Um único momento de beleza justifica a vida inteira

Conista Magno Martins
Não é fácil resistir a tantas emoções na chegada ao fim de um governo. Em Pernambuco, o coração de Eduardo Campos já passou no teste. Nos últimos 15 dias, foi uma despedida atrás da outra no Recife, no Agreste, na Mata e no Sertão.

Na maratona do adeus, mais de 100 discursos, cada um mais forte emocionalmente do que outro.Rubem Alves diz que toda separação é triste. Separar-se do poder, então, nem se fala! A separação é triste especialmente porque guarda a memória de tempos felizes.

O tempo de Eduardo é de saudade. Saudade da equipe que governou com ele sete anos, saudade da rotina quase impossível de se cumprir todos os dias.

Quando o homem governa o seu Estado passa à história, não é mais o mesmo. Ele amou tanto o que fez que sofre neste momento a dialética entre a alegria do reencontro para o convívio com os filhos e a dor da separação da caneta do poder, o poder que transforma, o poder que emana em nome do povo.

Mas quem não pode suportar a dor da separação, não está preparado para a vida. Governar para Eduardo era prazer? Sim, ele deixava transparecer que era mais que prazer.

O prazer é único, não se repete. Aquele que foi, já foi. A esta altura, se preparando para transmitir a faixa para João Lyra Neto, Eduardo deve estar mais alegre do que triste.

Porque a alegria, na verdade, é aquilo que só existe pela lembrança. E a lembrança de grandes momentos em sete anos não sai fácil da memória, notadamente quando se faz um balanço positivo.

Diz o poeta que um único momento de beleza e amor justifica a vida inteira. Este momento Eduardo viveu pela manhã na igreja.

Quando, surpreendido por uma homenagem dos filhos, foi às lágrimas. Pedro, seu terceiro filho, cantou a música “Faz um milagre em mim”, de Régis Danese.

A letra fala sobre a passagem bíblica em que Zaqueu, para ver uma pregação de Jesus, precisou subir numa árvore por causa da baixa estatura. O gesto chamou a atenção de Jesus, que o abençoou.

A vida não é uma sonata que, para realizar a sua beleza, precisa ser tocada até o fim. Pelo contrário, cada momento de beleza vivido e amado, por mais efêmero que seja, é uma experiência completa que está destinada à eternidade.

Eduardo vive muitos momentos de emoção no apagar das luzes do seu governo, que parece ter começado ontem, mas já se vão sete anos. Mas aprendeu, com o gesto do seu filho hoje, que um único momento de beleza e amor justifica a vida inteira.

Para o governador, que daqui a pouco fala para uma multidão da sacada do Palácio das Princesas, com um discurso em tom saudosista, fica a lição do poeta, que disse que na saudade descobrimos que pedaços de nós já ficaram para trás.

E descobrimos, na saudade, uma coisa estranha: desejamos encontrar, no futuro, aquilo que já experimentamos como alegria, no passado.

Só podemos amar o que um dia já tivemos.