O desespero com o fim da mocidade, na poesia modernista de Abgar Renault 

CLUBE DE POETAS: ABGAR RENAULT

Abgar Renault, grande poeta mineiro

O professor, tradutor, ensaísta e poeta mineiro Abgar de Castro Araújo Renault (1901-1995), ex-presidente da Academia Brasileira de Letras, no poema “Fim”, nos dá sua visão do que significou o término de sua mocidade.

FIM
Abgar Renault

O que eu perdi não foi um sonho bom,
não foi o fruto a embebedar meus lábios,
não foi uma canção de raro som,
nem a graça de alguns momentos sábios.

O que eu perdi, como quem perde uma outra infância,
foi o sentido do enternecimento,
foi a felicidade da ignorância, foi, em verdade,
na minha carne e no meu pensamento,
a última rubra flor do fim da mocidade.

E dói – não esse gesto ausente, a que se apagam
as flores mais solares, mas uma hora,
– flor de momento numa bela aurora –
hora longínqua, esquiva e para sempre morta,
em cuja escura, inacessível porta,
noturnos olhos cegamente vagam.