Rubens Paiva e os 54 anos de uma tragédia que não podemos esquecer. Por Flávio Chaves

busto do ex-deputado Rubens Paiva  Por Flávio Chaves – Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. Foi Delegado Federal/Minc  –  Em 20 de janeiro de 1971, o Brasil testemunhou um dos capítulos mais sombrios de sua história política. Rubens Paiva, ex-deputado federal e um defensor incansável da democracia, foi retirado de sua casa no Rio de Janeiro por agentes do Centro de Informações da Aeronáutica (Cisa). Desde então, sua prisão, tortura e assassinato nos porões do regime militar tornaram-se um marco do autoritarismo que imperava na época.

Rubens Paiva era mais do que um político; era um idealista comprometido com causas fundamentais para o avanço social do país. Durante sua carreira, liderou uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que investigava supostos financiamentos ilegais de campanha e defendia com veemência a reforma agrária. Sua atuação, embora aplaudida por muitos, também o tornou um alvo do regime que silenciava vozes contrárias.

Depois de ser levado de sua residência, Rubens Paiva enfrentou dias de tortura que culminaram em sua morte. Primeiro, ele foi conduzido ao quartel da Força Aérea Brasileira (FAB), onde foi brutalizado. Posteriormente, foi entregue aos militares do DOI-CODI, onde sua vida foi tragicamente ceifada. Segundo os registros da Comissão Nacional da Verdade, divulgados em 2014, os horrores que sofreu foram parte de uma estratégia sistemática de repressão.

Por anos, a família de Rubens Paiva viveu a angústia do desaparecimento forçado. Sua esposa, Eunice Paiva, tornou-se um símbolo de resistência ao buscar incessantemente a verdade sobre o paradeiro de seu marido. Apenas em 1996, mais de duas décadas após sua morte, ela conseguiu obter o atestado de óbito de Rubens, encerrando oficialmente a busca por uma confirmação que o Estado havia negligenciado.

A história de Rubens Paiva ganhou novo fôlego com o lançamento do filme Ainda Estou Aqui, de Walter Salles, inspirado no livro homônimo escrito pelo jornalista Marcelo Rubens Paiva, filho do ex-parlamentar. A obra traz à tona não apenas os horrores da ditadura, mas também os dias de dor enfrentados pela família, em especial pela incansável Eunice Paiva.

O filme e o livro resgatam um legado de coragem e idealismo que transcende o tempo. Mais do que relembrar um episódio trágico, essas narrativas colocam em destaque a importância de defender a democracia e os direitos humanos, valores pelos quais Rubens Paiva deu sua vida.

Em um país que ainda enfrenta desafios democráticos, a história de Rubens Paiva permanece um lembrete urgente da importância da memória histórica. Seu compromisso com a justiça social, sua coragem em tempos de repressão e o sofrimento de sua família são lições que ecoam até os dias de hoje.

Mais do que uma vítima de um regime autoritário, Rubens Paiva é um símbolo de resistência e da luta por um Brasil mais justo e igualitário. Que seu nome e sua história continuem a inspirar aqueles que acreditam na democracia como o caminho para a liberdade e a dignidade humana.

Um grito de revolta de Caetano Veloso contra a ditadura militar

Caetano Veloso - Alegria, Alegria (3º Festival da MPB - 1967) | Vídeo da  final na descrição

Caetano no III Festival da MPB, em 1967

O cantor, músico, produtor, escritor, poeta e compositor baiano Caetano Emanuel Viana Teles Veloso, o genial Caetano Veloso, na letra da canção “Alegria, Alegria” apresentada no III Festival de MPB da TV Record, em 1967, exibia uma das mais belas canções de protesto contra o início do regime militar.

O tempo passou, não há mais ditadura militar, mas a canção continua atualíssima.

ALEGRIA, ALEGRIA
Caetano Veloso

Caminhando contra o vento
Sem lenço, sem documento
No sol de quase dezembro
Eu vou

O sol se reparte em crimes,
Espaçonaves, guerrilhas
Em Cardinales bonitas
Eu vou

Em caras de presidentes
Em grandes beijos de amor
Em dentes, pernas, bandeiras
Bomba e Brigitte Bardot

O sol nas bancas de revista
Me enche de alegria e preguiça
Quem lê tanta notícia
Eu vou

Por entre fotos e nomes
Os olhos cheios de cores
O peito cheio de amores vãos
Eu vou
Por que não, por que não

Ela pensa em casamento
E eu nunca mais fui à escola
Sem lenço, sem documento,
Eu vou

Eu tomo uma coca-cola
Ela pensa em casamento
E uma canção me consola
Eu vou

Por entre fotos e nomes
Sem livros e sem fuzil
Sem fome sem telefone
No coração do Brasil

Ela nem sabe até pensei
Em cantar na televisão
O sol é tão bonito
Eu vou

Sem lenço, sem documento
Nada no bolso ou nas mãos
Eu quero seguir vivendo, amor
Eu vou
Por que não, por que não…

Acusação de Moraes ao general Theophilo é uma tremenda fake news

General Estevam Theophilo é o novo comandante Militar da Amazônia

General Theophilo foi acusado levianamente por Moraes

Daniel Gullino
O Globo

O general da reserva Estevam Theophilo, um dos 40 indiciados pela suposta tentativa de golpe de Estado, negou as acusações em manifestações protocolada nesta segunda-feira no Supremo Tribunal Federal (STF). Theophilo alega que continuou tendo “irrestrita confiança” do ex-comandante do Exército Marco Antônio Freire Gomes, que teria rejeitado o plano golpista, e que também recebeu um “elogio honroso” do atual comandante, Tomás Paiva.

Theophilo comandou o Comando de Operações Terrestres (Coter). De acordo com a Polícia Federal (PF), ele “anuiu com o golpe de Estado, colocando as tropas à disposição” do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), em uma reunião realizada no Palácio da Alvorada em dezembro de 2022.

APENAS LAMÚRIAS – Na petição enviada ao STF, Theophilo afirma que “jamais poderia ter anuído com suposto ato golpista” porque Bolsonaro “nada lhe propôs ou expôs de plano com intuito ou conteúdo golpista”. De acordo com ele, o então presidente “limitou-se a declinar lamúrias”.

Além disso, o militar alega que, se realmente tivesse concordado com o plano, “certamente teria rompido suas relações com o então Comandante do Exército Brasileiro”, Freire Gomes, que relatou à PF ter discordado de uma proposta de Bolsonaro para reverter o resultado da eleição presidencial.

Ele alega, no entanto, que o comandante o manteve no posto até o final do governo, “estando ao seu lado até o momento da simbólica passagem de comando”, o que evidenciaria a “legalidade das suas condutas, e confirmando a irrestrita confiança exigida para a indicação e exercício do cargo”.

ELOGIO HONROSO – Além disso, Theophilo afirma que continuou no cargo durante boa parte do primeiro ano do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, até ir para reserva, em novembro de 2023, e que na ocasião recebeu um “elogio honroso declarado pelo atual Comandante da sua Força Armada”, referindo-se a Tomás Paiva.

Em depoimento à PF, Freire Gomes afirmou que não partiu dele a ordem para que Theophilo se reunisse com Bolsonaro no Alvorada, e que “ficou desconfortável com o episódio, por desconhecer o teor da convocação e considerando o conteúdo apresentado nas reuniões anteriores”.

Depois, contudo, o ex-comandante apresentou uma declaração escrita, anexada dela defesa de Theophilo à investigação, afirmando ter “total confiança na lealdade e disciplina” do general.