Francisco, Jô, Vilaça. Por José Paulo Cavalcanti Filho

  Por José Paulo Cavalcanti Filho  –  Escritor, poeta, membro das Academias Pernambucana de Letras, Brasileira de Letras e Portuguesa de Letras. É  um dos maiores conhecedores da obra de Fernando Pessoa. Integrou a Comissão da Verdade
  1. PAPA FRANCISCO.  Numa cantoria, os amigos João Paraibano e Sebastião Dias (saudades deles) encerraram um dos baiões de abertura (em sextilhas, sempre sobre um tema específico), dizendo

– O Papa da Argentina

Deixa a gente muito grata

Em vez de um anel de ouro

Preferiu anel de prata

Parece que ele não gosta

De usar broche nem gravata.

Esses cantadores… Papa usando broche? Ou gravata? Como é que pode? O próprio Francisco responde (numa entrevista sobre Tomás de Aquino): “Pedimos ao Senhor a capacidade de sorrir, a vida tem sempre algo para se sorrir. O senso de humor é um certificado de sanidade. O senso de humor humaniza. Humaniza tanto…”.

  1. JÔ SOARES. Numa conversa, Jô disse

– Maior sonho que tenho é o de ser Papa. Mas isso não posso, e é pena.

A ele expliquei que o Vaticano era uma Monarquia. Há dois tipos delas. Uma sanguínea, como a Inglaterra, onde só podem ser escolhidos aqueles de sangue nobre. “Azul”, assim se diz (embora seja tão vermelho como o nosso). Se chamam Reis (ou Rainhas). Enquanto a outra Monarquia é por votos (um só país, o Vaticano), dirigida por Papas.

Para ser um deles, precisa somente ser batizado. E recordei, a Jô, o Cânon 332 do Código de Direito Canônico: “Se o eleito não tiver caráter episcopal, será imediatamente ordenado Bispo”. Fosse ele e seria, então, Bispo Jô. E, em seguida, Papa (com o nome que escolhesse).

Sobre quem pode eleger, nisso teria que tomar providências. Expliquei que o Canon 33 do mesmo Código de Direito Canônico restringe, o colégio eleitoral, aos “Cardeais da Santa Igreja Romana com exceção daqueles que, antes do dia da morte do Sumo Pontífice ou do dia no qual a Sé Apostólica ficar vacante, tenham completado 80 anos”.

Naquele tempo, não lembro mais quantos eram. Hoje são 136, dos quais 108 nomeados por Francisco. Dito isso sugeri ao Gordo que bastava ele conseguir, em Roma, apoio para que os cardeais votassem nele.

– Quero não.

–  E por que?, homem.

– Vai dar muito trabalho.

E preferiu abdicar do sonho para continuar vivendo a vidinha boa que levava no seu belo duplex de Higienópolis (bairro nobre de São Paulo). Viva Jô.

 

  1. MARCOS VILAÇA. Nas sessões da Saudade do querido Vilaça, na Academia Brasileira de Letras e também na Academia Pernambucana de Letras, comecei dizendo

? Vilaça e eu não tínhamos nada em comum; e, portanto, tínhamos tudo em comum.

Explico melhor. Referi o momento em que nos conhecemos, em 1969, quando nosso Brasil vivia os mais duros anos da sombria Ditadura de 1964. Vilaça ocupou cargos importantes, em nosso estado e no país. Entre eles o de ser uma espécie de ministro da Cultura, quando foi Presidente da Fundação Pró-memória; diretor dos Centros Sociais Urbanos; ou diretor da Caixa Econômica Federal. Depois, ainda foi Ministro do TCU (e seu Presidente).

Enquanto eu apenas queria mais Democracia. O que me levou a ser proibido de estudar, no Brasil; e, depois, também proibido de ensinar. Sem contar ameaças do CCC e outros incômodos. Sobre esse tempo dr. José Paulo pai, me vendo calado (jamais esquecerei), disse

? Meu filho, se incomode não que um dia você ainda vai por tudo isto no seu currículo.

Mas essas diferenças jamais interferiram em nossa relação. Por fora da pompa e circunstâncias, prevaleceram sempre as relações pessoais. O que nos levou a ser compadres pelos dois lados. Maria do Carmo e ele, padrinhos de nosso casamento e dos filhos; Maria Lectícia e eu, padrinhos nos casamentos dos filhos dele.

Conto apenas um episódio, ocorrido naquele tempo, para dar exemplo de nossa relação. Era eu presidente do Diretório Acadêmico da Faculdade de Direito da Universidade Católica. E, certa vez, chegou por lá um militar da PM sem farda, em roupas civis, que disse

? O comandante da PM quer falar com o senhor semana próxima, no escritório dele.

Talvez por conta de processo que respondia por lá (depois cancelado, por envolver militar que frequentava um Hospital psiquiátrico, qualquer dia conto isso melhor). Respondi

? E onde está a intimação?

? O convite é de boca.

? Já que de boca é diga ao comandante, de boca também, que não vou.

Desapareceu do lugar e voltou 20 minutos depois, com (agora) uma intimação. Era para ir no dia seguinte, às 6:00hs da manhã, ao quartel da Polícia Militar.

? Agora sim, diga ao comandante que amanhã estarei na sua sala, com muito prazer.

Não sei se ele percebeu a ironia na resposta. E a hora foi uma espécie de vingança. Tanto que fiquei esperando, sentado, desde aquela hora bem cedo, até o meio da manhã, quando o comandante afinal chegou. Minha preocupação era só o fato de ser comum, naquele tempo, que opositores do governo desaparecessem como por encanto. E fiquei preocupado que algo assim também pudesse acontecer comigo. Então passei na casa de Vilaça, entreguei a ele a tal intimação, e disse

? Amigo, fique com esse papel. Se amanhã não aparecer em casa até a noite, você sabe onde estou. E, por favor, diga isso aos velhos.

Assim eram nossas relações que, com o passar do tempo, ficaram mais e mais sólidas. E por que digo isso?, agora. Para indicar que, mesmo em tempos duros, as pessoas podiam conviver bem. Havia mais compreensão. As relações pessoais eram prevalentes.

Passam os anos e chegamos ao Brasil de hoje, amigo leitor. Radicalizado. Irritado. Desalentado. Onde as pessoas têm dificuldades para conviver. Até dentro das famílias. Com sangue nos olhos. O passado era melhor que o presente. Pobre de nós. Pobres país. Saudades de um Brasil que não existe mais.

 

Collor foi preso às 4 horas da madrugada, quando ia viajar para se entregar em Brasília

Ex-presidente Fernando Collor é preso em Alagoas

Collor foi preso quando ia se entregar espontaneamente

Deu na CNN

O ex-presidente Fernando Collor de Mello foi preso na madrugada desta sexta-feira (25), em Maceió, Alagoas. A informação foi confirmada pela defesa de Collor. A prisão ocorreu às 4 horas quando ele estava se deslocando para Brasília para cumprimento espontâneo da decisão do ministro Alexandre de Moraes, diz a defesa.

Neste momento, o ex-presidente está custodiado na Superintendência da Polícia Federal na capital alagoana. Leia abaixo a nota na íntegra:

“A defesa da ex-presidente da República Fernando Collor de Mello confirma sua prisão hoje, 25 de abril, em Maceió, às 4 horas da manhã, quando estava se deslocando para Brasília para cumprimento espontâneo da decisão do Ministro Alexandre de Moraes. O ex-presidente Fernando Collor de Mello encontra-se custodiado, no momento, na Superintendência da Polícia Federal na capital alagoana. São estas as informações que temos até o momento”.

ORDEM DE PRISÃO – Nesta quinta-feira (24), o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), havia determinado a prisão do ex-presidente. Moraes rejeitou o segundo recurso da defesa de Collor, que foi condenado — em maio de 2023 — a oito anos e dez meses de prisão por participação em esquema de corrupção na BR Distribuidora, atual Vibra.

Em 2023, a Corte havia condenado o ex-presidente por participação num esquema de corrupção passiva e lavagem de dinheiro, que facilitava a celebração de contratos para a empresa. A denúncia surgiu no âmbito da Operação Lava Jato, e foi relatada partir da delação premiada de Ricardo Pessoa, ex-presidente da UTC.  Entenda porque Collor teve prisão determinada por Moraes.

Thiago de Mello, um poeta que não aprendeu a lição de que é melhor ser acomodado

Tribuna da Internet | Os Estatutos do Homem, segundo o inesquecível poeta Thiago de Mello

O poeta amazonense Amadeu Thiago de Mello (1926-2022), no poema “Não Aprendo a Lição”, mostra como é difícil conviver no mundo feroz dos homens, frente ao poder que se alimenta da fome dos injustiçados.

NÃO APRENDO A LIÇÃO
Thiago de Mello

A lição de conviver,
senão de sobreviver
no mundo feroz dos homens,
me ensina que não convém
permitir que o tempo injusto
e a vida iníqua me impeçam
de dormir tranquilamente.
Pois sucede que não durmo.

Frente à verdade ferida
pelos guardiães da injustiça,
ao escárnio da opulência
e o poderio dourado
cujo esplendor se alimenta
da fome dos humilhados,
o melhor é acostumar-se,
o mundo foi sempre assim.
Contudo, não me acostumo.

A lição persiste sábia:
convém cabeça, cuidado,
que as engrenagens esmagam
o sonho que não se submete.
E que a razão prevaleça
vigilante e não conceda
espaços para a emoção.
Perante a vida ofendida
não vale a indignação.
Complexas são as causas
do desamparo do povo.
Mas não aprendo a lição.
Concedo que me comovo.