Decisão de Moraes de barrar viagem de Bolsonaro teve duplo efeito 

Bolsonaro queria mostrar que continua amigo de Trump

Francisco Leali
Estadão

Na segunda-feira, dia 20, Donald Trump volta ao comando da maior potência mundial. O ex-presidente Jair Bolsonaro gostaria de estar lá de corpo e alma. Mas seu desejo foi barrado pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal.

O retorno de Trump à presidência dos Estados Unidos tem, após amargar a derrota na tentativa de reeleição, o condão de reacender as esperanças de boa parte da direita mundo afora, com o Brasil incluído. Entre o círculo próximo de Bolsonaro é difundida a crença de que Trump pode ser fonte de pressão para, quem sabe, o ex-presidente brasileiro ser liberado para retomar o direito de ter seu nome nas urnas na eleição de 2026.

O TIO RICO… – O novo presidente dos EUA já deu inúmeros exemplos de simpatia a Bolsonaro. Posa como o tio rico do parente em ideias sul-americano. As manifestações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendendo a candidatura de Kamala Harris, derrotada por Trump, completam o cenário e deixam claro para o republicano quem na política brasileira está do seu lado.

A festa da posse seria, portanto, uma oportunidade para Bolsonaro mostrar para todo mundo sua proximidade com o chefe do Poder Executivo norte-americano. Num cenário ideal, e certamente nos seus planos, Bolsonaro ia lá tirar uma selfie ao lado de Trump e fazer a imagem circular nas redes sociais.

Uma fração de segundos de alguma fala do próprio presidente empossado dos EUA seria, então, ainda melhor.

SIGNIFICADO POLÍTICO – A cena possível não teria o poder de anular decisões judiciais no Brasil, mas teria um significado político grande. O líder da maior nação ocidental acalentando um ex-presidente mirado pela justiça é algo que pode pesar na cabeça de magistrados na hora de um veredicto.

Por essas e outras, a decisão de Moraes tem um duplo significado. Primeiro, ao negar ao ex-presidente a devolução de seu passaporte e barrar a viagem aos Estados Unidos, o ministro deixa claro que Bolsonaro é investigado, indiciado e tem contas a prestar ao STF.

O segundo efeito do despacho de Moraes é político. Frustra o plano da selfie Bolsonaro-Trump. E rouba do ex-presidente a oportunidade de tentar cacifar-se interna e externamente como um político perseguido e que desfruta de certa proximidade do novo presidente dos EUA.

Na retórica de Trump, o Brasil de Lula é parte do grande México

AMÉRICA LATINA - Após sua posse nesta segunda-feira (20), o presidente dos  #EstadosUnidos, #DonaldTrump, afirmou que países da América Latina,  incluindo o Brasil, “precisam mais dos EUA” do que os americanos deles. “Josias de Souza
do UOL

Para Trump, o México é a América Latina levada longe demais. O resto do continente latino-americano é visto como o estereótipo mexicano com variações. Nessa visão, o Brasil é parte do quintal pseudo-dependente dos Estados Unidos. Mas não é um vizinho de cerca. Trump avalia que, passando a tranca na porteira do México, livra-se dos mexicanos e de todos os seus assemelhados.

Vem daí o desdém retórico de Trump, que disse não precisar dessa terra de palmeiras e sabiás. “Eles precisam muito mais de nós do que nós precisamos deles”, disse o czar da Casa Branca sobre o Brasil e a América Latina. “Na verdade, não precisamos deles, e o mundo todo precisa de nós”, ele completou.

SEM BRIGA – Horas antes, Lula dissera que não quer “briga” com o inquilino seminovo da Casa Branca. O diabo é que o apreço pela harmonia diplomática chega depois da torcida pela vitória de Kamala Harris durante a campanha. Trump não ignora que os Estados Unidos são o segundo maior parceiro comercial do Brasil, atrás da China. Mas talvez não resista à tentação de dar o troco.

Os acenos para Milei e as pauladas em Maduro são parte da estratégia. No mais, ainda que os chilenos continuem se comportando como os ingleses que os argentinos acreditam ser, mesmo que os brasileiros continuem achando que não têm nada a ver com os outros, o México sempre será, na retórica de Trump, uma cota suficiente de América Latina.

“Estranho um ministro do STF mandar notificação sobre muro”

Declaração foi feita pelo prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes

Ricardo Nunes
Ricardo Nunes Foto: EFE/ Sebastiao Moreira

O prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), criticou, nesta segunda-feira (20), uma ação no Supremo Tribunal Federal (STF) que questiona a construção de um muro na região conhecida como Cracolândia, no centro da cidade.

Durante a reinauguração do Mercado Municipal, o prefeito disse ser “lamentável fazer com que um ministro do STF, com tanta ocupação, seja provocado por uma situação só de discurso político”.

O muro em questão, erguido com o intuito de cercar a região, tem 40 metros de extensão e 2,5 metros de altura. A prefeitura de São Paulo afirmou que apenas fez a substituição, já que os tapumes eram frágeis e não garantiam a segurança de moradores e pedestres.

– Nós não recebemos a notificação do STF. Até na sexta fui questionado e disse que devia ser alguma informação desencontrada. Achei estranho um ministro do STF mandar uma notificação pra um prefeito para perguntar de um muro, e fiquei sabendo pela procuradora que tem instruído lá no STF um processo sobre o tema. Mas até agora não fomos notificados – disse Nunes.

O chefe do Executivo municipal destacou que, caso a prefeitura seja oficialmente notificada, responderá que a estrutura já existia ali, apenas foi reforçada para proporcionar segurança à população.