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CASA NOVA PARA ABRIGAR VIDA E OBRA DE CLARICE

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Por Luce Pereira

É claro, a senhora ou o senhor pode não amar a obra de Clarice Lispector e até mesmo nem conhecê-la, porque, afinal, gosto não se discute e a vida de cada um tem configurações, circunstâncias e prioridades diferentes. Mas, se mora no Recife e mantém vínculo ao menos de simpatia com a literatura, deve saber da importância da cidade na vida da autora, que morou aqui antes de completar dois anos até os 13 e dedicou razoável espaço em sua escrita a memórias daquela época, quando percorria ruas do Centro ou se deliciava, na companhia dos pais, em passeios pelos arredores. Se chegou a ler livros como Felicidade clandestina (1971), por exemplo, vai identificar em alguns contos imagens associadas a esse período, assim como terá ideia da leveza que ela experimentava, naqueles dias, ao ler o texto em que descreve banhos de mar com a família, na Praia do Carmo, em Olinda. Mais incensada entre os autores brasileiros, comparada a escritores do quilate de Virginia Woolf, James Joyce e Katherine Mansfield, sua obra já foi traduzida mais de 200 vezes e a cada dezembro, mês em que nasceu, o Brasil e outros países rendem a ela as devidas homenagens. Assim, sobrariam motivos para o Recife se orgulhar enormemente de tê-la tido entre os habitantes, nos anos 1920, mas o agradecimento nunca foi expresso através, ao menos, de cuidado com a preservação do lugar onde viveu, o sobrado de número 387, na frente da Praça Maciel Pinheiro. A estátua, inserida no Circuito da Poesia, parece não crer na batalha (de longa data) para conseguir o tombamento do imóvel, mas a novidade é que a Fundação Joaquim Nabuco entra na briga e entrega, segunda-feira, pedido neste sentido ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Será que agora, enfim?

Numa entrevista concedida em 2014 a um jornal local, Nadia Battella Gotlib, umas das mais reconhecidas biógrafas de Clarice, dizia-se confiante em que, daquela vez, o projeto de tombamento sairia e então seria possível transformar o sobrado colonial em um espaço dedicado à escritora. Nada feito, apesar de já existir projeto detalhando equipamentos e a ocupação de todas as dependências por atividades ligadas à vida e obra da célebre inquilina. “Espero que o projeto avance, pois, afinal, não é qualquer cidade que tem o privilégio de haver convivido com uma escritora importante como Clarice”, dizia Nadia. Na verdade, tentativas neste sentido existem desde a primeira gestão petista da cidade, quando a sobrinha-neta de Clarice, a cineasta Nicole Allgranti, bateu às portas da prefeitura em busca de apoio para a ideia, mas saiu sem ouvir nenhuma promessa de empenho. Saímos, mais precisamente, porque a acompanhei na visita à secretária de Comunicação e Assuntos Estratégicos da PCR, Lygia Falcão. Àquela altura a estrutura do imóvel, de propriedade da Santa Casa de Misericórdia, já se encontrava em situação bem precária e, depois, desprotegido, viria a perder objetos – pela ação de vândalos ou de ladrões.

No bairro carioca do Leme, onde a escritora viveu os últimos anos, uma estátua colocada na praia leva às lágrimas fãs de todas as idades, que entre selfies e poses para fotógrafos amadores declaram incansavelmente a paixão pela obra. Seria necessário que o poder público, no Recife, tivesse a exata noção deste apreço e da importância da cidade para a autora, antes de seguir fechando os olhos ao projeto capaz de, enfim, eternizar a presença dela entre nós. Seguramente, o discurso de falta de verbas não resiste ao dos ganhos que um espaço cultural assim atrairia. A não ser que seja falsa a propaganda a respeito da vocação turística da capital de Pernambuco, pois, até onde se sabe, cultura e história revelam-se indissociáveis na cabeça de todo visitante com o mínimo de curiosidade e informação. Enquanto o tombamento e o projeto não saem do papel, continuamos, sim, sem pagar uma dívida que qualquer outra cidade gostaria de ter a honra de saldar – com toda pompa e circunstância.

 

Arte: DP

fonte:DP

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