O peso da fotografia entre o olhar e a alma. Por Flávio Chaves

Por Flávio Chaves – Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. Foi Delegado Federal/Minc 

Em 1993, Kevin Carter, um fotojornalista sul-africano, capturou uma imagem que mudaria o rumo de sua vida, mas que também carregaria o peso e a agonia de um continente. Em Ayod, uma aldeia remota do Sudão devastada pela fome, sua lente encontrou uma menina pequena, desnutrida, deitada sobre a terra árida e cruel. Perto dela, a figura sombria de um abutre aguardava. A cena era uma ferida aberta, crua, à espera do fim. Era uma imagem que gritava o desespero, onde o silêncio do deserto falava sobre a fragilidade da vida e o abismo do abandono.

Kevin tirou a foto rapidamente, espantou o abutre e partiu. Mas a marca que essa cena deixaria em sua alma era tão profunda quanto as cicatrizes na pele daquelas crianças. A imagem percorreu o mundo, tornando-se um símbolo doloroso da fome que assolava a África, um lembrete da indiferença que permeia as tragédias humanas esquecidas. E com essa fotografia, Carter foi premiado com o Pulitzer, a maior honraria de sua carreira — mas também uma coroa de espinhos. Porque, para ele, a honra se entrelaçava à culpa, ao peso de ser espectador de algo que seu coração não sabia suportar.

Muitos o acusaram de ter sido um “abutre” também, um observador passivo. Mas Kevin vivia em um mundo onde o fotógrafo era, muitas vezes, uma sombra silenciosa. Existia um código rígido: não tocar, não intervir, para não levar doenças e para preservar o distanciamento. Kevin fez o que era esperado de um jornalista — mas, como ser humano, o esperado era diferente. Ele se atormentava, perguntava-se por que não havia agido, por que aquela criança, com os ossos finos e a pele quase translúcida, seguia tão viva em sua mente, enquanto seu próprio espírito se despedaçava.

Ele fazia parte do Bang-Bang Club, um grupo de fotojornalistas dedicados a revelar ao mundo as brutalidades do apartheid e as tragédias de uma África marcada pela desigualdade, pela fome e pela violência. Ali, entre câmeras e lentes, nas zonas de conflito e de desespero, Carter aprendeu que a câmera era tanto um escudo quanto uma armadilha. Ela protegia os olhos do horror imediato, mas não a alma. Ao capturar o sofrimento, ele internalizava essas dores, somando-as a cada imagem registrada.

Dois meses após o prêmio, Kevin não suportou mais. Em sua carta de despedida, ele escreveu: “Eu sou assombrado pelas lembranças vívidas de assassinatos e cadáveres… de crianças famintas ou feridas…” Seu suicídio, aos 33 anos, é um testemunho pungente da agonia que carregava. O peso de seu ofício tornou-se uma cruz invisível. A imagem daquela menina sudanesa, tão frágil e ao mesmo tempo tão forte na memória, o puxava para o abismo do remorso e da tristeza.

Kevin Carter foi mais do que um fotógrafo. Ele era um homem que testemunhou o mundo em sua forma mais crua, mais despida de ilusões. Em suas imagens, ele capturou as sombras da humanidade, aquelas que preferimos ignorar, as mesmas sombras que, por fim, o abraçaram.

A história dessa fotografia não é apenas a história da menina ou do fotógrafo. É uma história sobre todos nós, sobre a nossa capacidade de ignorar, de olhar para o outro lado quando a dor parece grande demais. A foto que Carter deixou ao mundo é um espelho — um reflexo sombrio de nossa sociedade, onde, muitas vezes, somos todos observadores, paralisados, esperando que alguém espante os abutres em nosso lugar.

Talvez o verdadeiro legado de Carter seja uma lição amarga: que cada cena que escolhemos ignorar é um peso que, de alguma forma, carregamos. Que cada vida esquecida é uma dívida que nos cobra, silenciosa e constantemente, como um sussurro de uma alma em tormento.

Enquanto líder do Hezbollah acena para acordo, Irã promete atacar Israel

Hezbollah nomeia Naim Qassem como novo secretário-geral

Naim Qassem, do Hezbollah, admite negociar um acordo

Wálter Maierovitch
do UOL

O guia supremo do Irã, o enfermo aiatolá Ali Khamenei, ordenou ao Conselho de Segurança Nacional que se prepare para atacar Israel. Seria a resposta ao ataque às instalações militares iranianas, da madrugada da última sexta-feira. A notícia foi revelada pelo New York Times.

Enquanto isso, o novo guia do Hezbollah, Naim Qassem, acenou para um acordo de paz, prometendo o fim dos bombardeamentos na região israelense da Galileia (norte de Israel). Dois cenários em aparente contradição — só aparente, como entendem os analistas militares internacionais e os operadores do direito internacional público.

DAR RESPOSTA – Todos sabem que o Irã, na sua meta expansionista e religiosa no Oriente Médio, financia e influencia o Hezbollah, Hamas, Jihad palestina, milícias iraquianas e frente síria.

No caso, volto a frisar, a contradição é apenas aparente. Os aiatolás entendem necessária uma resposta, para não parecer estarem em desvantagem. O Hezbollah, sob bombas e invasões, tenta um respiro para se reorganizar, depois da sua cúpula de governo ter sido eliminada.

Naim Qassem, um clérigo-combatente, fez a primeira aparição como novo guia do Hezbollah. E sua manifestação foi surpreendente.

TUDO IGUAL – Disse que irá manter a linha política beligerante do antecessor Hassan Nasrallah e que continuará a bombardear o norte de Israel, ou seja, a região da Galiléia, onde ocorreu um êxodo de 60 mil israelenses, diante dos bombardeamentos progressivos. Até aí, nenhuma surpresa.

Surpreendeu, no entanto, ao ressaltar que o Hezbollah está pronto a um acordo com Israel.

Para os especialistas em geoestratégia militar e em geopolítica, ficou claro que o Hezbollah está tentando separar as duas guerras (Israel x Hamas e Israel x Hezbollah) e se descolar da imagem do Hamas.

SOLIDARIEDADE – O Hezbollah, no dia 8 de outubro de 2023, dia seguinte ao da ação terrorista do Hamas em Israel, declarou solidariedade.

No momento, Israel continua a bombardear o sul do Líbano e já ocupa uma faixa de 6 km. As tropas de Unifil, compostas pelos chamados capacetes azuis de paz da ONU, estão aquarteladas.

A linha azul traçada pela ONU cobre 120 km e corre entre o mar Mediterrâneo, a oeste, e o Golã, a leste. Foi essa linha estabelecida pela resolução ONU de número 425, de 19 de março de 1978. A área ocupada pelas instalações Unifil, e vista por Netanyahu com obstáculo à defesa de Israel, tem pouco mais de 20 km e chega até o rio Litani.

SE REORGANIZAR – O novo líder do Hezbollah, conforme percebeu o comando militar israelense, pretende deixar o combate da fronteira sul para ter um cessar fogo de modo a se reorganizar no Líbano, em especial na capital Beirute, onde o seu quartel-general foi destruído.

O ministro da defesa de Israel, Yoav Gallant, publicou uma foto de Qassem, com o título: “Emprego temporário”. Foi a resposta à afirmação de Qassem de que Israel pagaria caro a permanência no Líbano.

Para os 007 da inteligência ocidental, duas conclusões podem ser tiradas do pronunciamento de Qassem.

RECOMPOSIÇÃO – A primeira indica que o Hezbollah dá sinais de recomposição da sua cúpula de governo, depois das mortes de Hassan Nasrallah e do seu sucessor, o sobrinho e também clérigo Safi Al Din.

O arco temporal de espera para a escolha do novo guia do Hezbollah foi considerado longo, a mostrar o sucesso de Israel no ataque pontual a Beirute, mais especificamente ao bairro xiita de Dahieh, centro administrativo do Hezbollah.

Vale lembrar que Nasrallah foi assassinado em 27 de setembro passado e Qassem só deu as caras — ou melhor, sentiu-se seguro para aparecer em público — apenas em 30 de outubro.

EM GUERRA – A segunda conclusão decorre da promessa de Qassem de continuar a linha política, beligerante e filo-iraniana de Nasrallah. Disse, com todas as letras, que continuará a atacar, embora queira se descolar do Hamas, ainda que temporariamente.

Em razão da desarticulação, o Hezbollah intensificou as chamadas “ações kamikaze”. Qassem, segundo os serviços secretos, queria aparecer pela primeira vez com um troféu: o ataque kamikaze à famosa Unidade 8.200 de Israel, especializada em espionagem eletrônica. Um caminhão foi lançado próximo do prédio.

Ao lado da americana NSA, trata-se da segunda maior agência de espionagem eletrônica do planeta. A lembrar: Israel consta com três serviços de espionagem e operações especiais: Mossad (inteligência externa), Shin Bet (inteligência interna) e Unidade 8.200 (inteligência eletrônica).

MAIORES ALVOS – O motorista do caminhão matou-se e o veículo ficou imobilizado em uma parada de ônibus, matando um idoso e ferindo cerca de 60 pessoas.

Com a definição do novo líder do Hezbollah, os dois maiores alvos de Israel passaram a ser Quassem e Mohammed Sinwar, este do Hamas, irmão do ex-comandante em chefe Yahya Sinwar, morto em confronto com cadetes israelenses em 16 de outubro.

Mohammed Sinwar, dada a sua atividade de construtor, foi considerado o responsável pela construção dos túneis do Hamas que surpreenderam os agentes de inteligência de Israel.

A AMEAÇA DO IRÃ – A teocracia iraniana movimenta-se e vaza informações para fazer parte do seu sistema de propaganda.

Dado o grave estado de saúde de Khameni, que tenta emplacar o filho na sucessão de guia-supremo do Irã, o país tem que ameaçar. Joga mais internamente, pois existe uma disputa com relação à sua sucessão.

Num pano rápido, a paz está distante. Para se ter ideia, sete israelenses foram mortos ontem por bombas disparadas pelo Hezbollah. O número de mortos no Líbano, pelos disparos das forças israelenses, chegou a 45 — e o premiê libanês, Najib Mikati, disse esperar por um imediato cessar-fogo.

Dividir a centro-direita será a estratégia da esquerda para as eleições de 2026

Charge do Duke (O Tempo)

Alexandre Garcia
Gazeta do Povo

Consolidou-se no segundo turno a força da centro-direita que se espalhou pelos municípios brasileiros no primeiro. A esquerda encolhe; o símbolo do PT se torna uma estrela cadente. O mais significativo é que o partido não teve nem sequer candidato para a prefeitura de São Paulo, onde foi criado, tendo de apoiar o candidato do PSol, que não elegeu prefeito algum.

Dos 39 municípios da Grande São Paulo, região de operários e berço de sindicatos, a esquerda ficou com apenas três prefeituras, com PDT, PSB e PT. Lula nem foi a São Bernardo votar e a alegação oficial foi a de que já não é obrigado, pelos 78 anos de idade; seria melhor ter assumido o motivo real: o risco de voar com hematoma intracraniano.

QUASE EMPATE – O segundo turno mostrou quase empate em Fortaleza (CE), Pelotas (RS) e Ribeirão Preto (SP) – onde a diferença foi de 687 votos. Casos para recontagem manual, se isso fosse possível. Em Camaçari (BA), Campo Grande (MS), Olinda (PE) e Caxias do Sul (RS) o resultado foi um apertado 51% a 49%.

No primeiro turno, todos os eleitos já eram prefeitos; no segundo, repetiu-se o favoritismo de quem já detinha o poder municipal em Palmas (TO), São Paulo (SP), Porto Alegre (RS) e Belo Horizonte (MG).

Partidos mais à esquerda, como PSTU, PCB e PCO, além do PSol, não elegeram prefeito algum, assim como ficaram fora de prefeituras de capitais o PSDB, o PDT, o PCO e o Cidadania (ex-PCB). O PT ficou só com Fortaleza e está em nono lugar em prefeituras.

EXEMPLO DE GRAEML – Curitiba mostrou que é possível uma pessoa sem Fundo Partidário, sem dinheiro, boicotada pela mídia e, na prática, candidata avulsa, poder chegar ao segundo turno com 43% dos votos válidos.

Cristina Graeml decidiu disputar com o vice-prefeito, apoiado pelo prefeito, pelo governador e por ex-governador, e chamou a atenção do país inteiro pela determinação e coragem, como candidata saída das aspirações populares e não de diretórios partidários e acertos e interesses políticos.

Sua presença na eleição mostra que é possível sair do povo e não da estrutura política tradicional. Não foi eleita, mas é vitoriosa.

O CASO MARÇAL – Na principal eleição também surgiu um personagem sem biografia partidária, Pablo Marçal, que quase foi para o segundo turno, mas insistiu em participar da decisão e se perdeu. Acabou dando palanque a um dos candidatos, e deixou à mostra o objetivo de se promover; com erros de tática e estratégia, acabou perdendo o que conquistara.

Em Goiânia (GO), o governador Ronaldo Caiado mostrou sua força para 2026, derrotando o candidato de Jair Bolsonaro e do deputado Gustavo Gayer – que, abalado pela visita da Polícia Federal, atribuiu a derrota a Caiado e o chamou de “canalha” nas redes.

A reação emocional esquece que, se a centro-direita se dividir, abre espaço para a esquerda em 2026. É preciso ser pragmático como Tarcísio de Freitas e guardar as emoções para os prazeres e não para a guerra eleitoral. Dividir a centro-direita será a estratégia da esquerda neste pré-2026.