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O estado de exceção permanente

A continuidade entre regime autoritário e estado de exceção deixa entrever uma questão central: por que as ditaduras e as violações contínuas de direitos humanos são necessárias?

por Eduardo Campos Lima

A peça morro como um país – Cenas sobre a violência de Estado, da Kiwi Companhia Teatral, materializa pesquisas e reflexões feitas pelo grupo sobre as ditaduras do século 20, violações de direitos humanos e autoritarismo, relacionando tais elementos ao funcionamento padrão do modo de produção capitalista.

A peça, que conta com a atriz Fernanda Azevedo, define como fundamental o conceito de estado de exceção permanente, a partir do qual todo um eixo temático é constituído. “Procuramos discutir a suspensão de direitos que acontece em momentos considerados de normalidade democrática. É o caso, por exemplo, da Lei Geral da Copa: trata- se de um quadro em que um pedaço do ordenamento jurídico entra em suspensão para atender a interesses econômicos e políticos”, aponta o diretor Fernando Kinas.

“São abordados, nessa camada da encenação, aspectos da violência de Estado contemporânea, como a repressão a movimentos sociais e os abusos policiais cometidos em nome da segurança”, como lembra Luiz Nunes, produtor e assistente de direção.

Outro bloco de assuntos é o da suspensão do regime democrático no sentido clássico. “Aí falamos sobre nosso último período ditatorial, de 1964 a 1985 – mas também ampliamos o enfoque para modelos autoritários de outros lugares e outras épocas”, explica Kinas.

Um texto-chave desse eixo da peça é o que dá nome à montagem, Morro Como um País, de autoria do escritor grego Dimitris Dimitriadis, que se refere à ditadura dos coronéis, de 1967 a 1974, na Grécia. Igualmente importantes são os depoimentos de ex-presos políticos latino-americanos, como o do uruguaio Mauricio Rosencof, um dos fundados dos Tupamaros (ver quadro com trecho de seu depoimento incluído na encenação).

As ligações entre as ditaduras do passado e as violações do presente – ou seja, entre suspensão do regime democrático e estado de exceção permanente – são propostas por diferentes vias. Ao longo de toda a encenação, por exemplo, os episódios são pontuados por denúncias da histórica participação estadunidense no estabelecimento das ditaduras e das reverberações da presente hegemonia dos EUA.

“Quando o público entra no espaço, o primeiro impacto que recebe é o de imagens relativas à invasão dos Estados Unidos ao Iraque. A projeção mostra o assassinato de vários civis em Bagdá, no ano de 2007, em imagens captadas por helicóptero Apache que vazaram das Forças Armadas estadunidenses”, afirma o diretor. “A presença dos Estados Unidos é central nesse modelo de violação de direitos.”

Em um plano mais profundo, a continuidade entre regime autoritário e estado de exceção permanente deixa entrever uma questão central: por que as ditaduras e as violações contínuas de direitos humanos são necessárias? A peça deixa claro que o funcionamento regular do modo de produção capitalista é garantido de todos os modos quando há qualquer sinal de que ele pode ser ameaçado – seja em um plano mais amplo, da sociedade como um todo, seja em um setor mais específico, como um bairro de periferia, por exemplo. Tal mecanismo é isolado e exposto pela encenação.

Devido a essa leitura, o grupo construiu parcerias com movimentos sociais que militam pela verdade, memória e justiça, como a Frente de Esculacho Popular, e com grupos nascidos de violações contemporâneas, como o Movimento Mães de Maio.

“Movimentos sociais contemporâneos que fazem referência explícita ao período da ditadura, mesmo que se refiram especificamente a torturadores e empresários que foram coniventes ou apoiadores do regime, estão discutindo também qual sociedade queremos criar hoje”, aponta Kinas.

O produtivo contato da Kiwi com esses parceiros extrapolou a simples troca de informações de pesquisa para a peça. “A partir de debates e reflexões conjuntas surgiram pontos de discurso em comum, e isso é transposto para a cena”, define o diretor.

Depoimentos

 “No palco, poucos objetos. Entre eles, um relógio de barbeiro e um projetor, que é operado ao longo da peça pela única atriz em cena. Ela entra em cena vestida de preto e usando várias camisetas sobrepostas e, logo no início, retira uma a uma, revelando a cada vez a fotografia de uma vítima da repressão do Estado. Vemos, por exemplo, Vladimir Herzog e Alexandre Vannucchi Leme.

A peça é composta por diversas cenas independentes. Ao longo delas, numerosas fontes e referências demonstram que a barbárie, assim como a história, é cíclica e contínua. Vemos uma grande diversidade de imagens projetadas no palco (que vão desde documentos da CIA apoiando a ditadura militar brasileira, passando por fotos do papa João Paulo II com o ex-presidente Fernando Collor, até imagens de negros escravizados), gravações de rádio, canções e, não só depoimentos de vítimas de ontem e hoje, como também a transcrição de conversas do ex-presidente Ernesto Geisel (veja o trecho).

Todos esses elementos tecem a grande colcha de retalhos que figura um estado de exceção, de violência e extinção da liberdade, que se tornou regra. Liga o incêndio da UNE em 1964 com os das favelas da cidade de São Paulo, em 2012.

Liga as histórias das mães de vítimas da ditadura às histórias das mães que perdem seus filhos assassinados nas periferias. E aponta que toda esta situação foi e é apoiada e patrocinada por grandes empresas como a Rede Globo e a Ultragaz.

A circularidade da peça e da história é reforçada em seu final. A atriz veste novamente as camisetas despidas no início da peça. E, assim como faz no início, diz que horas são e termina a peça afirmando ser os que foram – unindo, novamente, o passado e o presente.” Maíra Malosso, pesquisadora de teatro

 

“Morro Como um País faz uma importante investigação sobre a necessidade e a permanência da exploração e da opressão ao longo da história, a serviço de uma classe social. O espetáculo traz diversas referências verídicas e seus quadros são apresentados como em um jogo, de forma que todos os presentes sejam inseridos, convidados a uma reflexão mais ampla sobre a violência política. Através de suas cenas, dialoga com as inquietações que nos permeiam no exercício de análise crítica da realidade.

Vale lembrar que nos últimos anos a Kiwi Cia. de Teatro tem participado amplamente de inúmeras lutas da classe trabalhadora organizada e não poderia deixar de associar essa pesquisa às barbáries e perseguições que a nossa classe tem sofrido nos últimos tempos. Por isso, citamos uma excelente cena em que a atriz/militante denuncia os incêndios criminosos em favelas ocorridos nas áreas mais visadas pela especulação imobiliária nas grandes capitais.

É por meio da não contextualização de algumas das referências, passíveis de identificação direta, que se dá a maior provocação do trabalho: a violação de direitos humanos e as estratégias de controle social tornaram-se intrínsecas à estrutura de Estado, seja em um regime autoritário, seja em um dito democrático de direito. Vivemos em um estado de exceção permanente.” Osvaldo Pinheiro e Paula Cortezia – Cia. Estável de Teatro

 

“Somos convidados a viajar a um país de mulheres estéreis e de crianças que são criadas para virarem comida, a um país sem língua, porque ela deixou de ser falada, foi proibida. Um país sem nome, mas que poderia muito bem ser a Grécia dos coronéis, a Argentina, o Chile, ou o Brasil. O Brasil da escravidão, do Estado Novo, da Ditadura Militar.

O Brasil do Pinheirinho, dos incêndios em favelas e dos esquadrões da morte de ontem e de hoje. É assim a nova peça da Kiwi Companhia de Teatro, que como no relógio ao fundo do palco – que gira ao contrário – nos leva a uma viagem através do tempo, oscilando entre passado e presente de forma quase que natural. Leva a um país detestável e, tristemente, nos abre os olhos frente uma dura verdade: esse país pode muito bem ser o Brasil de hoje.

Na contracorrente do esquecimento, do silêncio e daqueles que querem nos fazer acreditar que o passado fica no passado, faz relações que de tão pungentes nos parecem óbvias. Não, “não estamos em paz” e o “passado abandonado jamais se torna passado”. Constrói uma narrativa simbólica e real mostrando como foi montado o estado de exceção em que vivemos hoje. Um estado de exceção que ousamos não aceitar. Imperdível, angustiante e essencial. Para quem, como nós, tem vergonha de viver em um país sem memória” Paula Sacchetta, Frente de Esculacho Popular.

(ECL)

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