Tangolomango, novo romance do escritor Raimundo Carrero, é lançado hoje

 

Em “Tangolomango”, lançado hoje, Raimundo Carrero escreve sobre a personagem Tia Guilhermina

Raimundo Carrero, 65 anos, escreve sobre emoções fortes, paixões na medida do desejo, personagens que têm fé e sanidade testadas por provações, obstáculos do cotidiano. Seu novo livro se chama “Tangolomango: ritual das paixões deste mundo” (Record, 128 páginas, R$ 29,90), lançado hoje, às 19h, na Livraria Jaqueira, ocasião em que o autor pernambucano irá autografar exemplares.

Carrero recebeu a reportagem da Folha de Pernambuco em sua casa para conversar so­bre o livro um ano depois de con­ceder uma entrevista, também em sua residência, sobre os projetos para 2012. Entre as duas datas, o escritor, que sofreu um acidente vascular cere­bral (AVC) em outubro de 2010, pa­rece ter reconquistado o vi­gor. “Foi um desafio muito grande escrever este livro porque foi num momento de do­en­ça. Passei dois anos de cama e escrevia o texto apenas com o indicador direito”, diz Carrero.

No texto de apresentação o autor sugere: é melhor ler o livro das 6h da manhã ao meio-dia, “com a força da luz e do sol”. “Eu acho que há um horário bom para ler romances. Ensaios devem ser lidos à tarde, literatura é para ser lida no sol da manhã. Eu escrevia sempre de manhã, acho que nesse horário o leitor pode entrar na psicologia do livro”, comenta. “Dizem que não há um leitor, e sim vários leitores em um. Alguém está lendo e depois sai para tomar um café, quando volta se tornou outro leitor. Então é melhor, se puder, ler de uma vez só”, ressalta.

A força do livro parece estar nos protagonistas, a delicada construção de Tia Guilhermina e Matheus, seu sobrinho, personagens que gostam de viver, embora nem sempre passem por boas experiências. A obra traz a jornada de Guilhermina por um Recife vagamente familiar, a nostalgia por um tempo passado indefinido, o Carnaval, a boemia, e Carrero descreve, com uma narração sofisticada, o processo de autonomia de Gui­lhermina diante do abismo emocional, a solidão gerada pe­la ausência de amor, o zelo daqueles que cedem à loucura.

“Tia Guilhermina me surpreendeu. Eu sou um escritor técnico, tenho domínio da narra­tiva, mas nesse caso foi diferen­te. Eu achava que ela iria fi­car trancada em casa, tocando piano para Matheus, mas de repen­te ela saiu, velhinha, com som­brinha na mão, encontrou o desfile do Galo da Madrugada, na frente dos Correios, fez um striptease na frente da multidão, na marquise do Trianon”, diz o autor, descrevendo um dos trechos do romance, surpre­so com a ousadia de sua própria criação, uma mulher que queria ser prostituta mas temia a solidão do trabalho.

Tia Guilhermina é uma intrigan­te mistura entre afeto, sere­ni­dade vulnerável, gentileza di­an­te da crueldade e lascívia provo­cada pela negação do desejo. “Ela é manhosa. Não gosto quan­do dizem que é safada, fi­co irritado, ela é sedutora, caris­mática, tem um grande afeto. Mesmo nas cenas mais cruéis e violentas, ela reage sempre com afeto. É uma personagem viva”, sugere o escritor.

“Getúlio Vargas dizia: ‘Saí da vida para entrar para a história’. Com esse livro, costumo dizer, parafraseando Getúlio: ‘Saí da literatura para entrar na vida’. Tia Guilhermina é vida pura, uma mulher envolvente, transformou o romance numa grande vida, me tomou; terminar esse livro foi cruel, pois vou ficar sem ela por muito tempo”, diz Carrero.

Assim como em livros anterio­res, Carrero investiga a relação entre loucura, sexo e fé, cons­truindo a história a partir de per­sonagens movidos por volú­pias e crenças. “Essas questões fazem parte do meu ponto de vista”, diz o autor. “Minha vi­são de mundo envolve o ho­mem em erupção. Mais do que a condição humana, costumo falar do ‘abismo humano’. Procuro investigar esse abismo, sentir; o ser humano não é só um ser em movimento, é um ser em erupção”, explica o autor.

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