Filho de cangaceiros do bando de Lampião lembra história marcante de reencontro com o pai e a mãe

Por Elcio Braga*

Apesar de ser apenas um bebê quando viveu no bando de Virgolino Ferreira da Silva, o Lampião, o pernambucano Inácio Carvalho Oliveira, de 86 anos, carregou por grande parte da vida o peso de ser filho do cangaço. Para fugir de constrangimentos e das zombarias, deixou Tacaratu, pequena cidade no interior de Pernambuco, para viver no Rio de Janeiro, onde o passado entre os cangaceiros seria omitido. Curiosamente, aproveitou a oportunidade para se tornar um homem da lei. Fez carreira na Polícia Militar, onde foi reformado. Atualmente, entre todos que estiveram no bando de Lampião, apenas ele e a própria filha do rei do cangaço, Expedita Ferreira, de 92 anos, estão vivos.

Inácio é casado e mora com Maria Odete Moraes Carvalho, com quem teve um casal de filhos, em Vista Alegre, na Zona Norte do Rio. Lúcido e saudável, costuma passear pela cidade e manter uma rotina com boas caminhadas.

“Hoje, Inacinho e Expedita Ferreira, filha de Lampião e Maria Bonita, são as duas últimas pessoas que estiveram ‘dentro’ do cangaço e com Lampião ainda em plena atividade, se assim podemos dizer. Embora Expedita tenha permanecido alguns dias com os pais, ela não nasceu no cangaço. Maria se ausentou para o parto. Ficou em um ‘coito’ (esconderijo) até a criança nascer”, explica Geraldo Antônio de Souza Júnior, pesquisador do cangaço e responsável pelo canal Cangaçologia, no YouTube.

O último dos cangaceiros foi José Alves de Matos, o Vinte e Cinco, natural de Paripiranga (BA). Ele morreu aos 97 anos em 2014, em Maceió (AL). Lampião, Maria Bonita e mais nove integrantes do bando não resistiram ao ataque da volante (força de segurança) na Grota do Angico, em Sergipe, em 1938.

Lembranças turvas

O filho do cangaço não sabia quase nada sobre suas origens. Tudo o que conhecia até os 67 anos era que os pais, os cangaceiros Moreno e Durvinha, expoentes do bando de Lampião, o haviam deixado com o padre Frederico Araújo, pároco da pequena Tacaratu, no interior de Pernambuco. Uma carta acompanhava a criança: trazia o nome dos avós. Os pais alegaram que o bebê, ao chorar, vinha chamando a atenção das volantes que os perseguiam.

Depois da morte de Lampião, os pais tiveram de abandonar o cangaço às pressas. A perseguição aos cangaceiros remanescentes era intensa. Na fuga, Moreno e Durvinha cruzaram a pé por 60 dias o interior do Nordeste até Minas Gerais, onde passaram a residir escondidos. Durvinha ainda levou uma picada de cobra no caminho e quase morreu.

“Moreno, cujo nome verdadeiro era Antônio Ignácio da Silva, passou a se chamar José Antônio Souto, impossibilitando dessa forma ser descoberto pela Justiça e por antigos rivais. Durvalina adotou o nome de Jovina”, conta Geraldo.

Em 2005, aos 67 anos, Inácio estava sem esperanças de ter notícia dos pais. Mas a curiosidade da irmã mais velha Neli “Lili” Maria da Conceição daria fim ao segredo. Pressionada, Durvinha contou a ela que deixara um filho com um padre em Tacaratu antes de se mudar para Minas. O menino nascera debaixo de uma quixabeira, árvore espinhosa típica da caatinga, possivelmente em território alagoano (embora tenha sido registrado em Pernambuco). Neli ligou para a pequena cidade e deixou o contato para o suposto irmão retornar. Inácio, que morava no Rio, ligou de volta:

“Como é o nome da sua mãe?” Neli respondeu: “Jovina Maria da Conceição”. Aquilo foi um balde de água gelada, porque eu sabia que o nome da minha mãe era Durvalina”, relata Inácio, lembrando a frustração.

Mesmo assim, o PM reformado resolveu esticar a conversa e pedir para falar com a tal Jovina. Ele se emociona ao recordar.

“A senhora tinha um apelido? Era chamada de Durvinha? A senhora era do arrasta-pé?”, perguntou Inácio, citando detalhes que só a mãe biológica poderia saber.

“Como você sabe disso?”, respondeu Durvinha, dando a entender que sabia do que se tratava.

“Achei minha mãe”, concluiu Inácio, vibrando com a realização de um sonho que acalentou por toda a vida.

A ansiedade com a descoberta foi tão grande que Inácio viajou imediatamente do Rio para Belo Horizonte. Não queria perder tempo para encontrar a mãe, o pai e seus cinco irmãos que nem sequer sabiam da história do cangaço. Dois dias depois, ele chegou à casa da nova família, saudado com fogos e festa. Conforme combinado previamente, abraçou ao mesmo tempo o pai, a mãe e a irmã mais velha. Foi a melhor solução para o impasse: todos queriam abraçá-lo primeiro.

Só a partir daí Inácio saberia detalhes da vida dos pais no bando do rei do cangaço.

“Meu pai foi chefe de grupo do bando. Era como um quartel. Tinha um comando geral que era do Lampião. E eles espalhavam a companhia para um lado e para o outro. Senão a polícia atacava e matava todo mundo”, explica.

Moreno era reservado e pouco comentava sobre os tempos do cangaço.

“Meu pai precisava confiar muito na pessoa para falar alguma coisa. Ele contava as bravuras. Um dia, ele me disse: ‘Meu filho, tenho certeza que matei 22 pessoas. Só que foram mais. Só não contabilizei porque não fui lá conferir”, relata.

Durvinha se destacou no período do cangaço. Inicialmente, foi casada com Virgínio Fortunato da Silva Neto, o Moderno, morto em ação. Logo depois, ela se relacionou com outro integrante do bando, com o qual viveria o resto da vida. É ela que aparece num filme do caixeiro viajante sírio-libanês Benjamin Abrahão Calil Botto. Ela abre um sorriso e aponta a arma para a câmera. O filme que retrata em 14 minutos Lampião e seu bando no Sertão, entre 1935 e 1936, chegou a ser proibido na ditadura do Estado Novo. No entanto, os rolos empoeirados da película foram redescobertos em arquivo público em 1955.

Visão tolerante

Apesar de ter conhecido a mãe com idade muito avançada, Inácio guarda boas recordações da curta relação em visitas regulares ao longo de três anos.

“A minha mãe era uma doçura. Me colocava no colo e ficava fazendo carinho na minha cabeça”, recorda o PM reformado. “Me sinto feliz. Conheci meu pai, minha mãe. Foram casados de fato e de direito”, conta ele, que se abatia ao ler a expressão “pai desconhecido” em sua certidão de nascimento.

O reencontro com o filho possibilitou que os ex-cangaceiros voltassem a ter contato com os parentes deixados para trás, com a fuga da polícia e posterior troca de identidade. Após quase 70 anos, a família toda voltou a se reunir no Nordeste. Durvinha morreu aos 92 anos em 2008, e o marido, aos 100, em 2010.

Apesar de ter ficado ao lado da lei por ser PM, Inácio tem hoje uma visão mais tolerante sobre o cangaço.

“Várias pessoas já me perguntaram como classifico o cangaço. Se falarem que os cangaceiros são ladrões, é verdade: roubavam. Eles matavam e furtavam, mas com uma diferença. Eles roubavam o cabrito, o boi e outros animais para se alimentar e não para comprar drogas. O furto deles era para dar a quem tinha menos. Se o fazendeiro tinha muitas posses e era ruim, ele pedia dinheiro para dar aos mais pobres. Meu pai e minha mãe diziam que Lampião não era ruim. Era mau só quando faziam algo contra ele”, comenta Inácio.

Para o pesquisador Geraldo Júnior, Lampião é um mito que merece muitas reflexões sobre a História do Sertão. Mesmo 86 anos após sua morte, o rei do cangaço é motivo de debate acalorado entre admiradores e críticos.

“Há os que definem os atos de Lampião como heroicos, possivelmente por desconhecer a sua verdadeira biografia, enquanto outros o enxergam apenas como um bandido frio, cruel e sanguinário. Herói ou bandido? Uma resposta que jamais será unânime, mas que continuará ecoando através do tempo e atraindo curiosos e estudiosos”, opina.

Jornalista do O GLOBO

A vida de Aimée, a namorada de Vargas

Livro ‘A Bem Amada’ mostra que, em vez de ter virado um asterisco na biografia de Getúlio Vargas, foi ele quem virou um capítulo na dela
Por Elio Gaspari – O GLOBO
Getúlio Vargas em seu fardão — Foto: Arquivo
Está nas livrarias “A Bem Amada”, do repórter Delmo Moreira. Conta a vida de Aimée Sotto Maior, uma grande mulher. Paranaense, ela se casou em 1932 com Luiz Simões Lopes, o homem que redesenhou o serviço público brasileiro. Em 1937, Aimée começou a namorar o presidente Getúlio Vargas. Por dois anos ele viveu uma paixão fogosa e chamou-a de “A Bem Amada”. Amavam-se até no mato.
Aimée tinha 23 ou 33 anos. Ele, 55. Ela morreu em 2006, aos 93 ou 103, sem jamais contar a idade, “nem para o médico”. Segundo Delmo Moreira, o namoro com Vargas começou quando ela tinha 30 anos. O romance e a intensidade da paixão de Vargas por Aimée só foram revelados em 1995, com a publicação do diário dele. Quando Vargas matou-se, ela pediu à filha apenas que rezasse por ele. Aimée nunca tocou no assunto.
A namorada de Getúlio Vargas poderia ter virado um asterisco na biografia dele, mas foi ele quem virou um capítulo na dela.
Aimée deixou Simões Lopes, Vargas e o Brasil em 1938. Um ano depois, com um modelo desenhado por um jovem figurinista chamado Christian Dior, ela brilhava na última grande festa de Paris antes da invasão alemã. Uma convidada lembraria: “Era tão linda, tão genuinamente agradável e exuberante, coberta de diamantes… Foi praticamente comida viva”’. Nas mesas, um Rothschild, os duques de Windsor, a neta da princesa Isabel e o diabólico embaixador americano William Bullitt, que anos antes dera em Moscou o Baile de Satan.
A linda loura de olhos azuis virou Aimée de Heeren, casando-se com o herdeiro do criador das lojas de departamentos nos Estados Unidos e entrou na lista das mulheres mais elegantes da revista “Time”. Dividia seu tempo entre Biarritz (onde ganhou de Juscelino Kubitschek o consulado do Brasil), Paris, Palm Beach e Nova York, com uma casa em cada cidade.
Numa época em que se falava em “alta sociedade”, ela estava em todas. Quando o magnata mexicano Carlos de Beistegui deu em Veneza uma das grandes festas do pós-guerra, ela estava lá. Encantou o cineasta americano Orson Welles e namoraram por uma semana. “Ele era muito chatinho”, Aimée contaria a uma amiga.
A rainha Elizabeth foi coroada em 1952, e ela estava lá, com o embaixador brasileiro Assis Chateaubriand. (Chatô, saiu da Abadia levando a cadeirinha dos convidados.) Era vizinha de Joseph Kennedy, pai do que seria o futuro presidente americano e imprudente predador das jovens convidadas dos filhos.
Em 1990, quando morreu um nobre alemão de suas relações, ela ligou para uma amiga: “O conde morreu, vamos ao enterro? Vai estar todo mundo lá.” Ao funeral do duque de Buccleuch, ela foi com um tailleur marrom, para não ser confundida com a viúva, pois havia motivos para isso.
Gilberto Freyre, que tinha fixação numa Wanderley do século XIX, encantou-se com ela e chamou-a de Sinhazinha da Várzea do Capibaribe: “Não há nenhuma, porém, que seja tão sinhá, como Aimée, Condessa de Heeren.” Condessa, ela nunca foi.
Aimée veio ao Brasil pela última vez em 1996. Dizia que Pindorama ficava “muito longe”. Morreu dez anos depois, em Nova York. Na juventude, ela foi de zepelin para a Suíça. Mais tarde, voou no supersônico Concorde para Paris.
Sua casa de Nova York foi vendida em 2007 por 33 milhões de dólares. O leilão do mobiliário mostrou que, na segunda metade do século XX, ela tinha o gosto dos ricaços do XIX.

13 de outubro – Dia Mundial do Escritor. Por Flávio Chaves

 Por Flávio Chaves – Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. Foi Delegado Federal/Minc 

Hoje, 13 de outubro, celebramos o Dia Mundial do Escritor, uma data que resgata a importância daqueles que se dedicam a transformar o mundo com palavras. O escritor é um viajante solitário, um alquimista das emoções que, a cada nova linha, experimenta a ousadia de criar realidades que antes existiam apenas em sua mente. A escrita não é apenas um ato mecânico, é um exercício de coragem. Coragem para sonhar, para desafiar, para sentir o mundo de forma tão intensa que precisa transbordar em frases, parágrafos, livros.

Ser escritor é, antes de tudo, estar profundamente conectado com a humanidade, não importa o quão longe a ficção nos leve. Cada personagem que nasce, cada cenário imaginado, reflete um pedaço da condição humana, de suas lutas, esperanças, angústias e alegrias. A palavra escrita é a ponte que liga o mais íntimo do ser à universalidade do outro. E quem escreve caminha nessa ponte todos os dias, entregando-se ao processo mágico e às vezes doloroso de criar algo que não existia antes.

Não é fácil ser escritor. Muitas vezes, há uma sensação de isolamento, de estar sozinho com as próprias ideias, tentando organizá-las em um emaranhado de pensamentos. O bloqueio criativo, a insegurança, a sensação de que as palavras não são suficientes para expressar o que se quer dizer, fazem parte dessa jornada. No entanto, há também a recompensa. O prazer de ver uma história tomar forma, de perceber que aquela trama, antes apenas sussurrada pela imaginação, agora vive, respira, e pode tocar outras pessoas.

A escrita tem o poder de mover montanhas internas, de despertar paixões adormecidas e de questionar verdades inabaláveis. Os escritores, com suas palavras, podem provocar mudanças sociais, dar voz a quem não a tem, ou simplesmente entreter em uma tarde chuvosa. Cada livro escrito é um pedaço da alma do autor, uma parte de si que, ao ser publicada, não pertence mais apenas a ele, mas a todos que, de alguma forma, se permitirem mergulhar naquele universo.

Quantos de nós já não encontramos refúgio em um livro, nas páginas de um romance ou nas palavras sábias de um poema? Quantas vezes não fomos tocados pela sensibilidade de um texto, pela precisão com que o autor descreveu algo que sentimos e não sabíamos como explicar? É isso que o escritor faz: traduz sentimentos, revela mundos, aproxima pessoas e culturas.

E hoje, celebramos todos aqueles que, com suas palavras, tecem o tecido da nossa existência. Dos grandes clássicos da literatura aos escritores contemporâneos, cada um à sua maneira, contribui para manter acesa a chama do conhecimento, da imaginação e da crítica. Ao abrir um livro, abrimos também a mente para novas possibilidades, para perspectivas que muitas vezes desafiam o que consideramos certo.

Neste Dia Mundial do Escritor, que possamos reconhecer e valorizar o trabalho incansável de quem dedica a vida a escrever. Que suas palavras continuem a ecoar através do tempo, atravessando fronteiras e resistindo às mudanças da história. E que os escritores, esses artífices do verbo, sigam firmes em sua missão de nos fazer sonhar, refletir, emocionar e, sobretudo, transformar.

Escrever é uma forma de resistência, de eternizar aquilo que, de outra forma, poderia se perder. Que nunca faltem histórias a serem contadas, ideias a serem compartilhadas, e escritores dispostos a dar vida a tudo isso.