Fevereiro na ponta do mundo é tempo de frio. A neve cai leve, constante, impiedosamente sobre a rua deserta. Talvez seja porque o frio não convide. Ou talvez sejam as pessoas que não são capazes de abraçar alegria transitória, efêmera, ilusória.
Na ponta do mundo, Pierrot não aparece. Colombina não ama. Arlequim não chora. Não tem desfile na TV, samba no radio, bloco na rua, nem desfile na avenida. Carnaval não há.
Carnaval, somente sobrevive na imaginação ou na tela dos computadores daqueles que, em exílio voluntário ou não, acompanham o que se passa nos trópicos.
Mas ainda que os meios de comunicação não mostrem, não deixa de ser interessante saber que, mais uma vez, as escolas desfilaram na avenida. Perceber que tudo se passou de maneira precisa, perfeita, alegre, e organizada.
Parece um pequeno milagre. Milagre artificial, gerado todos os dias do período entre dois carnavais. Nascido da criatividade das pessoas que o produzem e regado pelo suor daqueles que a executaram.
O desfile é o triunfo do planejamento, determinação e trabalho sobre o imprevisível e o imponderável. É daquelas coisas pouco explicadas e quase nada estudadas.
Foto: Alexandre Durão / G1
Em um país onde atrasar não tem consequência, escolas de samba esbanjam pontualidade. Entregam perfeição onde se cultua o jeitinho. Recompensam a ambição sem compromisso com a mediocridade. Desmentem a descrença no planejamento. Esbanjam criatividade, mas valorizam a capacidade. Transformam sonhos em objetos tangíveis.
As escolas de samba são a prova de que criatividade não é antônimo de planejamento. É, ao contrario, onde a organização encontra a ordem. Onde a realidade concreta brota de sonhos artísticos.
Escolas de samba são testemunhas e evidencia do que é possível ser feito quando comunidades se organizam em torno de um objetivo claro, comum e bem definido. Demonstram que tudo aquilo que pode ser concebido, pode ser executado. Basta organizar, acreditar e trabalhar.
Escolas de samba acreditam na sua capacidade e trabalham para realizar seus objetivos. Provam acreditar ou não própria capacidade é questão de escolha. E demonstram que talento, ambição, mérito e trabalho, quando combinados, fazem toda a diferença.
