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Favas contadas

Até mesmo os opositores de Temer dão como certa a vitória do presidente no plenário da Câmara, que vai decidir se a denúncia por corrupção contra ele deve ser encaminhada ao STF

Crédito: DIDA SAMPAIO

Por Eduardo Militão

O recesso parlamentar foi especialmente fatigante para o presidente Michel Temer. Além de ter de empacotar medidas controversas na área econômica, nas duas últimas semanas ele dedicou parte importante de sua agenda, inclusive os finais de semana, para intensificar o cortejo a deputados e lideranças partidárias. Como muitos deles estão longe de Brasília, o peemedebista passou horas pendurado ao telefone tentando, mesmo à distância, conquistar aliados para conseguir rejeitar na Câmara a denúncia de corrupção passiva apresentada pela Procuradoria-Geral da República contra si. Ele é acusado de receber propina da JBS em troca de uma solução de problemas da empresa com a Petrobras e o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade). A matéria deve ser apreciada na próxima terça-feira 2. Segundo interlocutores do presidente, ao cabalar votos destinados a sepultar a denúncia, Temer ouviu demandas das mais variadas: vão desde os já repisados pedidos de liberação de emendas e de cargos até a solicitação de selfies e gravações em vídeo para prefeitos interessados dar uma turbinada na imagem – acredite, demonstrar proximidade com o poder rende votos, muitos votos. Em ano pré-eleitoral, é tudo o que mais desejam os gestores municipais. Hábil articulador político, Temer sabe como poucos recitar palavras capazes de soar como música aos ouvidos dos políticos. O esforço não tem sido em vão. Pelo que indicam os mapas feitos pelo chefe da Casa Civil, Eliseu Padilha, o governo tem apoios de sobra para enterrar a primeira denúncia do procurador-geral, Rodrigo Janot, contra Temer. O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), que também passou a maior parte de seus últimos dias em Brasília e é quem vai presidir a sessão de apreciação da denúncia, vaticinou a interlocutores: a primeira batalha do presidente no Congresso já foi vencida. É favas contadas. Mesmo os mais empedernidos oposicionistas já jogaram a toalha – ao menos nesse primeiro round.

Ou seja, Temer pode não ser um presidente popular, o governo pode não ser bem avaliado pela população, mas ele é bom de voto no Legislativo e, ao contrário dos estertores da gestão Dilma Rousseff, consegue controlar as rédeas da governabilidade. Para a denúncia prosseguir no Supremo – e, consequentemente, Temer ser afastado do cargo por seis meses – são necessários 342 apoios na Câmara. Qualquer resultado diferente, incluindo uma abstenção em massa, beneficia o peemedebista acusado por Rodrigo Janot de ser o destinatário final de uma mala de R$ 500 mil, portada por seu ex-assessor Rodrigo Rocha Loures. É o que acontecerá, salvo uma hecatombe.

Na quinta-feira 27, sites que monitoravam a indicação dos votos dos deputados, mantidos por artistas e intelectuais refratários a Temer, indicavam apenas 207 votos pela continuidade do processo criminal contra o presidente no Supremo Tribunal Federal (STF). Àquela altura, havia 147 indecisos e 159 apoios a Temer. Pelo sim pelo não, o governo raspa o cofre. Na tentativa de assegurar a vitória, sem sobressaltos, o governo liberou R$ 15 bilhões em emendas parlamentares. Com o triunfo na Câmara, Temer poderá retomar sua agenda econômica pelo menos até a apreciação de nova denúncia contra ele por obstrução da Justiça a ser feita pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot.

O PREÇO DA CRISE

O adiamento de reformas estruturantes, como a da Previdência, já tem custado caro ao País. De acordo com dados do Ministério da Fazenda, deixarão de ser economizados R$ 18,6 bilhões se a proposta só for aprovada depois das eleições de 2018. A falta de dinheiro já tem afetado as ações da Polícia Federal – não bastassem os problemas já conhecidos com as confecções de passaportes, que só agora começam a ser normalizadas, em doses homeopáticas. Na última semana, o Ministro da Justiça, Torquato Jardim, entoou o sinal de alerta. Segundo ele, após os cortes e contingenciamentos, a Polícia Federal não dispõe de verba suficiente para realizar todas as operações necessárias. Para continuar a operar, as mais importantes serão selecionadas. Em português claro: a Lava Jato será prejudicada. O presidente Temer já foi informado sobre o problema. “Tenho que ser honesto, sincero e transparente. Poderá implicar em processos seletivos de ações, não realizar todas as operações ou não realizar em suas extensões totais, mas apenas parcialmente”, afirmou o Torquato. Na mesma entrevista, o ministro disse que o contingenciamento aplicado à PF foi de R$ 400 milhões.

Com o objetivo de economizar R$ 1 bilhão por ano, o governo prepara uma Medida Provisória com um Plano de Demissão Voluntária (PDV). A medida é polêmica porque pode ter efeito contrário: retirar do governo exatamente os melhores quadros, já que os que pouco produzem não terão coragem de sair de um emprego com estabilidade para se aventurar na iniciativa privada em pleno momento de incertezas econômicas.

O dia “D” de Temer
Como será a sessão em que o mandato do peemedebista estará em jogo:

Início
9h é o horário previsto para a abertura da sessão extraordinária na quarta-feira 2 sobre a continuidade ou não do processo contra Michel Temer no Supremo Tribunal Federal (STF)

Discursos
Nas tribunas, parlamentares poderão debater a denúncia contra Temer na parte inicial

Encaminhamentos
Nos microfones, os líderes partidários encaminharão os votos contra ou a favor da continuidade do processo contra Temer

Mesa
Na Mesa, a sessão será conduzida pelo presidente da Casa, Rodrigo Maia

Início da votação
A votação pode começar quando houver 342 deputados registrados com presença no painel da Casa

“Sim” ou “Não”?
Para prosseguir com o processo contra Temer, os deputados têm de votar “Não” ao parecer da CCJ que pede o arquivamento do processo

Continuidade

Para que a denúncia contra Temer siga adiante, é obrigatório que haja pelo menos 342 votos “Não”

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