Documentário alega que imagem icônica da “garota Napalm” no Vietnã foi creditada ao fotógrafo errado

Imagem teria sido feita por um fotógrafo freelancer vietnamita, que nunca recebeu o devido crédito

Cena do filme “The stringer” — Foto: Divulgação

Um documentário lançado no Festival de Sundance, neste domingo, alega que a icônica fotografia da “Garota Napalm”, tirada durante a Guerra do Vietnã, foi deliberadamente atribuída ao fotógrafo errado — alegação negada pela Associated Press. O diretor de “The Stringer”, Bao Nguyen, disse na première que é “fundamental” “partilhar esta história com o mundo”.

Segundo o filme, a imagem que ajudou a mudar a percepção global sobre a Guerra do Vietnã na verdade foi tirada por um freelancer local pouco conhecido. A fotografia mostra um grupo de pessoas fugindo de um ataque de Napalm, entre elas uma menina de nove anos, nua. Nick Ut, o fotógrafo da AP a quem a fotografia foi atribuída ganhou um Prêmio Pulitzer pelo trabalho e sempre afirmou que tinha sido ele a tirar a fotografia. O advogado de Ut tentou impedir a estreia do filme.

A AP publicou um relatório na semana passada detalhando a sua própria investigação sobre a controvérsia, que não encontrou “nada que prove que Nick Ut não tirou a foto”, mas disse que ainda não tinha tido acesso à pesquisa do filme.

“A AP está pronta para analisar todas e quaisquer provas e novas informações sobre esta fotografia”, afirmou a organização numa declaração atualizada no domingo.

A ideia de realizar o filme surgiu quando Carl Robinson, o editor de fotografia de serviço no gabinete da AP em Saigon no dia em que a imagem foi captada, começou a falar sobre a proveniência da fotografia. No filme, Robinson diz que recebeu a ordem de escrever uma legenda atribuindo a fotografia a Ut por Horst Faas, o chefe de fotografia da AP em Saigon, duas vezes vencedor do Prémio Pulitzer.

“Comecei a escrever a legenda… Horst Faas, que estava mesmo ao meu lado, disse: ‘Nick Ut. Escreva Nick Ut’”, conta ele.

Depois de entrevistar Robinson, os realizadores identificaram o nome, há muito perdido, de um fotógrafo vietnamita freelancer que aparece noutras fotografias da infame cena em Trang Bang, a 8 de junho de 1972. Acabaram por encontrar Nguyen Thanh Nghe, que afirma no filme ter a certeza de que foi ele quem tirou a fotografia.

“Nick Ut veio comigo na missão. Mas não foi ele que tirou a fotografia… A foto era minha”, diz ele.

O pânico de Phan Th? Kim Phúc, aos 9 anos, imagem atribuída ao fotógrafo Nick Ult, em 1972 — Foto: Arquivo/Nick Ult/AP

O diretor executivo Gary Knight, um fotojornalista que liderou a investigação do filme, disse à AFP que era “fundamental” que os membros dos meios de comunicação social “se responsabilizassem”. “A fotografia em questão é uma das mais importantes já feitas, certamente da guerra”, disse ele.

“Conseguir esse reconhecimento (para Nghe)… foi sempre importante para nós, enquanto equipe de filmagem, partilhar esta história com o mundo”, acrescentou o realizador Bao Nguyen.

Um questionamento levantado em resposta às novas alegações foi porque o verdadeiro autor demorou tanto tempo a falar. Robinson diz que, na época, teve medo de perder seu emprego. Disse ainda que, depois, sentiu que era “tarde demais” para falar, até descobrir o nome do freelancer décadas mais tarde.

O advogado de Ut, Jim Hornstein, disse à AFP que Robinson tinha uma “vingança de 50 anos contra Nick Ut, a AP e Horst Faas” e afirmou que “em breve será aberta uma ação por difamação contra os realizadores do filme”.

No documentário, a família de Nghe diz que ele falava constantemente em casa do seu arrependimento por ter perdido o crédito pela fotografia. “Fiquei aborrecido. Trabalhei muito para conseguir, mas aquele sujeito ficou com tudo. Teve reconhecimento, prêmios”.

Nguyen, o realizador do filme, afirma que a ideia de que a família “só está falando agora” é uma espécie de falácia. “Em seus próprios círculos, já dizem isto há muito tempo”, disse Nguyen. Knight disse que sempre houve “um enorme desequilíbrio de poder no jornalismo”. “O jornalismo tem sido dominado por homens brancos, ocidentais e heterossexuais, desde que estou nele, e até antes”, disse ele.

A investigação

Os realizadores também contrataram a INDEX, uma organização sem fins lucrativos com sede na França, especializada em investigações forenses, que concluiu ser “altamente improvável” que Ut estivesse na posição correta para tirar a fotografia.

A última declaração da AP reitera o seu pedido para que os realizadores partilhem as provas, incluindo os relatos de testemunhas oculares e o relatório do INDEX.

“Quando tomámos conhecimento deste filme e das suas alegações em geral, levámos muito a sério e começamos a investigar”, afirma o comunicado. “Não podemos afirmar mais claramente que a Associated Press só está interessada nos fatos e numa história verdadeira desta fotografia icônica.”

AFP – O GLOBO

Déficit do Tesouro é maior do que sugerem balanços oficiais

Folha de São Paulo

Manobras orçamentárias – para inflar receitas, mascarar despesas públicas e driblar limites legais – começaram a ser utilizadas em grande escala no final do segundo governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT), tornaram-se prática corrente da também petista Dilma Rousseff e voltaram com toda força na ofensiva frustrada de Jair Bolsonaro (PL) pela reeleição.

Como o acúmulo histórico desses expedientes distorce resultados e pode levar a comparações indevidas, estudiosos passaram a fazer análises mais sofisticadas dos balanços do Tesouro Nacional, expurgando não só os efeitos da contabilidade criativa como os de eventos extraordinários, caso da pandemia. Tais cálculos se mostram novamente úteis neste terceiro mandato de Lula.

A administração petista tem propagado que conseguiu reduzir o déficit primário (excluindo gastos com juros) a 0,1% do PIB no ano passado, algo como R$ 11 bilhões, o que parece um tremendo progresso ante os 2,4% de 2023.

Já estão excluídos dessa conta cerca de R$ 30 bilhões em despesas classificadas como extraordinárias para o enfrentamento de tragédias climáticas. Há mais a considerar, entretanto.

Como mostrou na Folha o colunista Marcos Mendes, o rombo subiria a 0,9% se contabilizados, além dos dispêndios emergenciais, desembolsos relativos a 2024 antecipados em 2023 – quando não estavam em vigor as atuais regras fiscais – e receitas adiadas de um ano para o outro. Em outras palavras, o governo piorou o resultado de 2023 para obter melhora mais acentuada em 2024.

Segundo estimativas da Instituição Fiscal Independente (IFI), ligada ao Senado, que descontam a influência de fatores atípicos, as despesas do governo cresceram 4,3% acima da inflação no ano passado, depois de uma alta de descomunais 11% no retrasado.

Outro colunista deste jornal, Bráulio Borges, chamou a atenção para estudo do próprio Tesouro Nacional acerca do chamado resultado fiscal estrutural, que expurga fatores temporários e cíclicos para aferir a real evolução da política orçamentária.

Por essa metodologia, o superávit de 0,55% do PIB oficialmente apurado no último ano Bolsonaro – com a ajuda da alta do petróleo e de um calote nos precatórios – dá lugar a um déficit de 0,8% do produto potencial.

Ainda que tal cálculo possa sustentar o discurso político da herança desfavorável recebida, é inescapável que os números pioraram dramaticamente sob Lula, com déficit de 2% no primeiro ano de governo e de 1,16% nos três primeiros trimestres de 2024.

O que se vê com clareza, portanto, é que a gestão petista foi iniciada com aumento inaudito do gasto público, que hoje se reflete em alta da inflação e dos juros. Obter uma melhora na comparação com a calamidade de 2023 significa pouco na busca pelo reequilíbrio orçamentário. Sem ajustes bem mais profundos e rápidos, o governo levará o país a uma crise econômica.

Vídeo: Nas sombras do Holocausto o peso da memória e o legado da liberdade. Por Flávio Chaves

  Por Flávio Chaves – Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. Foi Delegado Federal/Minc  – No dia 27 de janeiro, o mundo se une para relembrar um dos episódios mais sombrios da história da humanidade: o Holocausto. Esta data, instituída pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 2005, marca a libertação do campo de concentração de Auschwitz-Birkenau, em 1945. Mais do que um dia de memória, é uma ocasião para refletir sobre os horrores do passado e reafirmar o compromisso com os valores universais da dignidade, da liberdade e da convivência pacífica.

Entre 1941 e 1945, o regime nazista exterminou cerca de seis milhões de judeus, além de milhões de outras vítimas, incluindo ciganos, pessoas com deficiência, homossexuais, opositores políticos e prisioneiros de guerra. Essas vidas perdidas representam não apenas estatísticas, mas sonhos interrompidos, famílias destruídas e uma ferida profunda na história da humanidade.

Lembrar essas vítimas é essencial para que nunca mais permitamos que tamanha barbárie se repita. A memória do Holocausto nos convoca à empatia, ao reconhecimento da nossa fragilidade enquanto sociedade e à luta incessante contra o antissemitismo, o racismo, a xenofobia e qualquer forma de discriminação.

Em meio à crueldade do Holocausto, também emergiram histórias de coragem e humanidade. Pessoas comuns que, arriscando suas vidas, esconderam judeus, contrabandearam alimentos e desafiaram as autoridades para salvar vidas. Nomes como Oskar Schindler, que salvou mais de mil judeus, e de tantas outras figuras menos conhecidas nos lembram que mesmo diante do horror, a bondade humana pode prevalecer.

Essas histórias também nos desafiam a refletir sobre o que é ser humano. Elas nos inspiram a agir em favor do outro, a respeitar as diferenças e a valorizar o direito à vida como algo inalienável.

O Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto também é um convite para celebrar a liberdade. Auschwitz, que simboliza o ápice da desumanidade, também é um lembrete de que a libertação é possível. A liberdade conquistada em 1945 é um tributo à resistência das vítimas e à luta por um mundo onde nenhum ser humano seja tratado como inferior.

Reafirmar a liberdade, neste contexto, significa combater ideologias de ódio, defender os direitos humanos e proteger a democracia. Significa reconhecer que a diversidade é uma riqueza, não uma ameaça.

Em um mundo que ainda enfrenta desafios como o crescimento de discursos de ódio e o aumento do negacionismo, é nosso dever educar as futuras gerações sobre o Holocausto. A memória coletiva é uma ferramenta poderosa para impedir que os erros do passado sejam repetidos.

Que o dia 27 de janeiro seja mais do que um momento de memória. Que seja um chamado à ação, à solidariedade e à construção de um mundo onde o respeito e a humanidade sejam valores inegociáveis.

“Nunca mais” não é apenas um slogan. É um compromisso. Um compromisso de lembrar, de educar, de agir. Que a memória das vítimas do Holocausto nos inspire a criar uma sociedade onde o ódio não tenha espaço e onde a liberdade floresça para todos.

Vídeo: