Lula em Moscou: o dia da infâmia

Editorial do Estadão

Ao tomar parte nas celebrações do “Dia da Vitória” em Moscou – data em que a Rússia festeja a vitória na 2ª Guerra contra o nazismo alemão e que o autocrata Vladimir Putin usa para fazer propaganda de seu regime tirano –, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva selou não um triunfo diplomático ou um gesto de realismo pragmático, mas um vexame moral e um fiasco geopolítico para o Brasil. Ao lado de autocratas de todos os cantos, Lula foi aquilo que os antigos agentes secretos soviéticos chamariam de “idiota útil”: um ocidental deslumbrado e voluntarioso – e descartável após servir às ambições do império russo.

Em teoria, a participação de um presidente brasileiro nas comemorações do fim da 2ª Guerra poderia significar a celebração da liberdade contra a tirania, da coragem do povo russo, do papel civilizatório da Rússia nas artes, nas letras, nas ciências, ou mesmo uma oportunidade para um estadista astuto tecer alianças diplomáticas num mundo multipolar – e até explorar canais para promover uma paz justa entre Rússia e Ucrânia. Na prática, Lula foi o exato oposto.

O cortejo foi a peça de propaganda fabricada por um regime que encarna o que há de mais próximo ao fascismo hoje: uma autocracia que envilece sua nação e oprime seu povo, silenciando a oposição, perseguindo minorias, fraudando eleições para sustentar um líder vitalício adornado por uma iconografia imperial. É também um Estado predador, que desestabiliza governos, invade vizinhos e massacra civis sob a bandeira fraudulenta da “desnazificação”. A semelhança com as ambições irredentistas de Hitler, que invocava a germanidade para saquear territórios da Checoslováquia e da Polônia, é óbvia demais para ser ignorada.

Ironicamente, o gesto de Lula também o aproxima do presidente dos EUA, Donald Trump. Ambos têm apreço por autocratas, disputam um lugar no coração de Putin e culpam a Ucrânia por uma guerra de agressão que a Rússia começou.

Como em todos os governos petistas, Lula conduz uma política externa pautada não por interesses de Estado, mas por taras ideológicas e por sua ambição de ser festejado como vedete terceiro-mundista. Foi assim na aloprada mediação nuclear com o Irã, em 2010. É assim na contemporização sistemática de ditaduras como Cuba, Venezuela e Nicarágua. E é assim também, à custa da credibilidade internacional do Brasil, na relação amistosa com Vladimir Putin, um déspota que reintroduziu a guerra na Europa e exumou a guerra fria, flertando com um conflito mundial nuclear.

Ao celebrar o imperialismo de Putin, Lula, numa só tacada, surrou os princípios constitucionais que regem a política externa brasileira – autodeterminação dos povos, prevalência dos direitos humanos e solução pacífica dos conflitos. Também conspurcou a memória dos combatentes da Força Expedicionária Brasileira que tombaram ombro a ombro com os aliados europeus em nome da liberdade na 2ª Guerra. E jogou mais uma pá de cal na tal “frente ampla democrática” que o elegeu em 2022, sequestrando aquele pacto cívico para usá-lo como instrumento de autopromoção ideológica.

O resultado é que o Brasil se afasta dos polos democráticos e reformistas do mundo e se aproxima da constelação sombria de regimes autoritários do novo eixo de caos. Em vez de se mover com pragmatismo e independência num mundo multipolar, Lula opta por um multilateralismo de fachada, que relativiza regras, desrespeita tratados e consagra a lei do mais forte – justamente a lógica que mais prejudica um país como o Brasil, que não dispõe do poder das armas ou do dinheiro, só da diplomacia, da persuasão e da adesão às normas internacionais para proteger seus interesses.

A imagem de Lula na Praça Vermelha, ladeado por facínoras, assistindo ao desfile de tanques e mísseis que vão massacrar inocentes na Ucrânia e outros povos, marcará na História o dia da infâmia da política externa brasileira, um dia em que o Brasil, sem ganhar rigorosamente nada em troca, arruinou seus princípios republicanos e democráticos, bajulando criminosos de guerra e adulando ditadores por puro capricho do demiurgo petista.

O chanceler paralelo Celso Amorim disse que Lula iria a Moscou como um “mensageiro da paz”. Foi apenas um mensageiro da torpeza.

A crônica domingueira. Por Magno Martins

Por Magno Martins – Jornalista, poeta e escritor  – Sem mãe, Dia das Mães dói muito. É uma ferida aberta sem cicatrização. Traz recordações de um tempo em que mamãe Margarida, linda e radiante, me abraçava fortemente em Afogados da Ingazeira quando eu chegava empoeirado da longa peregrinação por terras de vidas secas, chão seco retratado na pena de Graciliano Ramos.

No abraço, longo e afetuoso, ficava impregnado o cheiro do seu perfume, o aroma da sua alma, as marcas do seu batom no meu rosto, de beijos que expressavam o seu amor, verdadeiro, puro e cristalino amor.

Deus levou minha mãe em 2013, aos 86 anos. Um infarto fulminante encerrou sua missão terrestre. A dor só foi amenizada por ter a certeza de que os céus esperavam a chegada de um dos seus anjos mais belos. Seus braços são agora asas e seu coração a estrela mais brilhante do horizonte.

É assim que me sinto quando olho os céus com o coração apertado de saudade e tristeza, mas também com orgulho de a ter conhecido como mãe. Sei que a melhor homenagem que poderei lhe fazer é seguir com a minha vida, honrando sua memória e lutando pela minha felicidade.

E é isso que faço quotidianamente esperando que lá de cima ela me acompanhe sempre. A ausência deixa um vazio, mas o amor e as lembranças permanecem vivos. Dia das mães também existem para expressar com palavras a dor e a gratidão. Mãe não é eterna, mas jamais deveria morrer.

O Dia das Mães ficou tão sem graça depois que ela partiu. Sinto tanta falta do seu colo, de ouvir a sua voz, sinto falta de tudo que ela me proporcionava com sua alegria radiante, sua energia que não esmorecia nunca. Seu lindo sorriso aberto. Sua força e amor ficam como inspiração permanentes.

Mamãe era durona. Menino travesso, quando a palavra não me admoestava, a chibata dela corria solta. Puxou a vovô Severo Martins. Só de olhar para o semblante firme dele, tinha medo. Veio lá das bandas de Monteiro, na Paraíba, onde há ainda remanescentes do tronco Martins. Há pouco, descobri que o cantor Novinho da Paraíba, de Monteiro, é parente distante pelo tronco Martins.

Batizada por Margarida, minha mãe tem a beleza das flores, a doçura do mel e o brilho das estrelas. Victor Hugo, romancista francês, dizia que os braços de uma mãe são feitos de ternura e por isso mesmo os filhos dormem profundamente neles.

Um dia, muitos dias, dormi no colo da minha mãe na igreja, enquanto ela recebia as bençãos de Deus. Eu era menino ingênuo, uma ingenuidade pueril. Sonhava com os anjos no colo de mamãe. Sem saber, sentia que no seu colo aprendia o valor do amor, a ternura como maior tesouro, o motor que impulsiona a minha vida.

Aprendi, mais do que isso, que triunfar não é fácil, mas também não é impossível. No colo dela, aprendi ainda que amor de mãe é cura para o que nem sabia que estava doendo, o aconchego que nem sabia que precisava, a força que me guiava quando pensava em desistir.

O amor da minha mãe foi e será para sempre o combustível que me capacitou para fazer o impossível. Sua ausência, que triste ausência, me revela que ela é a maior força do meu universo.

Tudo nesta vida passa, mas o amor de mãe é um sentimento eterno, tão sublime quanto incondicional, que nos molda e nos transforma.

A arte de conversar. Por José Paulo Cavalcanti Filho

Por José Paulo Cavalcanti Filho  –  Escritor, poeta, membro das Academias Pernambucana de Letras, Brasileira de Letras e Portuguesa de Letras. É  um dos maiores conhecedores da obra de Fernando Pessoa. Integrou a Comissão da Verdade –  Os homens, no começo, comunicavam-se por gestos. Ou símbolos. Até hoje, ao menos alguns gênios. Como Rubem Braga, que era de Cachoeira de Itapemirim, a terra de Roberto Carlos. E, todas as madrugadas, falava com Millôr Fernandes (os apartamentos eram próximos) mexendo os braços, como aprenderam na marinha. Millôr começava:

? B/o/m/ d/i/a/.

E Rubem, exagerando como sempre,

? B/o/m/ d/i//a m/e/u/ c/a/r/o/ c/o/l/e/g/a/ d/e/ p/r/a/ç/a/s/ e/ d/e/ m/a/d/r/u/g/a/d/a/s.

Saudades dos amigos queridos. Só que esse tipo de comunicação logo foi substituído pelas palavras. Também aqui havendo problemas, com relação às distâncias, que a voz ia só até onde o ouvido pudesse escutar. Cito um caso. Emilio Menezes, na Academia Brasileira de Letras, odiava o confrade Oliveira Lima ? por Gilberto Freyre definido como Quixote Gordo. Quando estava no Rio, não era sempre, Oliveira e sua mulher, Flora, todas as tardes saiam de braços dados para caminhar em Copacabana. Emílio ficava na esquina do edifício e, quando passavam, dizia com altura de voz suficiente para que Oliveira, pobre dele, pudesse ouvir

? Aí vão a Flora e a Fauna da literatura brasileira.

Com o tempo, essa comunicação foi mudando. E conversas, entre pessoas próximas, passaram a se dar também por formas diferenciadas. Seguem três exemplos, em conversas de que participei com outros amigos, todos especiais na minha vida. E, com cada um deles, aprendi muito. Sobretudo vendo a vida por outros olhos, mais serenos e tranquilos, compreendendo a beleza que se pode ver na natureza, nas obras dos homens, nos gestos. Grandes personagens.

O primeiro foi Noberto Bobbio, de Turim (Itália), para Luigi Ferrajoli (L’itinenario di NB: della teoria generale del diritto alla teoria dela democrazia) “maior filósofo teórico do Direito e maior filósofo da política”. Fui seu primeiro tradutor, no Brasil (texto inicial, Diritto e Forza). Nossas conversas ocorreram sempre via cartas; hoje, diria Pessoa, em “tintas remotas e desbotadas” (Álvaro de Campos, O esplendor dos mapas). Até cheguei a convidá-lo para vir ao Recife. Respondeu de maneira curiosa, dizendo não, preferia ficar em casa, “que já começo a sentir as primeiras mordidas da velhice”. Apesar disso viveu bem e só nos deixou em 2004, com 94 anos.

O segundo foi Carlos Drummond de Andrade, a partir de 1985, dois anos antes do seu fim. A relação começou quando, na Capitania dos Portos, registrei o nome de um pequeno barco a vela, que tinha, usando verso de seu Poema das sete faces (aquele do “Mundo, mundo, vasto mundo/ Se eu me chamasse Raimundo/ Seria uma rima, não uma solução”)que era “Mais vasto é o meu coração”. E mandei foto dele ao mar, navegando. Respondeu com bilhete, que até hoje guardo, “Meu verso num barco ? haverá maior prêmio para um poeta?” A partir daí, conversávamos com frequência às noites. Por telefone. Andava já longe dos tempos em que se divertia falsificando a assinatura do ministro da Educação, seu chefe Gustavo Capanema, em bilhetes que enviava para os amigos. Estava, desde a morte da filha única Julieta (câncer), já desencantado com a vida. Por vezes repetia frase que antes escrevera, “do meu passado só restam mortos” (Claro Enigma). Não durou muito depois de se sentir sozinho e nos disse adeus em 1987.

O terceiro foi o uruguaio Eduardo Galeano. Nossas conversas se deram sempre a partir de e-mails em que se assinava HUGALE ? uma espécie de heterônimo a partir do nome, eduardo HUGhes GALEano. Das definições que costumava lembrar me encantou uma que citava sempre, do amigo Fernando Birri, sobre a utopia: “A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos e se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais o alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar”. Estávamos acertando uma vinda sua à praia da Lagoa Azul, para provar do mar de Pernambuco, quando começou a sofrer com um câncer injusto. Ao encerrar conhecido poema (O direito de sonhar), escreveu que “Neste mundo…/ Seremos capazes de viver cada dia como se fosse o primeiro/ E cada noite como se fosse a última”. E assim se deu, pena, sua última noite ocorreu em 2015.

Só que, hoje, tudo vai sendo substituído pela internet. Que ela é quase Deus; por ter, como ele, os dons da Ubiquidade, da Onisciência e da Onipotência. Sem contar que, depois da inteligência artificial, as coisas vão ficando ainda pior. E já pressinto aquele dia inevitável em que vai aparecer, na telinha do computador, um cidadão que tenha como endereço eletrônico OTODOPODEROSO@CÉU.COM, em mensagem dizendo

? Bons dias, amigo José Paulo, estou à sua espera para jantar.

Se assim for, e quando for, estou preparado para responder

? Não posso, escusas, que vou encontrar com um neto.

Para, espero, ele responder

? Lamento não ter tido um, fiquei só com o Filho, pena para mim. Considerando suas palavras, então, vamos deixar nosso encontro para o próximo ano. Graças. Adeus.