“Síndrome da turbina eólica”: um estranho fenômeno de saúde tem afetado seres humanos, diz Fiocruz

A geração de energia eólica já corresponde a 20% de todo o montante energético necessário para abastecer o Brasil, indicam dados da Associação Brasileira de Energia Eólica (Abeeólica).

Até 2023, eram 890 parques eólicos instalados em pelo menos 12 estados do país (que somavam, juntos, mais de 25 gigawatts de capacidade), informa a Abeeólica. Desses, mais de 85% estão concentrados na região nordeste, e foram responsáveis, nos últimos anos, por um aumento de até 21% no PIB regional, como nota a Agência Brasil.

Mas um estudo da Fiocruz Pernambuco, realizado em conjunto à Universidade de Pernambuco (UPE), acessou um estranho efeito de saúde dos parques eólicos sobre a população pernambucana residente no entorno da sua instalação.

As eólicas, que necessitam de regiões em que o vento é constante e tem velocidade suficiente para girar as turbinas de maneira eficiente, costumam ser posicionados em zonas rurais — áreas planas, com vegetação menos frequente e menos densa, sem obstruções para barrar o “trânsito” das correntes de vento. Áreas litorâneas e offshore também são boas escolhas.

90% do estado do Pernambuco está inserido no chamado “Polígono das Secas”, região em que as estiagens são prolongadas e há uma má distribuição da precipitação, de acordo com o Atlas Eólico e Solar de Pernambuco. É justamente nessa região que o potencial é alto para a instalação de parques para a captação de energia eólica e solar.

Hoje, o estado figura em sexto lugar na lista de produção energética eólica, com pelo menos 34 parques produtivos e 781,99 megawatts de potência.

O estudo da Fiocruz identificou, entre moradores de áreas próximas à instalação das turbinas e torres eólicas, uma síndrome associada à ocorrência de dores de cabeça, ansiedade, insônia, irritabilidade e incômodo auditivo causado pelo “ruído constante” e por “infrassons emitidos pelo funcionamento das torres eólicas”, nota a instituição. O mal foi denominado “síndrome da turbina”.

De acordo com a Fiocruz, que entrevistou, em 2023, 105 pernambucanos residentes em áreas próximas às eólicas, pelo menos 70% das pessoas “manifestaram a vontade de deixar suas residências”, e 66% utilizam medicamentos para dormir, incluindo crianças e idosos.

Além disso, mais de metade dos entrevistados (54%) dizem sofrer de perda auditiva, com 31% relatando incômodo visual — o “efeito estroboscópico”, causado pelo giro constante das pás das turbinas, que projetam sombras gigantes. A estrutura completa das eólicas pode variar entre 140 e 185 metros de altura, o equivalente a um prédio de até 56 andares; já as hélices podem ter até 2,5 metros de largura e 50 metros de altura.

41% dos entrevistados, por sua vez, disseram ter “alergias e dermatites” causadas pela poeira das hélices, que se espalha pelas residências.

Pesquisadores da UPE, com apoio de um fundo subsidiado pelo programa Inova Fiocruz, têm mobilizado ações de saúde pública nas regiões afetadas, destinadas a mitigar os efeitos da síndrome na população com o auxílio e equipes multidisciplinares, que envolvem médicos e enfermeiros, fonoaudiólogos, psicólogos e nutricionistas.

“Além de testes de audiometria para avaliar perdas na acuidade auditiva decorrentes da exposição aos ruídos, os profissionais utilizaram Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PICS) como forma de minorar o sofrimento mental nas comunidades”, informa o portal da Fiocruz.

Da Revista Forum.

Única fake news legítima na história do Pix foi produzida pelo próprio governo Lula. Por J. R. Guzzo

Por J. R. Guzzo

Colunista do Estadão

O governo Lula pede ao público pagante que acredite na seguinte história que está contando – ou que tentou contar. A Receita Federal soltou uma ordem exigindo informações sobre o uso do seu Pix, mas nunca, em tempo algum, teve nenhuma intenção de cobrar um real a mais no imposto de renda que você paga. Foi tudo uma fake news da extrema direita para sabotar a ordem econômica.

Alguém já viu a Receita soltar uma portaria, uma única que fosse, para cobrar mais imposto? Alguém já viu o presidente Lula contar uma mentira, também uma única que fosse, ou dizer uma coisa e fazer outra? Ou seja: por que o medo?

Diante da vida pregressa que o governo tem em matéria de mentira e de verdade, já seria um milagre que a população acreditasse nas negativas coléricas sobre a cobrança de mais imposto. “Toca a Polícia Federal em cima deles”, exigiam as autoridades. “Chama a PGR. Chama a AGU. Chama o Xandão”. Vai daí o próprio governo, em pânico diante da reação indignada do público, anulou a portaria que tinha acabado de soltar. Mas se a revolta que explodiu nas redes sociais era fruto de fake news, e a decisão não tinha nada de errado, por que raios a portaria foi revogada?

É, mais uma vez, o governo sendo pego em flagrante delito – e voltando atrás quando é descoberto. Ficaram todos revoltados com as redes, mas o problema não tem absolutamente nada a ver com redes, “discurso do ódio” e outras criações do seu estoque de mulas-sem-cabeça. Tem a ver unicamente com a morte e o enterro de qualquer credibilidade que o poder público possa ter no Brasil de hoje. Ninguém acredita mais em Lula, Janja, Haddad etc., nem leva a sério nada que venha do governo – é esse o drama.

Lula já disse que a picanha estava, sim, caindo de preço, que não haveria impostos nas “blusinhas” e que “ninguém” tem mais “responsabilidade fiscal” do que ele. Já prometeu arroz do governo a preço de liquidação. Já anunciou que “agora” chegou o momento da “colheita” – como assim, se não plantou nada? A questão, à essa altura, se reduz a uma pergunta só: qual a razão objetiva para uma pessoa normal acreditar em qualquer coisa que o presidente diga, ou que o governo anuncie?

A única fake news legítima nessa história do Pix, na verdade, foi produzida pelo próprio governo, com a gritaria histérica contra as redes. É como se fossem elas, e não a máquina estatal, que tivessem escrito a ordem idiota – tão idiota que eles mesmos tiveram de revogar. Pior que o soneto parece ser a emenda. O nível desesperadamente baixo da linguagem do novo Ministério da Comunicação em sua tentativa de reagir ao desastre só mostra que eles continuam sem entender nada.

Lula nunca teve compromisso com a democracia. Do Estado de São Paulo

Do Estadão

O presidente Lula da Silva está atordoado após o vexame que foi sua reação amadora ao já famoso vídeo no qual o deputado oposicionista Nikolas Ferreira (PL-MG) levanta suspeitas de que uma instrução normativa da Receita que previa o monitoramento de operações via Pix seria o primeiro passo para cobrar mais impostos. Incapaz de fazer vingar sua versão dos fatos, Lula mandou criminalizar o discurso da oposição, numa clara demonstração de que seu compromisso de defender a democracia – com o qual se elegeu presidente na disputa contra Jair Bolsonaro – nunca foi realmente sério.

Já era previsível a mobilização de partidos e entidades esquerdistas para acionar a Justiça contra os opositores que estão fazendo o governo de gato e sapato nas redes sociais, mas, na prática, o efeito disso é limitado e provavelmente ficará apenas no terreno do ridículo. Por outro lado, a contraofensiva oficial determinada por um presidente da República humilhado mostra que Lula está disposto a usar a força colossal do Estado contra cidadãos que ousam criticá-lo ou levantar dúvidas sobre suas reais intenções, algo que é intrínseco à política. É evidente que isso contraria os fundamentos da democracia e do Estado de Direito.

O deputado Guilherme Boulos (PSOL-SP) e o grupo de advogados Prerrogativas anunciaram representações ao Conselho de Ética da Câmara e à Procuradoria-Geral da República contra o deputado Nikolas Ferreira, acusando-o, entre outras coisas, de “estelionato” e “crime contra a economia popular”. Qualquer um de boa-fé que tenha assistido ao vídeo do parlamentar sabe que ali não houve nada disso. E ainda que houvesse, mentir na política não é crime, assim como é lícito em uma democracia desqualificar medidas governamentais, ao contrário do que alguns querem fazer parecer. Mas aqui ao menos estamos apenas no terreno do pitoresco.

Tudo fica mais sério quando, por ordem direta do Palácio do Planalto, a Advocacia-Geral da União (AGU) aciona a Polícia Federal (PF) para que seja aberto um inquérito policial a fim de investigar a disseminação de “fake news” sobre o Pix, notadamente sobre a suposta taxação do serviço. A tática é manjada: o governo Lula estigmatiza como “fake news” tudo o que lhe desagrada como forma de cerceamento do livre exercício da crítica. Não custa reiterar: espalhar mentiras ou, vá lá, “desinformação” não é crime, salvo em raras exceções tipificadas no Código Penal – apologia ou incitação ao crime, manifestações racistas, crimes contra a honra, contra a saúde pública e fraudes processuais, entre outras. Nada disso se aplica a este caso.

Portanto, não há qualquer justificativa republicana, quiçá jurídica, para a intervenção de um órgão de Estado como a AGU em socorro de um governo zonzo em meio a uma batalha eminentemente política. Donde se pode concluir que a ordem de Lula para que a AGU envolva a PF no caso do Pix não se presta a outra coisa senão a intimidar opositores, que, a depender do desdobramento do caso, pensarão dez vezes antes de criticar publicamente uma medida do governo.

A ameaça de Lula não poderia ser mais clara: se até um parlamentar como Nikolas Ferreira, o deputado mais votado nas eleições de 2022, pode ser acionado na Justiça pelo que fala contra o governo, malgrado estar amparado pela imunidade parlamentar assegurada pela Constituição, o que pode acontecer com um cidadão que não tem as mesmas prerrogativas?

Na petição à PF, a AGU argumenta que “os resultados negativos da ampla disseminação de desinformações sobre o Pix já estão sendo sentidos com a maior queda de número de transações desde a implementação do sistema, após desinformação sobre sua taxação, conforme dados do Banco Central”. E daí? Se o número de movimentações financeiras via Pix caiu, isso se deve não à eventual prática de crimes, mas à inépcia de um governo em descrédito.

Se Lula é incapaz de defender no campo da comunicação uma medida correta de seu governo, não será acossando adversários na Justiça que vai resgatar a confiança dos brasileiros.