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Enxaqueca

José Negreiros    Por José Negreiros

João e Carlos acabaram com minha carreira de poeta. Sufocaram precocemente um talento no qual minha professora do quinto ano primário, meu papai e um amigo de infância apostavam tudo.

Carlos rimou:

“Esta cidade do Rio!
Tenho tanta palavra meiga,
conheço vozes de bichos,
sei os beijos mais violentos,
viajei, briguei, aprendi.
Estou cercado de olhos,
de mãos, afetos, procuras.
Mas se tento comunicar-me
o que há é apenas a noite
e uma espantosa solidão.”

Fiquei em estado de choque. Quando fui apresentado à Bruxa, disse pra mim que só valeria a pena ser poeta se eu fosse capaz de escrever um poema tão bom que o autor desse sentisse ímpeto de sentar-se na sarjeta para chorar de inveja. Não seria capaz, claro.

João escreveu:

“qual uma faca íntima
ou faca de uso interno,
habitando num corpo
como o próprio esqueleto

de um homem que o tivesse,
e sempre, doloroso
de homem que se ferisse
contra seus próprios ossos.”

Ao ler pela primeira vez “Uma Faca só Lâmina”, aos 16 anos, fui objeto de deslumbramento absoluto.

Ao saber, por meio de uma notícia, que o embaixador sofria de dor de cabeça crônica, de nome científico enxaqueca, pedi a Deus com todo o fervor que me desse uma também. Para mim, era natural que com ela viria a arte da poesia, tanto eu associava as duas coisas. As pessoas não fumavam para ficar parecidas com James Deen? Então?

Mas quando deparei com “Praia do Caju”, do meu conterrâneo José Ribamar, –

Caminhas no passado e no presente.
Aquela porta, o batente de pedra,
o cimento da calçada, até a falha do cimento. Não sabes já
se lembras, se descobres.
E com surpresa vês o poste, o muro,
a esquina, o gato na janela,
em soluços quase te perguntas
onde está o menino
igual aquele que cruza a rua agora,
franzino assim, moreno assim.
Se tudo continua, a porta
a calçada a platibanda,
onde está o menino que também
aqui esteve? aqui nesta calçada
se sentou? –

tive a certeza: deveria tentar outro gênero.

Olhei para o lado e lá estavam os velhos Braga e Paulo a me expulsarem de seu clube de cronistas. Restou o jornalismo, onde busquei refúgio para me engalfinhar com a clareza, precisão e síntese. Com um agravante: aos quarenta anos, depois de uma noite na companhia de uma garrafa de Comte de Valmont tinto, acordei, em Buenos Aires, com uma dor de cabeça devastadora, diagnosticada pelo neurologista como “jaqueca”.

Dupla tragédia. Viera só, sem o dom da rima.

Vinte anos depois, ao contar essa história para minha filha, ela acha patético o pacto. Aspirinas em troca de versos. Não vê nenhuma simbologia, qualquer metáfora, encanto algum no sonho de imitar um poeta em tudo. Na dor, no sofrimento, na crise, na cefaleia. Como toda criança, só gosta da repetição da história que termina assim: Carlos Drummond de Andrade passa os dias sentado num banco em Copacabana; João Cabral de Melo Netto mudou-se para Sevilha, de onde jamais deveria ter voltado; e José de Ribamar Ferreira Gullar pode ser encontrado desde a quinta-feira passada na Academia Brasileira de Letras.

Ferreira Gullar, o mais novo imortal vai ocupar a Cadeira 37 (Foto: Wilton Júnior / AE)Ferreira Gullar, o mais novo imortal vai ocupar a Cadeira 37 (Imagem: Wilton Júnior / AE)

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