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Ator é barrado em formatura por usar saia

O traje para a festa de formatura descrito no convite era passeio completo, mas a calça do terno foi trocada por uma saia, um kilt escocês sem o xadrez, e formou-se a confusão. Inspirado no estilista americano Marc Jacobs, o ator mineiro Guh Brandão, de 25 anos, foi de saia, blusa de botão preta e sapato Oxford ao baile dos formandos do curso de relações internacionais da PUC Minas no espaço Mix Garden, em Nova Lima, há uma semana. Mas, pelo menos na entrada, não fez tanto sucesso quanto Jacobs em suas aparições durante visita ao Rio de Janeiro no ano passado. Guh foi impedido de entrar por causa do traje. “Eu estava de passeio completo”, defende.
O ator conta que chegou à festa com amigas e que o grupo ficou do lado de fora por 40 minutos, aguardando outra pessoa. Quando decidiram entrar, diz ele, os seguranças o pediram para aguardar. “Não entendi o que aconteceu e tentei entrar novamente, mas eles disseram que eu não estava com o traje adequado. Perguntei: ‘Por que estou de saia?’, mas eles me pegaram pelo braço e me retiraram”, disse. As amigas, que já haviam entrado no salão, se revoltaram quando descobriram que Guh tinha sido barrado, voltaram para a entrada da festa e, nas palavras do ator, o “puxaram à força” para dentro. Segundo ele, já na festa uma pessoa do cerimonial perguntou o que havia acontecido. “Foi uma situação muito constrangedora, fiquei sem saber o que fazer. Evitei estragar a festa da minha amiga, mas a vontade era chamar a polícia.”

Guh diz ter comprado a saia há três meses. Ele desenhou a peça e contratou uma costureira para fazê-la. Hoje, já são quatro modelos no guarda-roupa. Em suas andanças por Belo Horizonte, o ator admite que sempre chamou a atenção, mas garante nunca ter sofrido constrangimentos. “Sei que não é comum. As pessoas param, comentam, mas me proibir nunca aconteceu. Vou a restaurantes, ando de ônibus, táxi, vou a todos os lugares com os modelos que tenho. Frequento igreja evangélica, já fui a delegacia, prestei vestibular, tudo usando saia.”

Para ele, o estranhamento não é exclusividade de Minas Gerais. Semana que vem ele se muda para Vitória (ES), onde vai trabalhar, e acha que os olhares de reprovação vão continuar. Sobre o constrangimento na festa de formatura, Guh garante que não vai esquecer. “Os seguranças foram invasivos, me pegaram pelo braço. Foram danos morais, bullying, preconceito. Vou à Polícia Civil prestar queixa e já entrei em contato com um grupo LGBT, que me deu um número para denúncia. O preconceito dos seguranças quanto à orientação sexual foi notório”, considera.

Bom senso

Um integrante da comissão de formatura que pediu para não ser identificado disse que não soube da confusão, apenas viu um convidado de saia na festa. Ele diz que não vê problema no uso do kilt, mas avalia que não faz parte do traje de gala. Ainda assim, garantiu que Guh foi uma das atrações do baile. O cerimonial responsável pelo evento considera que o episódio foi um mal entendido. “Em uma reunião final com a comissão de formatura ficou decidido que seriam barradas todas as pessoas que não estivessem de passeio completo. Os seguranças tiveram a ação de barrar pelo traje, nunca pela orientação sexual”, afirmou Brenda Azevedo, relações públicas do Cerimonial Via Essencial.

Para Juliana Barbosa, coordenadora do curso de design de moda da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e professora de moda no Centro Universitário Una, não há uma norma rígida com relação aos trajes. “Todas as classificações se referem às convenções sociais apenas”, disse. Segundo ela, o rapaz demonstrou ter atitude ao assumir o kilt, “o que causou estranhamento à uma sociedade tradicional como a mineira”. E completa: “Vale a regra do bom senso. O traje é agressivo ou caracteriza algum tipo de deboche? Caracteriza atentado ao pudor? Pelo que parece, não. Homem vestir saia já não é novidade, pelo contrário, é cada vez mais comum”.

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