Um beijo desconhecido depois da guerra. Por Flávio Chaves

 A História do marinheiro e da enfermaira na Times Square celebrando a esperança retomada

O beijo do marinheiro George Mendonsa e da enfermeira Greta Friedman, na Times Square

Por Flávio Chaves – Jornalista, escritor, poeta e membro da Academia Pernambucana de Letras. Foi Delegado Federal/Minc

Na icônica fotografia que imortalizou um dos momentos mais celebrados do século XX, vemos um marinheiro beijando uma enfermeira em meio à multidão de Times Square. Esta imagem, capturada por Alfred Eisenstaedt em 14 de agosto de 1945, dia em que foi anunciada a rendição do Japão e o fim da Segunda Guerra Mundial, simboliza mais do que um simples beijo: é uma expressão de alívio, alegria e a retomada da esperança.

O marinheiro da foto, identificado como George Mendonsa, protagoniza uma cena que se tornaria um símbolo atemporal de vitória e liberdade. George, um jovem marinheiro, estava em Nova York naquele dia, celebrando com milhares de outras pessoas a tão esperada notícia do fim da guerra. A enfermeira que aparece ao seu lado, Edith Shain, estava voltando do trabalho quando foi inesperadamente envolvida pelo entusiasmo do momento.

George Mendonsa, então com 22 anos, havia servido a bordo do USS The Sullivans, participando de várias batalhas no Pacífico. A guerra havia sido brutal e, para muitos, a sobrevivência até aquele momento parecia um milagre. Quando a notícia da rendição japonesa chegou, George, assim como tantos outros, foi tomado por uma emoção avassaladora.

Greta Zimmer Friedman, a enfermeira que involuntariamente se tornou parte dessa imagem histórica, estava trabalhando no Doctor’s Hospital em Nova York. Ela, como muitas mulheres de sua geração, havia contribuído imensamente para o esforço de guerra, cuidando dos feridos e mantendo a saúde dos soldados. Naquele dia, enquanto caminhava pela Times Square, foi surpreendida pelo abraço apaixonado do marinheiro, um gesto que representava o júbilo de uma nação inteira.

A fotografia, publicada pela revista Life, capturou a essência do momento de maneira que palavras jamais poderiam. O beijo, espontâneo e cheio de emoção, transcendeu a simples ação de duas pessoas e se transformou em um símbolo de renovação e paz. Eisenstaedt, com seu olhar aguçado, conseguiu eternizar a euforia de uma nação que finalmente via o fim de anos de sofrimento e incerteza.

Greta Zimmer e George Mendonsa nos anos quarenta.

Greta Zimmer e George Mendonsa nos anos quarenta.

Décadas mais tarde, tanto George Mendonsa quanto Greta Friedman compartilharam suas versões daquele dia. Mendonsa relembrou a euforia que o levou a beijar a primeira enfermeira que viu, enquanto Friedman  recordou o choque inicial seguido pela compreensão do contexto do ato. Ambos entenderam o poder simbólico daquela imagem, que passou a ser lembrada não apenas como um beijo, mas como o marco de um novo começo.

A fotografia do marinheiro e da enfermeira em Times Square continua a ressoar através dos tempos. Ela nos lembra dos sacrifícios feitos durante a guerra, da alegria incomparável que vem com o fim de um conflito, e da capacidade humana de encontrar momentos de pura alegria mesmo nas circunstâncias mais difíceis. George e Greta, através de um simples beijo, nos deram uma imagem que permanece como um dos mais poderosos ícones da paz e da esperança.

Essa cena celebra não apenas o momento histórico, mas também os indivíduos que, ainda que por um breve instante, se tornaram símbolos de uma era. George, o marinheiro cuja espontaneidade capturou o espírito de uma nação, e Greta, a enfermeira que personificou a compaixão e a dedicação de tantas mulheres, serão sempre lembrados através daquela imagem inesquecível.