Próximos dias serão cruciais para avaliação do quadro de Lula

Cicatriz na nuca de Lula

Cicatriz na nuca de Lula mostra que foi um choque forte

Cláudia Collucci
Folha

A recorrência do sangramento intracraniano sofrido pelo presidente Lula (PT) tinha 3 cm de diâmetro e pode aumentar as chances de novas hemorragias e demandar um tempo maior de recuperação, segundo neurologistas. Por outro lado, o petista tem um bom prognóstico por ter tido acesso a uma boa equipe e não ter nenhuma alteração neurológica, afirmam.

Lula sentiu fortes dores de cabeça e, depois de exames feitos no Hospital Sírio-Libanês em Brasília, foi transferido para a unidade de São Paulo para uma cirurgia de emergência de drenagem do hematoma.

RECORRÊNCIA – A hemorragia intracraniana está relacionada à queda sofrida por Lula no último dia 19 de outubro. Nesses casos, as chances de recorrência variam entre 15% e 20%, segundo a literatura médica.

Segundo seus médicos, Lula está estável, conversa e se alimenta normalmente e não há comprometimento cerebral. O hematoma diagnosticado no presidente é chamado de subdural crônico frontemporal.

“No crânio, depois do osso, a gente tem três membranas, que são as meninges. Esse hematoma está entre a primeira e a segunda. Ele está abaixo da dura mater, que é a camada mais espessa e mais próxima do osso. Ele tem um contato médio com o cérebro porque tem outras meninges protegendo [o cérebro]”, explica a neurocirurgiã Ana Gandolfi, coordenadora do setor de emergências neurocirúrgicas da Escola Paulista de Medicina da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo).

PACIENTE IDOSO – Segundo ela, a recorrência do sangramento, após um primeiro evento provocado por queda, não é incomum entre os pacientes mais velhos.

“O paciente mais idoso tem uma atrofia cerebral, naturalmente. A gente fica com um espaço um pouco maior. Mesmo pequenos traumas levam a microssangramentos, que vão crescendo naquele ambiente ao longo do tempo.”

Na avaliação de Ana Gandolfi, baseada nas informações dadas pela equipe médica de Lula em entrevista coletiva, a cirurgia feita no presidente é de menor porte e não está associada a inchaço no cérebro.

“O hematoma tem um crescimento lento, o cérebro vai reacomodando. Ele não tem uma lesão neurológica do tecido cerebral, então, normalmente, é menos grave”, diz.

EVOLUI BEM – Por ter sido operado sem nenhum tipo de alteração neurológica, as chances de sequelas são menores, segundo a médica. “Normalmente, é um paciente que evolui bem.”

A mesma avaliação tem José Oswaldo de Oliveira Júnior, neurocirurgião do Hospital do Servidor Estadual de São Paulo, com a ressalva de que não dá para garantir neste momento que o presidente está livre de novas intervenções ou sequelas.

“É um procedimento que não é de grande porte, geralmente está associado a uma boa evolução, mas não é possível garantir que não haja necessidade de uma reintervenção porque pode ter recidiva do crescimento [do hematoma] e aparecimento novamente [de sangramento] para você drenar mais tarde.”

SEQUELAS – Também para o neurocirurgião Luiz Severo, as chances de sequelas ainda existem, e tudo vai depender de como será a evolução do presidente nos próximos dias e se haverá necessidade de outras abordagens, por exemplo, mais uma cirurgia para estancar um eventual novo sangramento.

“É preciso vigilância para o risco de epilepsia, riscos de novos sangramentos e de alterações cognitivas”, diz.

Segundo Severo, hematomas podem comprimir áreas importantes do cérebro, como da fala, da motricidade e das emoções, causando sequelas que incluem dificuldades motoras (fraqueza, por exemplo), problemas de fala, alterações cognitivas (como dificuldade de memória, concentração e raciocínio) e emocionais, como depressão e ansiedade.

REABILITAÇÃO – “Algumas pessoas podem experimentar déficits cognitivos temporários, enquanto outras podem ter dificuldades de longo prazo. A reabilitação pode ser necessária para ajudar na recuperação das funções cognitivas.”

Também há chances de o paciente desenvolver quadro de epilepsia. “Não é à toa que sempre fazemos anticonvulsivante no pós-operatório em todos”, explica o médico.

Outro risco, diz o neurocirurgião, é a necessidade de novas intervenções cirúrgicas, aumentando riscos de mais lesão. Por outro lado, pondera, a neurocirurgia está cada vez mais segura, com incisões menores e menor risco de lesões. “O presidente certamente teve acesso ao melhor e isso traz melhor prognóstico.”

TEMPO MAIOR – Segundo Severo, esse novo sangramento pode demandar um tempo maior de recuperação. “Na primeira vez, ele ficou sob vigilância nas primeiras 48 horas do edema cerebral. Agora ele foi operado. Após uma craniotomia, a gente recomenda repouso de 15 a 30 dias, considerando que não tenha nenhum tipo de complicação.”

Em entrevista coletiva nesta terça-feira, a equipe médica de Lula disse que ele foi submetido a uma trepanação, que é uma pequena perfuração no crânio. Segundo afirmaram, o termo craniotomia, que constava de boletim médico inicial, costuma ser usado para intervenções maiores.

Na opinião do neurologista Oliveira Júnior, do Hospital do Servidor Estadual, além do repouso, é recomendável que Lula evite viagens nas próximas semanas, especialmente as aéreas.

SEM VIAJAR – “As viagens aéreas têm um risco por causa da variação da pressão. Normalmente, quando você fecha a porta de um avião, você pressuriza o ambiente, fica com uma pressão bem mais aumentada dentro do que fora. Só esse tipo de variação já pode não ser benéfica para o paciente”, afirma.

A depender da evolução do quadro clínico, o presidente também pode necessitar de um acompanhamento médico mais contínuo, na avaliação de Luiz Severo.

“Pode incluir consultas neurológicas regulares para monitorar a recuperação e identificar precocemente quaisquer complicações; fisioterapia, para ajudar na reabilitação motora, caso haja fraqueza ou problemas de coordenação; fonoaudiologia, se houver dificuldades de fala ou linguagem; e avaliação psicológica, para lidar com questões emocionais e cognitivas.”

PF gastou 880 páginas para criar a narrativa de um golpe impossível

Moisés Calado ??????????+ on X: "Jair na cadeia!  https://t.co/vywc8uxe4T" / X

Charge do Nando Motta (Arquivo Google)

J.R. Guzzo
Revista Oeste

O Supremo Tribunal Federal está impondo ao Brasil, na base da pura força bruta, um estado de selvageria legal jamais visto nos seus 135 anos de existência como República. Não se trata, infelizmente, de uma opinião. Opiniões podem estar erradas — frequentemente estão erradas, aliás. Fatos, ao contrário, sempre são fatos, e existem porque existem.

Todo mundo tem o direito a acreditar que dois mais dois são sete, digamos, ou que a água ferve a 45 graus. É o que está dizendo o STF. Mas dois mais dois vão continuar sendo quatro, e a água vai continuar fervendo a 100 graus centígrados.

TUDO SEM NEXO – Nada a fazer, certo? Errado. O Supremo faz — e com isso destrói o país, a lei e a ordem. O ministro Alexandre de Moraes e seus acompanhantes no STF querem que você acredite que um aglomerado de 37 pessoas, a lotação de um ônibus, quis dar um golpe de Estado no Brasil.

Não faz nenhum nexo racional — e não vai fazer nunca. Não é possível, de jeito nenhum, derrubar um governo sem que pelo menos um soldado se mexa do lugar, sem tirar um tanque da garagem e sem dar ordens específicas a nenhuma autoridade. Ninguém, nunca, deu um golpe militar se o Exército em peso ficou contra esse golpe.

Não dá para dar um golpe com uma verba de R$ 100 mil. É impossível, apenas isso. Qualquer dúvida a respeito pode ser eliminada com uma leitura rasa das 880 páginas de acusações que a Polícia Federal acaba de encaminhar à Procuradoria-Geral da República.

ORDENS DE MORAES -A polícia e o Ministério Público, no caso, são cumpridores das ordens que recebem há dois anos seguidos do ministro Moraes — que, por sinal, se coloca na posição de vítima de uma tentativa de assassinato, chefe das investigações, promotor e juiz do processo, coisa que não existe em nenhum país civilizado do planeta.

O total das provas reunidas pela PF, objetivamente, está entre o zero e a raiz quadrada do zero. O que a polícia apresentou, após quase 700 dias de investigação, fica abaixo do que fazia o grande Bolinha França, quando resolvia se fantasiar de toca-discos ou de Abominável Homem das Neves para investigar, incógnito, as delinquências que sempre jogava em cima do pai da Luluzinha, o simpático Sr. Palhares.

O detetive Bolinha estava errado em 100% dos seus casos; nunca acertou uma. O inquérito do golpe está indo por aí.

SEM LÓGICA

– O relatório consegue ir da primeira à última palavra sem uma única acusação lógica, sem qualquer prova que possa ser levada a sério em qualquer parquet do mundo democrático e, sobretudo, sem qualquer ligação coerente com o seu denunciado número 1, o ex-presidente Jair Bolsonaro.

Tudo o que a polícia conseguiu apresentar em seu relatório, uma geleia geral escrita em português primitivo e sem qualquer vestígio de análise lógica ou vida inteligente, são conversas sem pé nem cabeça entre um bolo de subordinados que não tinham autoridade para dar ordens a um guarda-noturno — nec caput nec pedes, como diriam os ministros em seu latinório de curso ginasial.

Eles disseram o que a PF diz que disseram? Podem ter dito e repetido, mas e daí?

TUMULTO MENTAL – Os diálogos são apenas uma demonstração clara de tumulto mental agravado, como essas coisas que você lê na internet garantindo que a China tem uma base secreta na Lua, que o Brasil precisa de um “banho de sangue” para “limpar a política” ou que John Lennon continua vivo em algum lugar do mundo — é isso, e só isso.

Não há nenhuma menção ao tipo de veneno que seria usado para matar o presidente — e nem por que os líderes militares do golpe, todos eles com acesso legal a armas de fogo, precisariam de veneno para realizar o seu plano.

Um padre de Osasco faria parte do “núcleo jurídico” do golpe. Um padre no “núcleo jurídico”? Por que um padre? O golpe, aliás, teria “seis núcleos”. Nenhum dos acusados, em nenhum lugar, fala em núcleo de coisa nenhuma. Foi a PF que inventou a coisa dos “núcleos” — e passou a apresentar a sua criação como prova do crime.

E BOLSONARO? – Não está claro, como nunca esteve desde o começo dessa história, por que Bolsonaro não deu o golpe de que é acusado quando era presidente da República e comandante em chefe das Forças Armadas.

Não há, em nenhum ponto do inquérito, qualquer indício de que ele tenha tentado dar alguma ordem nessa direção, nem direta nem indireta.

Se ele tinha algum desejo real de impedir a posse de Lula e continuar na Presidência, por que saiu do governo, até antes da hora certa, foi para os Estados Unidos e só depois tentou dar o golpe — sem um único e escasso pelotão de tiro de guerra, e com uma turba de motoboys, barbeiros e até um autista, em vez de generais de Exército, brigadeiros do ar e almirantes de esquadra? Vai saber.

Perda de tempo congestiona Congresso e atrasa agenda econômica

Charge do JCaesar | VEJA

Dora Kramer
Folha

Desta quinta-feira (5) até o último dia útil (sexta-feira, 20 de dezembro) antes do recesso, o Congresso Nacional tem 12 dias para examinar, debater, fazer ajustes e votar o pacote fiscal, a Lei de Diretrizes Orçamentárias, o Orçamento de 2025 e a regulamentação da reforma tributária.

Isso só falando das urgências urgentíssimas da pauta econômica de interesse do governo. Um afogadilho do qual boa coisa não se pode esperar, mas está feito.

TEMPO PERDIDO – Poderia ter sido diferente. O problema é que se perdeu muito tempo ao longo do ano em que as atividades legislativas foram suspensas devido a campanhas eleitorais às quais deputados e senadores deveriam dedicar apenas o fim de semana estendido de sexta a segunda-feira.

Não foi só isso. Houve desperdício de energia e atenção com tolices de costumes, com atritos envolvendo o Judiciário, com o embate das emendas permeado de chantagens, com barbeiragens políticas do Planalto e, por fim, com o processo (in) decisório do presidente Lula em relação aos cortes de gastos.

Faz tempo que os ministros Fernando Haddad e Simone Tebet começaram a falar nos estudos de contenção de despesas. Portanto, se supõe que estivessem elaborando as medidas desde então, bem antes das eleições municipais depois das quais, segundo eles, haveria o anúncio.

MAIS ATRASOS – Passou-se mais de um mês antes de, enfim, o país conhecer o que o governo entendia como o ajuste necessário para o equilíbrio das contas, e aí já estávamos em dezembro.

Pacote concebido para atender ao mesmo tempo aos ditames da economia e às conveniências da política, foi por isso recebido com alto grau de desconfiança. Há um cipoal de projetos de variados formatos e propostas de emendas constitucionais que chegam a conta-gotas no Congresso a ainda sem que se tenha deles compreensão clara.

Se o pessoal especialista em números ainda não entendeu direito o que ali são promessas vãs e meras intenções de modo a separá-las de decisões de fato consequentes, o que dirá do entendimento a ser alcançado por um colegiado de 513 deputados e 81 senadores que em sua maioria não são do ramo.

APENAS 12 DIAS – Repetindo: são 12 dias descontados os fins de semana e considerada a duvidosa semana de cinco dias.

Ainda que houvesse dedicação exclusiva com um “intensivão” para dar a eles familiaridade aos meios e modos da economia, isso implicaria deixar de lado o Orçamento e a regulamentação da reforma tributária. Temas também complexos.

Uma solução para corrigir o atraso de responsabilidade compartilhada por Executivo e Legislativo seria a convocação extraordinária do Congresso em janeiro, por iniciativa de um dos dois Poderes. Já foi prática comum no passado, não é mais.

ESTÃO EXAUSTOS – Trabalhar no recesso está fora de cogitação. Afinal, suas altezas devem estar muito cansadas depois da exaustiva jornada eleitoral que, embora municipal, tem reflexo nas respectivas sobrevivências políticas em 2026.

Deve ter sido extenuante também o processo de construção de unanimidades para a sucessão nas presidências da Câmara e do Senado. Ocorre em fevereiro de 2025, mas a arquitetura de interesses internos ocupou 2024 todo.

Portanto, o mais provável é que se recorra ao chamado esforço concentrado em votações atabalhoadas. Nelas, valorizam-se os prazos em detrimento do conteúdo.

HAJA JABUTIS… – E mais: num ambiente de toque de caixa é onde costumam se criar os jabutis, bichinhos que não sobem em árvores a não ser por obra de enchentes ou mãos de gente.

Aqui o que veremos será a pressa sendo muito amiga da imperfeição, cujo efeito para ficar no campo dos ditados— é o risco de o país comer esse repasto todo cru e muito quente.