Máquinas que geram água potável do ar: A inovação de Beth Koigi e sua relevância global. Por Flávio Chaves

Beth Koigi administra 40 geradores de água nas regiões secas do Quênia

Por Flávio Chaves – Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. Foi Delegado Federal/Minc

Em um mundo onde mais de 2 bilhões de pessoas enfrentam desafios diários para ter acesso a água potável, a inovação surge como uma ferramenta crucial para solucionar essa crise. Entre essas invenções revolucionárias, a cientista queniana Beth Koigi destaca-se com sua máquina capaz de gerar água potável a partir do ar, um dispositivo que não só desafia os limites da tecnologia, mas também oferece esperança para comunidades em regiões áridas e semiáridas.

Beth Koigi, motivada pelas dificuldades de acesso a água em seu país, desenvolveu uma solução inovadora: uma máquina que captura a umidade presente no ar e a converte em água potável. Essa tecnologia não apenas resolve um problema de escassez de água, mas também atua como uma solução sustentável para regiões onde a chuva é rara e as fontes de água estão secas ou poluídas.

O projeto de Koigi, batizado de Majik Water, começou a instalar geradores de água atmosférica em comunidades remotas, transformando o ar em uma fonte segura de água para centenas de famílias. Esses geradores são capazes de produzir até 200 mil litros de água potável por mês, impactando diretamente a vida de dezenas de comunidades no Quênia. O princípio por trás da tecnologia é simples, porém eficaz: a umidade do ar é capturada, condensada e filtrada, resultando em água limpa e segura para o consumo.

O impacto dessa inovação vai muito além do Quênia. À medida que as mudanças climáticas continuam a alterar os padrões de chuvas e aumentar a frequência de secas severas, a escassez de água torna-se uma questão urgente para muitas regiões ao redor do mundo. Estima-se que, até 2050, mais de metade da população global possa viver em áreas com escassez de água.

A máquina  oferece uma solução viável, especialmente para áreas áridas e semiáridas, onde os recursos hídricos são escassos ou inexistentes. Regiões da África, América Latina, Oriente Médio e até algumas partes da Ásia poderiam se beneficiar enormemente dessa tecnologia. Além disso, a tecnologia de geração de água atmosférica é uma alternativa mais sustentável e acessível em comparação com métodos convencionais, como a dessalinização, que exigem grandes quantidades de energia e infraestrutura cara.

A criação de Koigi vai além de garantir a sobrevivência básica. O acesso à água potável também tem impacto direto no desenvolvimento socioeconômico. Comunidades que antes precisavam gastar horas caminhando em busca de água agora podem se concentrar em outras atividades essenciais, como educação e agricultura. Com água potável ao alcance, surgem oportunidades para o desenvolvimento de atividades produtivas, criação de hortas comunitárias e melhor saúde, já que a contaminação por consumo de água não tratada é uma das principais causas de doenças em regiões sem saneamento básico.

Além disso, o impacto ambiental é significativo, pois a tecnologia de Koigi reduz a dependência de fontes de água não sustentáveis, como águas subterrâneas, que estão se esgotando rapidamente em muitas partes do mundo.

Apesar do sucesso inicial, desafios permanecem. A implementação em larga escala dessa tecnologia requer apoio financeiro, investimento em infraestrutura e disseminação de conhecimento técnico. No entanto, com parcerias adequadas entre governos, ONGs e o setor privado, o potencial de expansão da Majik Water é imenso.

Outro desafio é garantir que essas máquinas possam ser fabricadas e mantidas de forma acessível e sustentável, especialmente em países em desenvolvimento. Felizmente, as primeiras colaborações internacionais e interesse de investidores já estão em andamento, o que sugere que o futuro dessa tecnologia é promissor.

A invenção de Beth Koigi e o projeto Majik Water são um excelente exemplo de como a ciência e a inovação podem ajudar a resolver um dos problemas mais urgentes da humanidade: a escassez de água potável. Em um contexto de mudanças climáticas e crescimento populacional, tecnologias que transformam o ar em água não apenas oferecem uma solução imediata para comunidades carentes, mas também representam uma esperança de futuro mais sustentável para o mundo.

Essa invenção não só fortalece as comunidades locais no Quênia, mas também serve de inspiração para soluções globais, mostrando que o avanço tecnológico pode e deve ser aliado a um propósito humanitário.

Na Contramão. Por José Paulo Cavalcanti Filho

  Por José Paulo Cavalcanti Filho  –  Escritor, poeta, membro das Academias Pernambucana de Letras, Brasileira de Letras e Portuguesa de Letras. É  um dos maiores conhecedores da obra de Fernando Pessoa. Integrou a Comissão da Verdade

Recife. De volta à terra prometida (ir é bom mas voltar é melhor, muito melhor), já digo que hoje a coluna vai assinada pelo mestre Samuel Hulack ? que, agora, lança o seu primeiro livro de literatura, Na contramão e outros contos. De repente, como por encanto, do nada, ele decidiu escrever contos. O que é surpreendente, dado seu tardio começo na atividade literária (aos 86 anos). Alguém que jamais fez nada parecido, antes, por que agora? Mistério. Embora mistério ainda maior, aquele que poucos poderiam esperar, é a qualidade superior dos seus textos. Como os desse livro; talvez escrito apenas para provar, a si mesmo, que tem o dom especial de contar histórias. Como um grande escritor. Enorme. Estelar. Para mim, o maior contista do Brasil. É dele o conto que vem a seguir, razão pela qual lhe passo a palavra:

Samuel Hulak - CONTRAMÃO - LIVRO“NA CONTRAMÃO”

“Era um homem velho. Demasiadamente, até. Arrastava-se curvado sobre a própria sombra. Nas cercanias não havia ninguém, o que aumentava a solidão expressa na sua frágil figura.

Apenas alguns sons.

Marina, que aguardava o velho, viu algo na comédia televisiva que assistia.

Já próximo, o homem ouviu a risada sonora de Marina.

? “Pai, que bom que chegou. Deixe que ajude a descarregar sua sacola”.

Sentaram-se para comer os sapotis ainda impregnados pelo cheiro da terra e do pano da sacola.

O casebre pobre, mas muito limpo, tinha sala, cozinha, banheiro e dois quartos. Marina foi morar com o pai – há muito enviuvado – quando deixou Beto; ele traficava, ela descobriu e aproveitou para sair da favela. Agora, cuidava do pai, cozinhava e assistia comédias e novelas.

Foram várias as vezes que sua mãe lhe dizia:- “Marina você é maninha, não vai ter filhos nunca; namoradeira como é não engravidou, não vai saber o que é parir”. Realmente não teve filhos nem antes do Beto e muito menos depois. Foi cozinheira depois faxineira, em casa de família. Agora, deu um tempo. A aposentadoria do pai sustentava os dois. Precariamente, mas valia.

O tempo percorria plácido na medíocre rotina do velho Raimundo e de Marina. Nem tudo sempre bom, nem sempre tudo mau. Até que os altos e baixos sofreram uma ruptura.

? “ Alô Marina, com saudades?”

? “Beto, você aqui? Como me descobriu?”.

? “Não foi difícil achar seu pai”.

_ “O que você quer? Boa coisa não é.”

? “Vou sumir um tempo pra depois voltar e preciso deixar uns bregueços com você.”.

? “Beto, nem pensar. Não quero confusão, nem pra mim nem pra meu pai.”.

? “Marina você não entende; não posso confiar em ninguém. Com você, minha muamba estará segura até eu voltar.”.

? “Beto, não faz isso comigo. Meu pai está velho e fraco e não quero que ele saiba que você voltou”.

? “Marina você continua sem entender; por enquanto estou pedindo um favor, mas, na recusa, vai ter que aceitar na marra e você sabe que meu jeito nem sempre é bom”.

? “Quando volta para pra levar a sua tralha?”.

? “Não sei Marina; nem sei quando, nem posso dizer onde vou ficar”.

Beto passou para ela uma das malas que carregava. Dentro, uma arma, alguns sacos de cocaína e documentos. Feita a entrega e algumas ameaças mais, montou na moto e partiu.

Beto cresceu na contramão da vida. Tinha seis anos quando já invejava os colegas “aviãozinhos” da favela; cobiçava o poder e o dinheiro que ganhavam. Na adolescência seus ídolos eram os traficantes. Não demorou em tornar-se um. Quando Marina fugiu Beto cresceu na atividade criminosa; ganhou muita grana e assim foi até se desentender com um rival, na disputa por ponto de venda de drogas. Na briga, matou o desafeto. Teve que fugir; ficara entre dois fogos, os traficantes e a polícia. Juntou a muamba, a pistola, dinheiro e algumas joias e partiu atrás do paradeiro do velho Raimundo. Para encontrar Marina.

Agora, na moto iria para o interior das Alagoas, onde parentes o acolheriam. Saindo da casa de Marina, teria que fazer um desvio para pegar a estrada; era uma contramão deserta. Distraído, em velocidade, não viu o arame estendido de canto a canto. Novamente Beto que viveu na contramão da vida, morreu nela. Morreu tão instantaneamente que não pode ver o vulto que recolheu o arame que estendera.

Era o vulto de um homem velho, demasiadamente até; arrastava-se curvado sobre a própria sombra. Nas cercanias não havia ninguém, o que aumentava a solidão expressa na sua frágil figura”.

Vídeo: historiadora seminua viraliza com dança erótica durante palestra na UFMA

Tertuliana Lustosa realizou a apresentação durante uma palestra na Universidade Federal do Maranhão (UFMA).

  G1 – Uma mesa redonda na Universidade Federal do Maranhão (UFMA) sobre gênero e sexualidade causou polêmica após uma das palestrantes, a historiadora da arte e cantora piauiense Tertuliana Lustosa, fazer uma performance erótica durante o evento, realizado nessa quinta-feira (17).

A historiadora, que é travesti, foi convidada para palestrar no seminário “Dissidências de gênero e sexualidades”, organizado pelo Grupo de Pesquisa Epistemologia da Antropologia, Etnologia e Política (Gaep)

O objetivo era reunir acadêmicos e ativistas de várias vertentes para discutir o gênero e suas interseccionalidades, promovendo um espaço de trocas acadêmicas e reflexões sobre as dissidências de gênero a partir da perspectiva do Sul Global.

Veja vídeo abaixo:

Tertuliana Lustosa também é pesquisadora mestranda em Cultura e Sociedade pela Universidade Federal da Bahia e vocalista da banda "A Travestis". — Foto: Reprodução/Redes Sociais
Tertuliana Lustosa também é pesquisadora mestranda em Cultura e Sociedade pela Universidade Federal da Bahia e vocalista da banda “A Travestis”. — Foto: Reprodução/Redes Sociais

O vídeo de Tertuliana – que também é pesquisadora mestranda em Cultura e Sociedade pela Universidade Federal da Bahia e vocalista da banda “A Travestis” – foi divulgado suas redes sociais e mostra ela cantando e dançando um brega funk , “Educando com o C*”, na bancada dos palestrantes. Na performance, Tertuliana chega a mostrar os glúteos para a plateia e é aplaudida após o término.

Nas redes sociais, vários internautas criticaram a performance da historiadora e consideraram a apresentação como “vergonhosa” por ter sido feita em uma palestra num ambiente acadêmico.

O nome da música também nomeia um artigo universitário de Tertuliana, intitulado “Educando com o c*: traveco-terrorismo e descolonialidade de gênero na arte”. Na obra, a autora afirma que tem o objetivo de iniciar um debate sobre as implicações do prazer e do corpo enquanto potências pedagógicas e artísticas.

Em pronunciamento após a repercussão do vídeo, Tertuliana falou que não é a primeira vez que causa polêmica por causa do estudo, que já foi ministrado em outras universidades do Brasil.

“Na verdade, desde que eu fiz o primeiro evento ‘Educando com o C*’, as pessoas já acharam um absurdo, falaram que a universidade é uma balbúrdia, mas as pessoas não entendem a produção do conhecimento”, disse a historiadora.

Leia, abaixo, a nota de esclarecimento da UFMA na íntegra

“Nesta quinta-feira, 17, a historiadora Tertuliana Lustosa, na condição de palestrante convidada pelo Grupo de Pesquisa Epistemologia da Antropologia, Etnologia e Política – GAEP, apresentou a sua pesquisa durante a Mesa-Redonda “Dissidências de gênero e sexualidades”, em que reproduziu e performou uma de suas canções, considerada inapropriada para o momento e a construção do debate acadêmico-científico em que se encontrava.

Como sabido, a Universidade é um espaço plural e de diálogos, dedicado ao conhecimento, à diversidade de ideias e ao respeito mútuo. Por isso entendemos que a liberdade de expressão é um pilar fundamental da academia, mas também ressaltamos a importância de se manter um ambiente harmônico e respeitoso para todos os membros da nossa comunidade.

Por ser um lugar de múltiplas formas de conhecimento, os cursos, de graduação e de pós-graduação, possuem autonomia para discutir os variados temas que permeiam a nossa sociedade e que se apresentam com base em diversas teorias científicas. Ressalta-se. contudo, que a UFMA não compactua com quaisquer tipos de ações que possam desrespeitar os valores e princípios basilares da instituição.

Nesse sentido, a UFMA informa que está averiguando o ocorrido e tomará as providências cabíveis, após o comprometimento de ouvir todas as vozes, reafirmando seu compromisso com um ambiente acadêmico inclusivo, respeitoso e transparente.

Reafirma-se, por fim, que todos os esforços da Universidade buscam a melhoria de uma sociedade mais justa, inclusiva e comprometida com a pluralidade de vozes e saberes em defesa do ensino público, gratuito e de qualidade.”