Ambas, místicas. A mais nova, devota de Antônio, era rezadeira de comprovada competência. Dizem que tinha espiritualidade desenvolvida, mas jamais se ouviu de sua boca qualquer insinuação de que tivesse intimidades com os planos superiores. Afirmava, apenas, que curar, através da reza, era dom que recebera.

Numa época em que os médicos equilaviam a semideuses nas pequenas cidades, pois se recusavam a trabalhar naqueles fins de mundo, dona Hermínia rezava fazendo o sinal da cruz, com um raminho de arruda, nas pessoas. Invocava os poderes de Santo Antônio, do Arcanjo Miguel e de Nossa Senhora do Desterro, para que levassem para longe as doenças, pragas e maldições.

Durante as rezas milagrosas, pedia a intercessão do Sagrado e, ao final, determinava que a pessoa molestada enterrasse o arruda, agora murcho, como quem enterra o mal. A cura, dependendo da pessoa, chegava em questão de horas, bastava assim ter fé. Ela me curou de um cobreiro.

Hermínia, essa mais nova, mandou erguer diante de sua casa, no Sítio Paus Pretos, uma capela para o santo de devoção. O povo da cidade andava quase uma légua para acender velas no altar do franciscano e pedir bênçãos.

– O que pedir a Santo Antônio, com fé, ele lhe dá, aconselhava.

A outra Hermínia, mais velha, porém contemporânea dessa primeira, era chamada de Mãe, pela cidade inteira. Não havia criança, em décadas e décadas, que não tivesse passado pelas mãos daquela parteira. Era convocada, a qualquer hora do dia ou da noite, para ajudar mulheres a dar à luz. Ia até para lugares longínquos, com acessos complicados, às vezes seguia montada num cavalo.

Por mais que os bebês estivessem enlaçados ou em posição complicada para nascer, Mãe Hermínia conseguia salvar a criança e a parturiente. Agia com destreza e muita oração.  De cabelos brancos, baixinha, óculos na ponta do nariz, nos últimos anos andava devagar por conta da idade. Parecia uma personagem eterna se movendo. A imagem da matriarca impunha um respeito natural, tinha uma presença forte, carregada de solenidade e silêncio. Uma doçura, incapaz de dizer grosserias. Eu nasci pelas suas mãos.

Era uma tradição as crianças da cidade, agora crescidas, passarem pela casa dela: minha bênção, Mãe Hermínia! Ela abençoava, rindo:

– Meu filho, você é filho de quem?

Devota de José, o padroeiro da cidade, Mãe Hermínia era musicista autodidata. Tocava cravo, à noite, na Matriz que ficava diante de sua casa. Era um piano antigo e pequeno, sem pedal. Ela parecia beliscar as teclas finas, como se tocasse um violão. Novena de São José não começava em Bodocó sem os primeiros acordes do cravo.

Mulheres sábias, experientes, as duas Hermínias tinham consciência de suas naturezas, mas se mantinham humildes, prestando serviços a outras mulheres. Hoje, elas existem apenas em estado de palavras.

Deixá-las no esquecimento é como se a cidade rejeitasse o que herdou. Esquecê-las é não acolher a natureza mágica daquelas duas que guardavam, no reino do coração, a caridade e as habilidades antigas, de suas ancestrais.

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Cícero Belmar é escritor e jornalista. Autor de contos, romances, biografias, peças de teatro e livros para crianças e jovens. Pernambucano, mora no Recife. Já ganhou duas vezes o Prêmio Literário Lucilo Varejão, da Fundação de Cultura da Prefeitura do Recife; e outras duas vezes o Prêmio de Ficção da Academia Pernambucana de Letras. É membro da Academia Pernambucana de Letras.