O nascimento do meu neto Théo é o renascimento do meu mundo. Por Flávio Chaves

Por Flávio Chaves – Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. Foi Delegado Federal/Minc – Nasceu meu neto. E com ele, algo também nasceu em mim — algo que eu não sabia que ainda podia nascer. Foi como se o tempo, que até então só me levava, tivesse parado um instante para me devolver algo essencial. Um presente embrulhado em silêncio, em choro de recém-nascido, em mãos miúdas que ainda não sabem segurar o mundo — mas já sabem habitá-lo com beleza.

O nome dele é Théo. Tão pequeno no corpo, tão imenso no significado. Ele veio de minha filha, Ada Cecília, e de seu companheiro Daniel Gadêlha — dois nomes que agora se transformaram para mim: não são mais apenas filha e genro, mas também mãe e pai de um milagre. Olho para ela, minha filha, e vejo nela não apenas o ventre que gerou, mas a história que continua. Sinto, nesse instante, que fui pai para que ela pudesse ser mãe. E que tudo valeu.

Théo é um sopro novo que me atravessa o peito. É como se ele tivesse trazido com seus olhos fechados uma nova chance de ver a vida com mais doçura. Ele não fala, mas já me ensina. Não anda, mas já me leva longe. Em seus movimentos delicados, carrego o peso leve de um futuro que agora tem nome.

E no fundo, meu neto é também uma ponte: entre mim e minha mãe, entre mim e meu pai, entre mim e os que vieram antes e os que ainda virão. Ele carrega em si o sangue que um dia correu em mim, e agora correrá por muito além de mim. É um espelho do tempo que ainda pulsa, mesmo quando a gente se distrai com o que passou.

Ser avô não é apenas um título — é uma epifania. Um reencontro com a ternura que o mundo insiste em esconder. E ao olhar para Théo, percebo que não se trata apenas de dar continuidade ao nome da família. Trata-se de manter vivo o amor. De reaprender o encanto. De se deixar inundar por esse afeto que não exige nada além de presença.

Sim, nasceu meu neto. Mas, ao lado dele, nasceu também um novo pedaço do meu coração. Um pedaço que agora bate fora do meu peito — num bercinho de esperança, de promessas, de auroras que ainda virão.

A música que escuto de longe traz o rosto dela.  Por Flávio Chaves

 Por Flávio Chaves – Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras. Foi Delegado Federal/Minc – Há amores que não voltam. Mas também não se vão. Ficam ali, parados no tempo, como porta entreaberta em casa vazia. São amores que esqueceram o caminho das palavras, mas ainda sabem onde a gente mora por dentro.

Agora é madrugada. E eu ainda estou aqui. Não por mim — porque de mim mesmo, já me perdi tantas vezes por esse amor. Estou aqui por ela. Por esse sentimento que não me larga, que não me solta, que não me liberta. Um amor que parece ter me esquecido mas que eu nunca consegui esquecer.

A rua está vazia. A cidade dorme. Mas no fundo do peito, algo vigia. De algum lugar lá fora, uma música começa a tocar — lenta, antiga, como se soubesse tudo que eu carrego no peito. E essa música, essa música traz o rosto dela. O jeito como ela me olhava. A voz que dizia meu nome com uma ternura que ninguém mais soube imitar. O cheiro dos cabelos molhados, a delicadeza de suas mãos encaixadas nas minhas. Tudo está ali, escondido entre os acordes. Tudo ainda toca, mesmo que ela não toque mais em mim.

Ela era a sinfonia dos  abraços. O silêncio entre os beijos. A brisa que entrava pela janela quando o mundo parecia menos duro. Agora, ela é apenas ausência. E ainda assim, é tudo.

Não há mais cartas. Nem chamadas. Só essa memória viva que insiste em existir — como uma vela que não se apaga mesmo quando não há vento. O amor que tive, ou que ainda tenho, vive nos detalhes. No café que não preparo mais. No travesseiro que permanece vazio. Nas palavras que engasgam quando tento explicar o que já não sei dizer.

Quantas vezes já desejei abrir a porta e encontrá-la ali — com os olhos cheios d’água, dizendo: “Voltei porque não consegui te esquecer”? Mas a porta não se abre. A maçaneta continua fria. E o som que ecoa é o de um portão de ferro batido no instante da despedida.

O amor, quando é verdadeiro, não precisa mais de corpo. Ele sobrevive daquilo que ficou: uma frase, um gesto, um silêncio. E mesmo que tudo se cale, ele continua falando. Às vezes alto. Às vezes baixinho, feito essa música que agora escuto de longe, e que traz o rosto dela com uma nitidez que corta o ar.

E eu me pergunto, como quem sussurra dentro do próprio cansaço:
Quem virá me acudir nesta madrugada — mesmo que seja por dor ou piedade?

Talvez ninguém.
Talvez apenas eu mesmo, tentando me salvar de um amor que nunca deixou de doer.

O vermelho da vergonha. Por CLAUDEMIR GOMES

Por CLAUDEMIR GOMES – “Qual a cor do cavalo branco de São Jorge?”

A resposta está embutida na pergunta, mas a indagação sempre foi feita para observar se a pessoa tinha raciocínio rápido; se estava focada na sabatina… Apesar da clareza do óbvio, havia sempre alguém que escorregava na brincadeira de criança.

No Brasil brasileiro, terra do futebol, samba e pandeiro, ninguém, do Oiapoque  ao Chuí, mas ninguém mesmo, é capaz de errar as cores dos uniformes da Seleção  Brasileira: amarelo e azul.

Pois bem! Algum marqueteiro dormiu com a bunda pra lua, acordou com o fiofó virado e bradou para um bando de idiotas: “Vamos trocar a cor do segundo uniforme da Seleção Brasileira. Sai o azul e entra o vermelho!”.

Seus pares, um bando de idiotas, num coro uníssono aplaudiu.

Apesar do sol escaldante, o som dos trovões foi assustador. Fenômeno sobrenatural. Descobriu-se que o estrondos foram oriundos dos sopapos dados por Pelé, Garrincha, Nilton Santos, Vavá…, e outros deuses do futebol em seus respectivos túmulos. Ao testemunhar aquele protesto que quebrou o silêncio do além, o mestre Nelson Rodrigues lembrou sua profecia: “Os idiotas ainda vão tomar conta do mundo. Eles são muitos”.

Se cá estivesse entre nós, o mestre Adonias de Moura seria taxativo na sua coluna – Dentro e Fora das Quatro Linhas:  “Isto é a avacalhação da guerra”.

Confesso que, ao tomar conhecimento do deboche, que chega a praça escudado no mote do “futebol é negócio”, fiquei roxo de raiva. Consultei amigos, pesquisei em jornais, sites, blogs… nenhum formador de opinião abraçou tal idiotice.

Lembrei que, ao ler o bom artigo do amigo, Alfredo Bertini, na Folha de  Pernambuco, ele ressaltava o histórico alerta: “No creo em brujas, pero que las hay, las hay”.

Numa rápida conversa cá com meus botões, deduzi que isso só podia ser catimbó. De imediato liguei para Bernardino Magalhães, meu guru para assuntos de umbanda. Do alto do seu conhecimento o Berna  explicou:

“A seleção continua com o amarelo de Oxum. Está trocando o azul de Ogun pelo vermelho de Xangô. Ogun é um orixá guerreiro, representa força, coragem e justiça, marcas da conquista do primeiro título que o Brasil conquistou com a camisa azul. A troca não deixa de ser um insulto”, comentou o místico sertanejo.

O disparate é tão grande que, o festival de memes superou todos os outros que aconteceram até então. É a força do futebol.

Bom! Xangô é o orixá da justiça. Certamente ele não vai deixar que se cometa esse crime com a Seleção Brasileira.