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A capitania desenterra suas origens

Comunidade do Pilar foi palco de grande achado arqueológico: ossos humanos e sepulturas dos séculos 16 ou 17

Pesquisadores identificaram 13 esqueletos numa área de 176 metros quadrados, do dia 5 de janeiro último / Hélia Scheppa/JC Imagem

Pesquisadores identificaram 13 esqueletos numa área de 176 metros quadrados, do dia 5 de janeiro último

Hélia Scheppa/JC Imagem

Arqueólogos da Fundação Seridó procuravam na comunidade do Pilar vestígios deixados por antigos moradores do lugar. Esperavam encontrar alicerces de casas, pedaços de louça, cerâmica, cachimbo, moedas e cacos de vidro. Mas se depararam com um dos maiores achados do Bairro do Recife: um conjunto de sepulturas com esqueletos humanos, possivelmente dos séculos 16 ou 17. As ossadas na mesma posição e praticamente no mesmo nível do solo podem revelar a existência de um cemitério no terreno, na atual Rua de São Jorge.

Os pesquisadores identificaram 13 esqueletos numa área de 176 metros quadrados, do dia 5 de janeiro último, quando iniciaram as escavações, até ontem. Todos estão enterrados de frente para o mar, de costas para o Rio Beberibe. Não há, por enquanto, evidências de vestimentas (botões, metal, calçados) ou de túmulos e lápides. Os sepultamentos são direto no chão, afirma a coordenadora do projeto de arqueologia do Pilar e presidente da Fundação Seridó, Gabriela Martin.

 

Dos 13 esqueletos, três foram limpos para determinar contorno, localização e estado de preservação. “Estão completos e com os ossos articulados”, informa Manuela Matos, arqueóloga da Fundação Seridó. Dois estão enterrados com os braços estirados e as mãos apoiadas na região pélvica. O outro tem os braços cruzados sobre o peito. Um deles mede 1,72 metro de altura.

No terreno localizado entre o rio e o mar, dez crânios estão aparentes. Um deles com uma pedra na cabeça. “Não sabemos se é o motivo da morte ou se a situação é pós-morte”, diz Manuela. Dos outros três esqueletos, até agora, surgiram só as pernas. “Um dos esqueletos tem calcificações nos ossos dos pés, isso pode indicar que o indivíduo passava muito tempo de cócoras. Outro tem os ossos dos pés curvados, sugerindo que se agachava muito.”

Como os esqueletos não passaram por estudos de laboratório, não é possível dizer se são homens ou mulheres ou a idade. Há indícios de serem do sexo masculino, numa avaliação preliminar feita por antropólogo da Universidade Federal de Pernambuco. As sepulturas aparecem no subsolo. A mais profunda está a 1,60 metro do atual nível da rua. A mais rasa, a 1,30 metro. As demais situam-se a 1,40 e 1,50 metro.

Os primeiros esqueletos aparecem 30 centímetros abaixo do alicerce das casas levantadas no século 18. Pelos menos dois crânios estão rentes com as construções. “Esse trecho do bairro não era habitado nos séculos 16 e 17. A memória dos enterros deve ter desaparecido na cidade, num intervalo de 100 anos, e o local passou a ter moradias”, pondera Manuela Matos. No Bairro do Recife, há relatos de cemitérios na Cruz do Patrão (área portuária) e na Avenida Alfredo Lisboa. Escavações nas duas áreas não localizaram sepultamentos.

Pela quantidade de alicerces, o local era bastante povoado no século 18, diz a arqueóloga Gabriela Martin. Na área escavada, havia dezenas de casas, retiradas aos poucos pela Prefeitura do Recife, que está construindo um conjunto habitacional na comunidade, com 588 unidades. Parte das novas moradias ficará no terreno dos sepultamentos.

O provável cemitério fica próximo do antigo Forte de São Jorge, construção do século 16 usada como hospital no período da ocupação holandesa no Nordeste brasileiro (1630-1654). Perto dos esqueletos havia ossos de peixes e de um mamífero grande. No mesmo terreno, mas sem ligação com os sepultamentos humanos, havia ossos de tubarão, peixe, teju, cavalo, boi e cabra, além de cruz, moeda, cachimbo, louça e pote.

De passagem pelo Recife, na manhã de ontem, a arqueóloga Niède Guidon, presidente da Fundação Museu do Homem Americano, visitou as escavações. Ela sugeriu a retirada de toda a camada de areia, para evidenciar os esqueletos completamente, em busca de covas ou restos de roupas e sapatos. “É fundamental a análise do DNA de ossos”, diz ela.

Com o exame de DNA é possível definir a origem das pessoas enterradas (negro, índio, europeu). Os estudos determinarão idade, hábitos alimentares e doenças, por exemplo. Os esqueletos serão transferidos para a UFPE e deverão compor um museu com os demais achados do bairro.

A Fundação Seridó, organização não-governamental, foi contratada pela prefeitura para acompanhar as obras no Pilar e também fazer pesquisas na região. O trabalho no terreno deveria ter terminado em 5 de fevereiro. Mas, diante dos achados, o grupo quer mais tempo para ampliar as escavações e achar as respostas.

fonte:jconline

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