TEMPO PRESENTE Magno Martins e seu pai Gastão Cerquinha,meu amigo
Residente em Afogados da Ingazeira, meu pai, Gastão Cerquinha, 91 anos, veio matar a saudade dos filhos que residem no Recife. O tempo só passa para ele nas complexidades físicas, porque a cabeça e o seu espírito continuam jovens.
Bom de prosa, o levei, há pouco, para provar das iguarias de um típico restaurante mineiro. Refiro-me ao Receitas de Tradição, do meu amigo André, localizado na Rua Manoel Arão, 116, no Espinheiro, a 500 metros da redação deste blog.
Ali, num ambiente simples e agradável, que lembra muito os casarões sertanejos, é possível provar os mais irresistíveis pratos da culinária de Minas, como o leitão a pururuca.
Bom de garfo, meu pai aprovou o tempero de André. E enquanto degustava os pratos rememorava causos sertanejos. Apesar da idade avançada, meu pai ainda tem uma memória privilegiada.
O papo, provocado por mim, girou em torno do meu avô, uma figura que venceu todas as adversidades de vidas secas para criar e educar seus filhos.
Sua profissão? Sapateiro. E dos bons! Acordava cedo, antes de o sol raiar. Não chegava sozinho ao ateliê. Levava toda a prole dos herdeiros machos para ajudá-lo na árdua atividade, entre eles meu pai, que confessou verdadeira ojeriza ao cheiro da graxa e da tinta usada na confecção das sandálias e alpercatas.
“Eu não suportava o cheiro da graxa e por isso mesmo corri para abrir meu próprio negócio”, disse, referindo-se à padaria que abriu. Papai não correu sozinho da parada.
Tio Coió abriu uma mercearia; tio Paulo virou motorista; tio Benedito, bom cozinheiro, criou um restaurante e tio Vicente, mais conhecido como Cheiroso, ganhou o mundo, se fixando em São Paulo.
Resumo da ópera: meu avô, que adorava se apresentar como um dos maiores sapateiros na região, não fez seu herdeiro no ramo. Mas deixou a sua grife: Calçados Seixas.
Augusto, seu nome de batismo, usava o Seixas como sobrenome e não Cerquinha ou Fonseca. O meu Martins vem da minha mãe, nascida em Afogados da Ingazeira, mas criada entre Monteiro, na Paraíba, e Garanhuns.
Papai foi contando mais detalhes da sua vida. Revelou que casou em 31 de dezembro de 1949 e, no mesmo dia, ao invés de viajar em lua-de-mel, foi trabalhar na padaria, junto com minha mãe.
Só dormiram juntos, pela primeira vez, depois de atenderem ao último cliente na padaria. Não duvide! No passado, as coisas eram assim mesmo!
Como em Afogados da Ingazeira não tinha televisão, papai danou-se a fazer filhos. Caprichou, fez uma ninhada de meninos: nove ao todo, sendo cinco homens e quatro mulheres.
Apaixonado por política, meu pai foi eleito vereador e vice-prefeito do município. Quando estava preparando a beca para realizar um dos seus sonhos – prefeito da sua cidade – foi traído pelo cacique do seu grupo naquela época, o também comerciante José Rodrigues de Brito, o Zezé.
A partir dai se dedicou ao comércio, trocando a padaria pelo ramo de miudezas em geral. Meu pai é assim: a cada conversa, uma revelação. Por isso, adoro puxar prosa com ele, especialmente quando estou em Afogados da Ingazeira.
Ali, a gente remói o passado na calçada, olhando para a lua e sentindo a brisa da noite sertaneja.
Ao sugar da fonte paterna tanta sabedoria, relembrei um trecho de Guimarães Rosa, cuja obra meu pai tanto aprecia também:
“O correr da vida embrulha tudo.
A vida é assim: esquenta e esfria,
aperta e daí afrouxa,
sossega e depois desinquieta.
O que ela quer da gente é coragem”.