Hoje, a última despedida de Martinha, início do adeus a uma geração da nossa família. Por José Nivaldo Junior

  Por José Nivaldo Junior Consultor em comunicação, advogado, historiador, escritor, membro da Academia Pernambucana de Letras e diretor de O Poder  –  Maria Marta Rabelo Viegas, assim ficou em definitivo o nome da querida prima-irmã, para nós sempre Martinha. Distanciados na chegada à vida por meros sete meses incompletos, na idade. Ela mais nova. Filha única, tivemos uma infância de irmãos. As circunstâncias da vida distânciam, mas não separam.

Fim e recomeço
A missa de sétimo dia, que se celebra hoje (Card no final) é um ritual que encerra um ciclo e inicia outro, mais desafiador e mais dramático. Dos descendentes diretos dos nossos avós comuns, Vozinha Yaya e vovô Biu, todos os filhos já se foram, a última foi exatamente Tia Nely, mãe de Martinha, que faleceu pouco mais de um ano atrás. Da geração dos netos – sete via papai, uma via tia Nely e oito através de tio Newton, ninguém tinha partido. Eu, o mais velho, seria teoricamente a bola da vez. O destino inverteu a ordem. Os misteriosos e diversificados caminhos da morte pregaram uma peça.

Flor
Foi a palavra que Fatima Souza, amiga de Martinha de muitos compartilhamentos e jornadas, pronunciou alto quando, na celebração da missa de corpo presente, segunda-feira da semana passada, 28005/25, o celebrante pediu que cada presente resumisse Martinha em uma palavra. Flor, sintetiza uma biografia. Saudável, linda, amada, com uma vida dos sonhos, Martinha partiu do nada. Difícil entender e aceitar o que ocorreu. Sentada, em confraternização, apagou. Chegou ao hospital sem vida cerebral e sem que a medicina tenha encontrado uma causa biológica. Assim, do nada, perdeu as condições de sobreviver. Depois de resistir um mês, sem consciência, partiu para sempre.

Morte sem sofrer
Não tenho religião. Acredito na vida eterna da matéria, sem consciência, para mim apanágio do cérebro humano funcional. Logo não temo a morte. Porém, reconheço, me pelo de medo do sofrimento. Não gosto de doença, convivo mal com uma simples virose. Já um câncer, perigoso, enfrentei sem esmorecer em árduas batalhas, e venci. Não tive medo em nenhum momento, porque, em pleno gozo das minhas faculdades, podia decidir meu destino. O tal medo é do abismo que se abre para quem não pode mais controlar o seu futuro. Na época, acreditava firmemente na cura. Que veio, repetindo, com muita luta e dedicação de muitos. Assim, de certo modo, retalhado pela dor que o tempo vai se encarregar de amenizar, permitam-me: invejo a morte de Martinha. Dela, não se pode dizer que descansou. Pelo contrário, foi uma flor colhida, ainda, em pleno desabrochar. Porém, desembarcou da vida sem sofrer, deixando pessoas saudosas e nunca aliviadas, pois nenhum trabalho deu enquanto consciência teve. Nem a si mesma. Nem a ninguém.

E agora
Depois do ato derradeiro do ritual de despedida, retomamos a vida. Com a imposição do sofrimento e do luto. Com o compromisso de, fiéis à sua memória e exemplos, continuar cultivando a vida com leveza, alegria, felicidade. Sabendo que nosso dia chegará. Mas sem antecipar angústias e sofrimento. Como já foi dito de todas as formas, viver cada dia plenamente é a chave da felicidade. É a melhor mensagem que podemos mandar para o infinito.

NR – Na segunda foto, a família em 1952 – Djalma, Nely, Noemi, Neusa e Newton (no muro). Neíse com Junior no colo. Uma babá com Martinha. Os patriarcas Biu e Yayazinha. José Nivaldo provavelmente tirou a foto.

Na terceira foto, Neusa, Neíse, Newton e Rosa, então noivos, Nely e as crianças Junior, Ricardo e Martinha.

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