O TREM DE VITÓRIA E O ABOMINAVEL MATADOR DE PÁSSARINHOS

CRÔNICA

por MARCUS PRADO

Cada um é dono de uma história de trem a contar, não tem como esquecer o trem de sua vida, até aqueles que nunca viajaram nessa nave de ferro vestida de fumaça, talvez nem de metrô. Um trem que existe somente na imaginação.Se foi menino, se brincou na calçada de sua casa ou no jardim fechado de seu condomínio, teve por certo o seu soldadinho de chumbo, aquele herói tão minúsculo dos nossos devaneios infantis. E, se tanto assim, com o escudo desses soldadinhos que não fogem da memória, livrou os trens pagadores dos mascarados das estradas de ferro, nos faroestes da infância.

Muitos autores solicitados a darem o seu depoimento sobre AS EMOÇÕES DE UMA VIAGEM DE TREM, estão aqui reunidos.

Quando me escolheram, no CEC, para ser o relator do processo de tombamento da antiga estação ferroviária de Garanhuns, decidi produzir, como anexo da parte de análise técnica, (além de um longo texto em que esboço minhas ideias sobre tombamento histórico) algo como uma antologia brasileira do TREM, reunindo textos inéditos e depoimentos de intelectuais de renome em nosso estado, sem esquecer o que, no passado, alguns vultos disseram e escreveram sobre a emoção de uma viagem de trem. Agora, peço licença para contar a minha história, que deve ser lida como talvez verídica. Tudo começou numa parada habitual do trem das 15 horas, na estação de Vitória de Santo Antão, para reabastecimento da caldeira e para o lanche (uma famosa sopa de legumes), que os passageiros (homens, velhos e crianças) faziam no Hotel Fortunato, a poucos metros da estação. No final desse intervalo, a caldeira do trem quase atingindo os seus 130 lba de pressão, os passageiros retornaram às suas cadeiras, todos já nos seus lugares,  sentindo ainda no ar o cheiro do berço histórico da cachaça, eis que um deles gritou: PAREM ESSE TREM, NÃO DEIXEM O TREM PARTIR!!! O grito foi tão forte que todos ouviram,  e o maquinista, homem justo, deu concordância e atenção ao apelo, que,  a essa altura,  era de todos, e não poderia ser de outra forma, quando a causa se mostrava justa e nobre em nome da defesa dos passarinhos. Eu estava na estação quando ouvi o primeiro passageiro a gritar, depois dele, era como uma tarde de gols no campo do Dique: NÃO DEIXEM ESSE CÁRA ENTRAR!

Era a voz geral, temendo a entrada (no meio dos passageiros) do homem sem nome, mas por todos conhecido como o ABOMINAVEL MATADOR  DE PASSARINHOS.  Era, sim, um individuo  odiado pelos métodos (cruéis) que  praticava nas matas de toda região. O seu jeito de prender os pássaros no alçapão traiçoeiro (usando para isso o visco peçonhento da jaca dura) e descarregar sobre o ouvido um tiro de arma de fogo, era conhecido (de ponta-a-ponta) pelo menos nos arredores da cidade. Ele e seu cão, filho de um casal de vira-latas, sem nenhuma linhagem, senão um animal das trevas, em estado organicamente selvagem, como se tivesse sido gerado num laboratório.

A ESPINGARDA DE CANO DE OURO – Dele era uma espingarda de pressão, estilo caseiro. Tinha um cachorro de caça, deu-lhe o nome de BUSÍRES, era tratado a pão-de-ló, foi busca-lo na mitologia grega, sabendo-o cruel na busca de pássaros feridos. Na mitologia romana, tinha as muitas formas de cachorro e de besta a expelir lâminas de fogo pelo traseiro. Às vezes o cachorro do  abominável tomava a forma de porco rabugento, e logo se via a quem ele tinha a quem puxar.(Era incrível a cumplicidade do dono com o cachorro).  Quando animal perambulava solto no meio dos cachorros vadios, geralmente em noites de Lua cheia, tomava a forma de vampiro a beber o sangue dos ratos.  O desgraçado tinha várias espingardas, mas a preferida, a que estava com ele naquela hora do trem vitoriense, era foliada a ouro, não no punho, mas na ponta do cano, por onde o chumbo negro e quente saia na direção certeira do alvo distraído. Nisso, o hermafrodita do mal se mostrava imitador fiel das hostes de Mao Tsé-Tung: “O poder está na ponta da espingarda”. O caçador era pior que a fera, porque nele dominava a fera amestrada por ele próprio.

AS MALDIÇÕES DO TREM – O ignóbil – o corpo dele se contorcia na estação de trens como uma cobra sem cabeça –  tinha também por mania colocar nas paredes de sua casa, como seu maior troféu de caçador, cabeças, asas e olhos dos passarinhos, não daqueles mais idosos, mas daqueles recém saídos dos ninhos. Das suas perversidades assim se descreve: Primeiro  ele dava um tiro nas asas do passarinho, para que ele nunca mais voasse.

(Fecharei momentaneamente a cortina desta cenografia um tanto macabra para lembrar, me associando em arrimo, embora de forma resumida, ao pensamento metafísico de Gaston Bachelard, no seu belo livro O AR E OS SONHOS, quando ele nos fala da imagem do pássaro, metaforizando as asas. Eu veria como inteiramente incompleta esta narrativa que envolve os pássaros e suas asas  sem um retorno ao capitulo magistral dedicado à POÉTICA DAS ASAS e às citações que o autor faz da obra, também genial, de Toussenel. “O pássaro, diz ele, vivo, gracioso, ligeiro, reflete de preferência, as imagens adoradas, jovens, suaves e puras”.)

A seguir, dava outro tiro, de um chumbo só, nos dois ouvidos, para que ele jamais ouvisse a queda d´água nos rubros veios da mata, desfeita para sempre a sua forma de ouvir – 40 vezes mais real e precisa – que aos humanos não foi dada tamanha faculdade (eu diria: dádiva). Depois, como epílogo de uma dor sem limites, tamanho seus impulsos, ele arrancava, lentamente,  com um canivete afiado como uma agulha os olhos dos passarinho. Há quem diga até que não era um canivete só, era sim uma mistura de canivete com uma clava de metal, daquelas que se conhece há 12 mil anos A.C.

MEU DEUS DOS SERES DESGRAÇADOS!!!: Para quê tanto ódio às aves do céu? Para que os chamados SABIÁS LARANJEIRAS, os GALOS DE CAMPINA, os Acauãs, os Amassa Barro, as Andorinhas do Campo, os Anús Brancos, os Beija Flor Pretos e Brancos, os Bem te vis rajados, os Canários da Terra, os Sabiás, os Canários do Brejo, os Garibaldis com filhotes, as Lavadeiras de Cabeça Branca (Para espanto de todos: até as Lavadeiras de Cabeças Brancas!) , os Guriatãs,    jamais vissem a cor das orquídeas e das samambaias. Intacto, o ABOMINAVEL deixava apenas o coração arfante das aves.  Dessa vez a crueldade tinha um significado, não para causar tremenda dor naqueles minúsculos filhos da Natureza, mas para que os figurantes humanos dessa história (embora aqui não nominados) assistissem, sem nada poder fazer, como se mata um passarinho.

UM CÃO MUITO ESTRANHO – Havia algo de muito estranho nesse cão, ele não  olhava nunca para as pessoas ao seu redor,  nem bebia água, salvo a dos esgotos da madrugada. Mas sentia o faro de passarinhos, até aqueles em vôos acima das colinas.

MALDITO CAÇADOR – Outros sonoros protestos dos passageiros do trem das 15 horas eram ouvidos: NÃO DEXEM ESSE CARA ENTRAR.!!! Uma outra voz exclamou, dessa vez uma mulher: Joga pedra nessa pústula!!! Uma terceira voz, sendo agora de uma criança: Fechem as portas desse trem!!! Desinfeta, caçador maldito!!! Ouvia-se também a voz de um ancião: EU TE ESCONJURO, E QUE CAIA SOBRE A TUA CABEÇA A MALDIÇÃO DA ESFINGE SOBRE HÉRACLES.

PROFUNDO ALIVIO – Imediatamente, o maldito se pôs em retirada, ele e seu cão,  deixando um borrão de enxofre e seu cheiro de sepultura aberta na rocha irreguilar do túnel que dá para o Pátio do Livramento. Depois de tudo isso, todos se mostraram aliviados. E o maquinista, sem até hoje saber, (Santa Mãe de Deus!!!)  teve o seu dia de maior sorte. Porque na marca do destino traçado pelas Eminências Celestiais, o trem vitoriense das 15 horas,  – se a história fosse contada de outra forma – estaria condenado a pegar fogo por inteiro, dentro daquele túnel escuro, e dele não sobraria sequer a fumaça negra  e os vapores da sua caldeira.  Depois disso, a ponta do sol avermelhado tocou o horizonte, e os passageiros do trem vitoriense das 15 horas estão aí para contar. (É difícil acreditar que o fim dessa história tenha chegado).

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