Cartas de Paris: Franceses abalados com escândalo da carne de cavalo

Cartas de Paris: Franceses abalados com escândalo da carne de cavalo

Ana Carolina Peliz

Há duas semanas, a França, o país da boa mesa, vem sendo sacudida por um escândalo alimentar. Foi encontrada carne de cavalo em lasanhas congeladas que deveriam conter, obviamente, carne bovina.

Como isso aconteceu é difícil saber. Afinal, uma marca francesa contratou outra empresa francesa para produzir o prato congelado, que por sua vez importou a carne do Chipre, que terceirizou a um distribuidor holandês, que finalmente acabou comprando a carne de um matadouro na Romênia.

Depois desta volta à Europa, acaba sendo impossível saber quem saiu fora da cadeia alimentar, ou melhor, incluiu um elemento estranho nessa sequência.

Além de me interessar pelo que encontro no meu prato, sempre me chama a atenção a maneira como cada cultura se relaciona com a comida, e o caso reúne tantos elementos culturais interessantes que acaba sendo um prato cheio, com perdão do trocadilho fácil.

Quando vi a notícia achei engraçado porque os franceses comem carne de cavalo. Na verdade, a hipofagia (não queria perder a oportunidade de usar a palavra que designa o costume de comer carne de equinos), cada vez menos em voga, começou durante as guerras napoleônicas devido à escassez de proteína, e acabou entrando nos hábitos alimentares franceses.

 

 

Eu moro em um bairro, o XVe, onde ficava um dos maiores matadouros de cavalos da França. Muitas famílias fizeram fortuna vendendo suas tropas durante a Segunda Guerra mundial. Mais uma vez a falta de comida fez com que os pobres alazões acabassem no prato. Atualmente, um bucólico parque foi construído no lugar, onde pôneis desprevenidos fazem a alegria da criançada.

Por isso, enquanto para os ingleses a descoberta de cavalo no bolo de carne foi simplesmente chocante, para os consumidores franceses o problema foi o fato de terem sido ludibriados, comprando gato por lebre, ou melhor, cavalo por vaca. O escândalo fez com que as pessoas se sentissem vulneráveis, colocando em questão toda a cadeia de produção de alimentos.

Pressionado, o governo francês retirou o alvará de funcionamento da empresa Spanghero, que produz os congelados. A decisão teve o efeito de uma bomba nos sindicatos, já que mais de 300 pessoas poderiam perder o emprego.

O governo francês, refém do desemprego, voltou atrás e devolveu parcialmente o alvará à empresa, que continua sendo investigada. Moral da história: em tempos de vacas magras, o jeito é comer carne de cavalo, ainda que o gosto seja amargo.

 

Ana Carolina Peliz é jornalista, mora em Paris há cinco anos onde faz um doutorado em Ciências da Informação e da Comunicação na Universidade Sorbonne Paris IV.

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