Dorrit Harazim, O Globo
“A nação está em choque. Isso não acontece aqui”, noticiou a respeitada âncora da televisão da Islândia Thóra Arnórsdóttir. Mas aconteceu: três meses atrás, um homem fora morto a tiros pela polícia do país. Ele estava armado no seu apartamento da capital, Reykjavík, e ameaçava os vizinhos.
Primeiro a polícia tentara rendê-lo jogando bombas de gás lacrimogênio. Sem efeito. Depois evacuou os imóveis da vizinhança. Por fim, para invadir o prédio e imobilizar o suspeito, deslocou doze agentes de uma força especial — o Esquadrão Viking — única autorizada a portar armas. Eles foram recebidos a tiros.
Só então essa tropa de elite fez os disparos que chocaram a nação de 320 mil habitantes. Era a primeira vez na história da Islândia como república independente que a polícia armada do país matava alguém.
Ou seja, um único cidadão morto pela polícia em 66 anos. No Brasil, cinco pessoas morreram por dia em 2013 nas mãos da polícia. Vale repetir: por dia.
No Rio de Janeiro, estado campeão em “autos de resistência”, sinistro eufemismo herdado dos tempos da ditadura para o assassinato de opositores, houve 41 casos num único mês do ano passado.
Não por acaso, a Islândia também tem um índice baixíssimo de crimes violentos, quase idílico para os padrões selvagens da vida urbana mundo afora. Segundo dados do “Global Study on Homicide” das Nações Unidas, a taxa de homicídios na terra dos fjords jamais ficou acima de 1,8 ocorrência para cada 100.000 habitantes. E nos últimos cinco anos estabilizou-se em torno de uma incidência quase etérea: 0,3.
É sempre bom lembrar que sociedades assim existem, sobretudo na semana em que o Instituto de Segurança Pública (ISP) divulga os dados de 2013 sobre a criminalidade e a segurança no Estado do Rio de Janeiro e na capital. O quadro é sombrio e terá de ser digerido depois da folia do carnaval. Homicídios, latrocínios, assaltos a transeuntes e residências, roubos de veículos e celulares — tudo aumentou no ano passado.