que votaram em Dilma destacando que era um voto-crítico. Um voto de confiança, mas não uma carta branca. O voto de um eleitor que fez a opção pela candidata petista considerando que o projeto que ela representava era melhor do que o do adversário, mas fazendo ressalvas. Acabou? Não, agora que começou. Este eleitor vai cobrar do governo Dilma as mudanças prometidas. E desconfio que a tolerância dele para eventuais falhas do governo petista esgotou-se nesta eleição.

DPonline

 

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